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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

SP: ZONA LESTE - Projeto social em Guaianases vira filme

Por Escobar Franelas.

"Em 2007, alguns moradores insatisfeitos com a realidade violenta da região do Lajeado, em Guaianases, passaram a usar a 7ª arte como ferramenta de transformação social e política, primeiro no formato de cine-debate, onde abordavam questões como violência, políticas públicas, convívio comunitário, entre outros assuntos do dia a dia da comunidade.



Faltando espaço para receber a todos os interessados, que aumentavam a cada sessão, o grupo se articulou em uma grande ação que revitalizou um terreno abandonado que era utilizado como depósito de lixo e ponto de venda de drogas. A iniciativa tinha a intenção de suprir a ausência de praças, quadras esportivas, parques e alternativas socioculturais que trabalhassem a perspectiva de futuro de crianças e jovens.

Por isso, a intervenção dos moradores transformou o lugar em um campo de futebol, de convivência e, com o tempo, cinema a céu aberto. As sessões começaram a ser programadas nos moldes dos cines-debate que aconteciam nas casas, e como a sala de cinema mais próxima estava a 18 km e alguns reais de distância, o público invadiu o campo para aproveitar a novidade. Não demorou muito para que o lugar ficasse conhecido como “Cine Campinho” e virasse ponto de referência cultural no bairro.

Anos depois, alguns frequentadores dessas sessões resolveram produzir seus próprios filmes e formaram o coletivo Lentes Periféricas, que em 2014 apresenta sua primeira produção - um documentário sobre o acesso à cultura e ao lazer na periferia da cidade sob o olhar do que foi e significou a ação do Cine Campinho para a realidade do bairro.

O filme será lançado em 29 de novembro no mesmo local onde são exibidos mensalmente as obras que os frequentadores do Cine Campinho assistem às exibições. A pré-estreia do documentário “Doc. Cine Campinho” no lugar que foi palco de toda essa história, no campo localizado na rua Alessio Prati, próximo a Escola Municipal Dias Gomes, Jardim Bandeirantes, Guaianases, é um ato carregado de simbolismos, resistência e afirmação. Se ver filmes no "terrão" do campinho já tinha lá seu ineditismo, o público reconhecer-se entre as imagens que rolam na tela ampliam o sentido do protagonismo e do pertencimento. Todos lucram: a comunidade eternizada na tela, o coletivo que dá nome ao filme, que perpetua seu histórico peculiar e o Lentes, que nasceu para formatar este roteiro mas dá mostras de que pode arriscar-se em voos ainda mais altos."

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

SP: ZONA LESTE - Noites Dionisíacas

Por Manoel Gonçalves (Manogon).

 

Era uma noite paulistana quase comum. Uma sexta qualquer, uma noite qualquer, depois de um expediente comum a todos os outros dias. Afinal, tudo seguia na mesma. A cidade virou um caos com o quase inerte trânsito costumeiro. Os ônibus circulando abarrotados, o que diminuía as chances de uma viagem tranquila, mesmo com a facilidade da faixa exclusiva. Metrô e trem lotados. Euforia para se preparar para as baladas. Sampa na correria de sempre. Mas, naquela sexta, 19 de setembro, porém, as coisas eram um pouco diferentes. No meio do caminho havia uma casa, uma Casa Amarela.


A ordem do dia era um compromisso com a arte, uma reverência a Dionísio e à magia do fazer teatral. Uma noite dedicada a mais uma vertente artística dentro da Casa Amarela. Vertente não inédita por lá, é bom que se diga, pois a Casa Amarela iniciou seus trabalhos por meio de intervenções cênicas, de pesquisa, oficina e encenação com o Grupo Teatral Alucinógeno Dramático, o qual segue outros promissores caminhos agora, mas é lembrado ainda como um dos expoentes culturais na seara artística da região e com prestígio pelos frequentadores da Casa Amarela.

O evento, batizado temporariamente (ou não, como diria Caetano) como “Sextas Cênicas”, vinha sendo costurado há algum tempo, em conversas de boteco entre Akira Yamasaki, Sueli Kimura, Escobar Franelas, Luka Magalhães e eu, Manogon. Entre bons goles de café (diria garrafas), biscoitos e viagens mil, decidimos colocar à prova a proposta. Como pontapé inicial, em busca de um formato adequado à Casa e viável aos visitantes/frequentadores, diretamente do baú literário de Luka Magalhães, foi marcada a leitura cênica do monólogo “Ascensão, Apogeu e Queda de um Homem Qualquer”.

Expectativa e ansiedade, comuns a toda estreia. O público compareceu, embora maior na qualidade que na quantidade, devido a uma série de outros eventos e as dificuldades rotineiras da cidade e adequação de agendas. Papo costumeiro entre os presentes, com direito a café feito pela Sueli, torta de Luka e biscoitos providenciados pelo Escobar. Tudo pronto! Mas antes da leitura da peça, que era o prato principal, um aperitivo: uma performance feita por mim para a canção de Antônio Marcos, Sonho de um Palhaço. A esquete montada foi uma mistura, com pitadas de musical, interpretação e pantomimas, explorando o drama relatado na música. Sete minutos que ajudaram a preparar o clima para a entrada marcante de convidado especial.

Luka Magalhães subiu ao tablado e com mestria começou a expor a beleza de seu texto. Nas palavras de Escobar, um “texto denso, irônico, de sublimação”. A interpretação empregada por Luka para a leitura do monólogo ajudou o público a entrar na história desse homem qualquer. Dividido em três tempos bem definidos, as agruras e satisfações da personagem em sua obsessão de Querer, Ter e Perder, uma busca constante de superação das angústias e sede por vingança por quem o fez sofrer. Mas seria isso mesmo? Seria essa a sua vontade? Um personagem completo e complexo, o que nos fez imaginar e desejar uma montagem digna e com tudo a que tem direito, para um tempo e espaço não distantes.



Após as apresentações aconteceu, com muita descontração, um bate-papo sobre o entendimento do público, as percepções sobre o evento, o desejo que essa iniciativa se repita, ao menos uma vez por mês, numa sexta pré-determinada e também sobre projetos que envolvam as artes cênicas.

O que se pode colher do público é que eventos como esse serão bem-vindos, que a Casa Amarela cumpre com seu papel de fomentar a efervescência artística, que outros textos podem ser lidos, outras cenas devem ser exploradas e outros artistas têm de ser convidados a mostrar sua arte no tablado ou cômodos da Casa Amarela.

Enfim, ficou (e oxalá sempre fique) um gostinho de quero mais...

Aguardem e acompanhem!

Enquanto isso, dia 27 de setembro, sábado, tem mais um BláBláBlá, com outras abordagens sobre o tema Literatura Marginal.

E dia 11 de outubro, domingo, mais uma edição do Sarau da Casa Amarela.

Compareçam para prestigiar e levem sua arte.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

SP: ZONA LESTE - Setembrar... enquanto florescem as rosas na Casa Amarela

Ligia Regina
           
            Segundo Domingo do mês de setembro do ano de 2014.

            Sol ardente, da cor da Casa onde ao findar  a tarde, causa inveja neste, que é a principal estrela do sistema, pois em dia de Sarau a terra para de girar em torno “dele” por algumas horas, e uma mega variedade de estrelas incendeiam a Casa amarela.


            Para quem adentra pela primeira vez, na casa, e ainda estão apenas aqueles que a preparam para os movimentos posteriores, são guiados pelo aroma forte, do café, e assim nem precisa dizer onde é a cozinha, mas, com certeza, durante o curto percurso devem se indagar: “nossa mas pelo facebook parece tão diferente”!? ...sabemos que se referem a nossa infraestrutura ainda precária, onde os planos e sonhos permeiam papéis...

            Mas aos poucos percebemos suas feições já transformadas, então penso: “o vírus da CA já os contaminou!” Este vírus que se replica apenas dentro de células vivas, causa imediata receptividade, vontade de abraçar, sorrisos largos, emoções constantes a cada nova apresentação, e o sintoma mais curioso que temos notado ultimamente, é que uma quantidade enorme de pessoas que nunca se imaginaram sequer escrevendo, desembestaram a fazer poesia!!!

            A cada sarau o renovo não é apenas de nossa alma cansada do rotineiro dia a dia da sobrevivência habitual. Agora também se faz no próprio “sarau”, um renovo de repertórios dos frequentadores assíduos, da qualidade que cada um se impõe, instigado um pelo outro. Uma renovação, ou melhor, o que tem ocorrido é uma “agregação”, uma reunião de partes singulares, únicas, exclusivas, em partes homogêneas, formando um “todo”,  que se torna o mais próximo da definição que tenho para significar a “Casa Amarela”.
 Neste domingo esta agregação teve, também, o nome de peso dos Cordéis: Costa Sena, a intrepidez de Lika Rosa, a simpatia da 'Viajante do Trem', Andréia Gonçalves Garcia, a memorável apresentação performática da Bandadidois EosConvidados Fixos, os poetas Vandei Oliveira Zé,  Sidney Leal, Camila Freitas, a ousadia e coragem na declamação de Jarbas após 20 anos de silêncio poético, de César D. Oliveira, Flora Lima e o encantador Henry Lima de apenas 6 aninhos que sentadinho prestou a maior atenção nas apresentações, e todos os parceiros-amigos, que também são artistas fantásticos, nos encantam sempre, ausentes vez ou outra, mediante a enfrentamentos e resistências Culturais, atadas em cada caminhar!

            E finalmente para que este último Domingo, mereça o verbo setembrar ao pé da letra, fomos agraciados com um Show Musical do melhor da MPB, nada menos que na voz impecável do intérprete Carlos Bacelar! Se não bastasse tanto carinho e romance transmitido por ele em sonoras melodias, também distribuiu delicadezas em forma de Rosas portadoras de seu beijo, a cada mulher
que esteve neste lugar agregador, soberano lar da poesia!!!!!!!!


Ligia Regina: Artista Plástica, Arte Educadora, poetisa, cantora. Participou de Movimentos pela Cultura, Festivais de Música e de Teatro. Atuou no Movimento popular de Arte – MPA de São Miguel Paulista. Atua no coletivo “Casa Amarela - Espaço Cultural”.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

SP: ZONA LESTE - BLABLABLÁ NA CASA AMARELA - A ARTE DE ARGUMENTAR


Por Escobar Franelas.

O 15º Blábláblá na Casa Amarela, acontecido no último sábado, 30 de agosto, foi realizado sob o impacto da reportagem produzida um mês antes, durante o 14º. Naquela tarde de julho, a equipe comandada pelo Alessandro Buzo fez a cobertura do evento e então a reportagem foi apresentada agora, no quadro Periferia SP, do SPTV 1ª Edição (Rede Globo).

O Blablablá é um encontro de inteligências que mensalmente se reúnem na CA para debater um tema específico. Desta vez, o tema a ser debatido era “Redução da Maioridade Penal: Pra quê? Pra quem?”. E os convidados eram Marcel Cabral, arte-educador e editor do jornal Voz da Leste; Analice Pereira de Campos, psicóloga e pedagoga com larga experiência na formação de professores e estudos de temas ligados aos Direitos Humanos; e Arnaldo Bispo do Rosário, advogado e ex-subprefeito de Ermelino Matarazzo, que traz na bagagem um longo percurso dentro das lutas sociais da região leste desde a década de 1980.

Depois da canja especial proporcionada pelo casal Eder Lima e Lígia Regina, cantando e recitando músicas e poemas que retratam o universo infanto-juvenil, os três convidados apresentaram um pouco de seus percursos biográficos, até começarem a dialogar com o público presente.

Os primeiros apontamentos foram feitos por Marcel que, recorrendo ao pensador Michel Foucault, citou, “a escola é a base do autoritarismo”. Segundo ele, “o espaço público é o espaço da convivência mas o jovem aprende que espaço bom é o fechado”. Marcel, atualmente professor de História da Arte na ETEC, fez uma defesa apaixonada da educação como desencadeadora de modificações no contexto que vivemos. Apontou distorções de ordem sócio-econômica (“Uma Ferrari é um coisa violenta”), falhas estruturais (“Quem educa hoje é a mídia”) e erros conceituais na relação das pessoas com a memória (“O Carandiru ter virado o Parque da Juventude é um exemplo do apagamento da memória”).

Analice também recorreu a um pensador para embasar seu raciocínio, no caso do sociólogo polonês Zygmut Bauman. “O Marcel falou de Foucault, eu vou de Bauman”, brincou, na introdução de sua fala. A seguir, sentenciou, “é difícil falar de Direitos Humanos sobre a prerrogativa do indivíduo”. Anunciando que questões desse quilate devem ser discutidas dentro de princípios coletivos e não individuais, a pesquisadora exemplificou que qualquer pessoa agredida pensa em reagir pela lógica individual. Mas somente após pensar dentro do contexto do coletivo, é que é possível tomar decisões que são equilibradas e sensatas. Citando exemplarmente que “uma campanha publicitária é feita para quem não pode comprar”, explicou didaticamente como os princípios da frustração, do freio consumista e da auto estima são fundamentais para regular a atuação da criança, do jovem e do adulto dentro da sociedade. Provocada pela platéia, Analice aprofundou diversos questionamentos. O mais emblemático foi quando lembrou que “o fenômeno dos saraus é de extrema importância, mas ainda parece preso a uma certa ´intelectualidade´ periférica”.

Coube a Arnaldo dar cor e forma definitivos aos contornos que se desenharam durante todo o evento. O culto, popular e loquaz advogado impressionou as todos quando, fundamentando-se em dados estatísticos precisos, proclamou, “Até que estamos vivendo bons tempos atualmente”, explicando depois, “na Roma antiga, os filhos era propriedade dos pais, na Grécia eram propriedade do Estado, os hebreus não podiam mata-los mas podiam vendê-los”. E foi ao ponto: “somos precursores de uma lei muito moderna, o Estatuto da Criança e do Adolescente”. Ainda assim frisou, “agora que a lei foi regulamentada, falta implementar esta lei”. Rotulando que não pode-se combater câncer usando band-aid, Arnaldo esclareceu as diversas possibilidades de uso da lei, inclusive com medidas sócio-educativas, se fosse aplicada na prática: “o aumento da pena para crimes hediondos foi aplicado e foi um fracasso”, apontou.

Deliberando com argumentos ricamente baseados em dados reais, os debatedores, assim como o público participante (participante mesmo, com várias questões problemáticas sendo trazidas à tona!), no fim ficamos todos com a certeza (agora explicitada de maneira quase didática), de que a redução da maioridade penal – se aprovada – será um grande retrocesso nas conquistas sociais que o Brasil tem avançado nas últimas décadas. O sistema precisa de muitas correções de rota, nisso todos concordam. Contudo, é preciso, como quer Arnaldo, que o jovem não seja tratado como assunto policial mas sim como ser social. Corremos sempre o risco – preconizado por Analice – de que a fatura dessa conta seja paga sempre pelo jovem pobre, preto e periférico. Pois, como disse Marcel em dado momento, “só quem vai preso é filho de preso”. É preciso muita lucidez para equilibrar essa conta.

Confira o link da reportagem com o Blablablá de julho! Clique aqui!

terça-feira, 15 de julho de 2014

SP: Zona Leste - Sarau, Maracanã e Gaza

Por Escobar Franelas.

Parece incrível que, retomando um clichê recente mas que também já parece um tanto envelhecido – talvez pelas exaustivas repetições, o “a periferia agora é o centro” – realmente o caminho do consumo artístico tenha se tornado uma via de mão dupla, e em várias faixas de sentido. Ulalá!

Imaginar que o Sarau da Casa Amarela, ululante, vivo e regular em São Miguel faz mais de três anos, hoje permite-se receber poetas como Carlos Moreira, que, vindo de Rondônia, ofertou-nos de graça a graça de sua poesia farta e robusta ao público de toda a zona leste (incluo aí também o bairro Jardim Revista, na periferia de do município de Suzano), quando esteve por essas bandas em 2013 lançando seu icônico livro de poemas, “Cardume”. Imaginar mais, que agora são Adriane Garcia (poeta de Beagá) e Bianca Velloso (poeta de Santa Catarina), dois luminares que chegam por esses dias em São Miguel para transformar o lugar no núcleo poético por onde gravitará a fina flor da poesia que de melhor produz o país hoje – nossa! – quem poderia prever isso anos atrás?

Por anos a fio – décadas, séculos até... – nos acostumamos a tomar sempre o rumo do “centro”, o rolê tinha que ser na São João, na Paulista, na Faria Lima, na Aspicuelta. Tudo bem tudo bem tudo bem... Mas a grande sacada é que hoje o caminho pode ser o contrário, sair do porto seguro da zona sul para a zona leste é muito significativo pra evocar essa nova condição da portabilidade humana. Ou nos relacionamos todos, ou vamos todos virar inumanos, animais escondidos atrás de grades, câmeras e fitas de acesso vip no pulso.

Fato mesmo é que Adriane e Bianca chegam à Sampalândia por esses dias e na próxima sexta, sábado e domingo (18, 19 e 20 de julho) chegam nesse ex-rincão de taipas e agora de tijolinhos às vistas, andarão de metrô e trem, verão o Itaquerão agora sem os holofotes fíficos e, assevero, viverão intensamente essa epopéia pela Paulicéia cada dia mais desvairada, mais extensa, mais cosmopolita.

Aliás, falando em cosmopolitismo, parece incrível que passados apenas sete décadas da barbárie germânica contra os judeus e outras minorias (ciganos, negros, homosssexuais), hoje esses mesmos judeus – agora recuperados moral, social e militarmente pela mão apostólica estadunidense – judiam sem dó de palestinos desabrigados, numa briga de Sansão e Golias contra um diminuto Davi. Enquanto isso, os agora simpáticos alemães distribuem sorrisos e boas ações, fazendo com que a Copa das Copas não seja um mero exercício retórico, mas um fato declarado. Deste lado do Atlântico, lucramos nós, brasileiros, com um evento que quase chega a rivalizar ao nosso próprio carnaval em organização; lucraram eles, alemães, que souberam sincronizar à cada vitória uma empatia cada vez mais midiática. Os prejuízos (semrpe há prejudicados), estão ali, agora, prostrados, na Faixa de Gaza, onde não há espetáculo, não há fruição, não há gozo...

De um lado, sarau; de outro, a vida animal! Entre os dois, a final. Eita mundo doido, cada vez mais paradoxal!

quinta-feira, 10 de julho de 2014

SP: ZONA LESTE - Olha o trem aí, gente! Está recheado de histórias

Por Manoel Gonçalves

Condução é sempre uma aventura. Quem utiliza dos meios de transporte, todos os dias ou de vez em quando, sabe do que digo. Mas independente da intenção, por necessidade ou por lazer, é inegável que na condução a gente ri, chora, agoniza e testa paciência, dentre outras coisas.

Mas quem circula pela cidade por esses meios também compartilha de inúmeras histórias. Às vezes sem querer, às vezes por imensa curiosidade, é possível saber de parte da vida dos passageiros, de alguma aventura, romance, espertezas e muitas situações engraçadas. A verdade é que é preciso levar sempre na esportiva. Afinal, dependendo do trajeto, passa-se até 3 ou 4 horas na condução. Por conta desse convívio diário, muitos grupos de amigos se formam e a viagem sempre fica mais leve.

Sei que esse espaço é para destacarmos feitos e fatos da imensa e movimentada zona leste. Mas aproveito hoje para escrever sobre o livro de uma autora de uma região próxima à zona leste. Ela é do Alto Tietê, de Suzano especificamente. Usuária diária e de longa data dos meios ferroviários (trem e metrô) e aproveitando-se dessa fonte inesgotável e inspiradora de histórias, Andreia Gonçalves Garcia, com boa dose de curiosidade e observação, captou essas sensações e ações e escreveu o livro A Viajante do Trem. São crônicas engraçadíssimas sobre situações corriqueiras e extremamente comuns ao universo dos usuários. Assim, com irreverência, ela explica os tipos de usuários de metrô e trem, os nomes dados às estações, as canções que surgem no dia-a-dia e, principalmente, os "causos" inusitados que passam frente aos seus olhos.

Andreia também escreve colunas para jornais locais e para o jornal Estação, distribuído gratuitamente nos arredores das estações de trem e metrô. Ela também mantém o blog homônimo, A Viajante do Trem. Quem quiser conhecer um pouco mais, entra lá e curta o face dela também.
Aproveitando o tema, coloco aqui um poema que fiz:

Condução
Estava no vagão
Vagando pela cidade
Por túneis e trilhos
Vendo o vagar do trânsito
E o nada devagar
Agito dos transeuntes
Perdido nos pensamentos
De bobeira a divagar
Vendo o povo apinhado
À espera do metrô lotado
Em plataformas sem forma
Falta espaço, sobre cansaço
O trem encosta já cheio
Antes de o apito soar
Pra entrar tem de suar
O povo fica e suplica
Em vão a vaga que não veio
No vagão quase sem ar
Não há conforto nem lugar
Apenas o aperto rotineiro
Rostos apreensivos, fatigados
Inexpressivos, enlatados
E a vaga noção de seguir nos trilhos
Ensardinhados, bem DE-VA-GAR

 "- Paramos para aguardar a movimentação do trem à frente."
Manogon
Mas para não dizer que não falei da zona leste, preparem-se, pois em julho tem dose dupla do Sarau da Casa Amarela, que contará com convidadas especiais: Adriane Garcia (MG) e Bianca Velloso (SC), duas brilhantes escritoras, além de outros autores que acompanham a comitiva. 

Dia 18-07, será na Casa de Farinha, com o lançamento do CD Sarau da Casa Amarela, vol. 1 - Mutirão Cultural, exposição de artes de Euflávio Madeirart (esculturas em madeira) e Ligia Regina (quadros), pocket show com artistas da Casa Amarela e microfone aberto.

Dia 20-07 acontece o tradicional Sarau da Casa Amarela, na sua sede mesmo, com os mesmos autores convidados e os artistas que frequentam o sarau.

Dia 25-07 tem o Sarau da Casa do Chefe (agora chamada de Casa da Memória deItaquera), no centro de Itaquera.

E dia 26-07 tem a realização do Blá-Blá-Blá, na Casa Amarela, um debate com o tema "Literatura Marginal, o que é?", com os convidados Alessandro Buzo (escritor, cineasta e apresentador de TV), Sacolinha (escritor e produtor cultural) e Érica Peçanha (pesquisadora).


Manoel Gonçalves é designer gráfico, ator e poeta. Escreveu por dois anos e meio para o blog e site Desabafo de Mãe, como pai convidado, para expor seu ponto de vista sobre a difícil e prazerosa arte de criar e educar as filhas. Participou também de outros blogs literários.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

SP: Zona Leste - O lírico som da poesia n'A Casa Amarela

Por Lígia Regina.

Passo dias corridos, ao longo das semanas, tentando administrar as partes em que me divido, nem sempre são partes iguais, pelo contrário, subdividida sigo até em migalhas, para dar conta do que é de responsabilidade, o que é necessário, e finalmente do que é de “regalo”, contentamento da alma! Este último na verdade, na escala, a menor parte, é minha força motriz, e vem sustentando todas as outras partes!

Assim tem sido, a meu ver, os “Saraus da Casa Amarela”, momentos em que a alma de formas inusitadas, inunda-se de mimos, recebendo dádivas que nos deixam embasbacados...
Pessoas que vão chegando como um raio de sol, lançando faíscas por todas as frestas, e irradiam com suas performances, cativam com suas melodias, e dançamos embalados e eufóricos e emocionados com esfuziantes poesias!!!

A cada sarau, no momento que piso na CA, carrego comigo aqueles mesmos amigos, que a pelo menos trinta e poucos anos atrás, em tempos de MPA, caminhavam lado a lado, com “a mesma ânsia que eu”, embalando sonhos e acreditando que com música, teatro, artes plásticas, poesia...iríamos transformar o mundo!?!

Doce Utopia da juventude essa de querer “agarrar os cabelos do sol”.

Não mudamos o mundo, mas mudou minha maneira de ver o nosso mundo, de conviver com as pessoas deste mundo, e posso afirmar que viver fica bem mais interessante quando se vive com “arte”!!!

Posso dizer ainda, é que quando  chego na CA e no ar já se espalha o aroma do cafezinho da Célia, pra mim é pura poesia! Então passo para o abraço apertado da Sú, e isso me soa como poesia! O sorriso único de Clarice, Escobar de um lado para o outro, atrás de alguma coisa que só ele sabe onde está, o Akira posando de tranquilo, mas já pensando em como fará a abertura, o Eder desenrolando um emaranhado de cabos e ainda parando pra experimentar um som, o Gabriel juntando as latinhas... este é o som da poesia na CA,  e esta poesia é tudo que eu preciso no momento...

Pode parecer pouco...  mas é porque o que acontece a partir do momento em que o sarau inicia de fato, deixarei para um próximo relato... porque aí meu irmão!?, haja coração e  lacrimejar de olhos, para os efeitos colaterais que poderão lhe causar uma explosão de concentração generalizada da Poesia!!!


Lígia Regina é artista plástica,arte-educadora, poetisa e cantora; iniciou sua trajetória em Movimentos de Cultura, Festivais de Teatro e de Canção. Atuou no Movimento Popular de Arte (MPA) de São Miguel Paulista.


terça-feira, 20 de maio de 2014

SP: ZONA LESTE - Quem é que não quer ser feliz? Laru laru laru lara...

Por Manoel Gonçalves.

O fim de semana passado, assim como tem sido ultimamente, foi mais uma prova de que os olhos estão voltados ao extremo leste da cidade de São Paulo, como bem diz meu amigo Escobar Franelas, em especial Itaquera e adjacências.

Adilson Aragão e banda, Big Charlie, Luka Magalhães, Manogon, João Caetano do Nascimento, Lígia Regina e Éder Lima., Arnaldo Bispo, Euflávio, Gilberto Braz, Seh M. Pereria, Rosinha Morais, Inês Santos (recitando poemas seus e da poeta capixaba Cris de Souza), Punky Além da Lenda, Sacha Arcanjo, Romildo de Souza, Ceciro Cordeiro, Akira Yamasaki. Seh declamando poema de neuza ladeira.
Por conta do primeiro jogo oficial no Estádio Itaquerão, Arena Corinthians, Arena São Paulo, Arena Itaquera ou sei lá qual o nome que realmente será dado à nova casa do Timão, tivemos um aporte de jornalistas, torcedores e curiosos em terras nossas. Alguns ali estiveram pela primeira vez. Nesse caso, independente de você ser corinthiano ou não, vale pensar na região não só como fonte de notícia das páginas policiais ou como matéria de uma terra distante e precária. É bem verdade que o estádio em si não trouxe modernidade, mais infraestrutura para o bairro (além de túneis e viadutos), mais investimentos em saúde, educação e moradia. Continuamos com as mesmas dificuldades para atravessar a cidade para trabalhar e com os velhos problemas de outrora. Há muito a melhorar, mas essa exposição é um auxílio para que a população passe a cobrar o melhor uso de seus impostos e o valor de seu voto.

Edvaldo Santana e banda.
Porém, minha abordagem aqui não é meramente panfletária. É preciso enaltecer também a contribuição cultural da região nesse fim de semana. Cito aqui dois eventos que partilhei: a participação do Sesc Itaquera na 10ª Virada Cultural da Cidade de São Paulo e o 23º Sarau da Casa Amarela de São Miguel Paulista.

A programação do Sesc Itaquera, local de ampla área verde e com diversas atividades de cultura e lazer, começou na noite fria de sábado com um show eletrizante de Edvaldo Santana e banda, que esquentou o público com ritmos que vão de samba e xote a reggae e blues. Edvaldo é egresso de São Miguel Paulista, ex-integrante do grupo Matéria Prima e um dos muitos artistas que formavam o MPA (Movimento Popular de Arte); é uma figura carismática e extremamente conhecida no meio artístico, tendo feito parceria com grandes nomes como Tom Zé, Paulo Leminski, Ademir Assunção, Haroldo de Campos, Arnaldo Antunes, Lenine, Além dos bons e velhos parceiros de MPA.

 Edvaldo Santana no Programa do Jô.

Na sequência da programação do Sesc, Zé Geraldo cantando com sua filha Nô Stopa e participação especial de Chico Lobo, violeiro, cantor e compositor mineiro. Zé Geraldo, por si só, já contagia a massa e faz com que todos cantem seus sucessos, tanto os antigos, porém, com temas ainda atuais, quanto os mais recentes. Nô Stopa cativa pela bela voz, a presença de palco e o carisma. O convidado mineiro Chico Lobo deu um show à parte, extraindo belíssimos acordes de sua viola de 10 cordas. Essa foi a primeira etapa, pois já sabia que viria muito mais no domingo.
Adicionar legenda
Sarau contagiante tem de tudo um pouco, não é mesmo? O 23º Sarau da Casa Amarela de São Miguel foi assim. Desde o início até o fim, desfilando o talento de seus artistas, uma paleta multicor, com texturas e nuances para compor o belo quadro eclético que tão bem representa nossa diversidade cultural, um a um, em grupo ou sozinhos, assumiam a batuta e comandavam o espetáculo naquele palco, que apesar de aparentemente pequeno, se agiganta com a presença do artista. O sarau tinha como pontos centrais o lançamento do livreto de Carlos Rodrigues (Big Charlie), Cavalos no Peito, já comentado nesta coluna SP: ZONA LESTE por João Caetano do Nascimento; a promoção, por meio de um “segundo” lançamento, do livro de Escobar Franelas, Itaquera: uma breve introdução; e o convidado igualmente especial, Adilson Aragão e Banda, apresentando músicas da Semi-novos e Ousados e de outros projetos dos músicos. Adilson relembrou seu tempo de banda de formatura e barzinho, onde tocava todos os gêneros e outros “causos” mais pitorescos. Brindou a todos com músicas que iam de MPB ao rock clássico e blues, fazendo a abertura e o encerramento do evento.

Foto do 23º. Sarau d'A Casa Amarela.
Por aquele cantinho sagrado, com microfone aberto e equipamento a postos, também passaram Big Charlie, Luka Magalhães, Manogon, João Caetano do Nascimento, Ligia Regina e Eder Lima, Arnaldo Bispo, Euflávio, Gilberto Braz, Seh M. Pereira (que trouxe beleza aos olhos e ouvidos com um quadro e poesias de Neuza Ladeira, artista plástica e poeta mineira), Rosinha Morais, Inês Santos (recitando poemas seus e da poeta capixaba Cris de Souza), Punky Além da Lenda, Sacha Arcanjo, Romildo de Souza, Ceciro Cordeiro, Oswaldo Tiveron e Akira Yamasaki.

Por esses motivos, termino esse post com a sensação de que as coisas no extremo leste tendem a melhorar, se não no aspecto estrutural e “desenvolvimentista”, como diria Odorico, ao menos em cultura e lazer. Não se trata de distração para aliviar e sim de cultura para formar, informar e transformar. E que venha dia 30 de maio, com o Sarau da Casa do Chefe, no centro de Itaquera (ao lado do Terminal e do pontilhão da radial), a partir das 19h.

Manoel Gonçalves é designer gráfico, ator e poeta. Escreveu por dois anos e meio para o blog e site Desabafo de Mãe, como pai convidado, para expor seu ponto de vista sobre a difícil e prazerosa arte de criar e educar as filhas. Participou também de outros blogs literários.


terça-feira, 13 de maio de 2014

Coluna ESPECIAL - Itaquera: uma breve introdução


Por Jeosafá.

No sábado estive no lançamento do livro Itaquera: uma breve introdução, de meu mais novo irmão Escobar Franelas. A dia estava um tanto frio, embora com um sol de outono amarelo e leitoso escorrendo pelos canteiros da rodovia Ayrton Sena, caminho que percorri durante alguns anos, quando fui diretor do Liceu Camilo Castelo Branco, na rua Carolina Fonseca.

Aliás, fiquei muito feliz quando vi, ao retornar, que o mural feito por estudantes e pais de alunos na oficina de mosaico. coordenada, pelo artista plástico Valério da Luz, ainda se encontra à entrada do Maternal e Jardim do Colégio, como se pode ver pela foto que tirei no mesmo sábado:

Mosaico coordenado pelo artista plástico Valério da Luz e realizado por alunos, pais de alunos e professores do Liceu Camilo Castelo Branco, quando fui diretor da instituição, em meados da décadas de 2000.

O lançamento do livro foi na Biblioteca Municipal Sérgio Buarque de Hollanda, e é ocioso dizer que foi um sucesso. Fila para comprar o livro, fila para receber o autógrafo e o abraço do autor e um congestionamento saudável e feliz, daqueles que todo artista gosta.

Aliás, parabéns pela escolha do local, pois tanto o intelectual que dá nome à Biblioteca ficaria feliz em saber que um espaço que leva seu nome se presta à difusão do saber crítico e da boa literatura, quanto a própria Biblioteca, ao acolher o lançamento da obra de um artista e intelectual com o perfil ao mesmo tempo erudito e popular, cumpre sua função em grande estilo. Viva, pois, ao quadrado a administração do equipamento público que acertou em cheio.

O livro de Escobar é, desde agora, bibliografia obrigatória para quem deseja conhecer mais detalhadamente esse bairro, que ficará no centro do mundo durante o mês de junho. Misturando com grande felicidade a pesquisa histórica e do patrimônio imaterial com lide de poeta, o autor entrega ao leitor uma obra a um só tempo correta, do ponto de vista da pesquisa, e agradável, do ponto de vista do projeto gráfico - a começar da capa - e da linguagem.

O excelente músico Zulu de Arrebatá com a educadora Sueli Kimura.

Não sou nada nem ninguém, mas se alguém leva em consideração o que este ninguém que escreve por estas bem traçadas linhas de computador diz, então, compre o livro, que vale a pena, eu garanto. E sou capaz de ir às vias de fato contra quem falar mal de Itaquera: uma breve introdução. Falem mal de mim, mas não desse livro. E comprem, pois o escritor, que é bom, não vive de brisa.


Jeosafá é autor de ficção, poesia, ensaios e obras para formação docentes. Professor, lecionou por mais de 15 anos para a Educação Básica e para o Ensino Superior. Toda terça-feira, publica a coluna Por dentro da escola, para o blog da editora Nova Alexandria.




Leia também a coluna TROFÉU ESCRACHO DA SEMANA: Ai, ai Hadda, você era o Peter Perfeito dessas professoras em greve. Aqui, políticos, celebridades e famosos recebem o prêmio que merecem.

Se sobrar um dindim, depois do você comprar o livro do Itaquera: uma breve introdução, nãos seja unha de fome, compre o meu ZONA LESTE também. Assim sua coleção vai ficando completa rs rs rs.


Leia grátis o capítulo Mozart das lavadeiras.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Coluna SP: ZONA LESTE - A ilógica de Sísifo

A Casa Amarela Espaço Cultural
Casa Amarela: um espaço cultural pulsante.

O poeta, escritor, fotógrafo e videomaker Escobar Franelas inaugura hoje a coluna de terças-feiras SP: ZONA LESTE em nome d'A Casa Amarela - Espaço Cultural, que reúne artistas, professores, intelectuais, agentes e gestores culturais e realiza um significativo trabalho de ativação cultural a partir de sua sede, no bairro de São Miguel, Zona Leste de São Paulo.

Por Escobar Franelas.

Começar a primeira linha da primeira coluna em minha primeira participação nesse oásis literário, é – na falta de uma palavra mais bem elaborada – desconfortável. Pense num jogador mediano fazendo sua estrieia num time grande e sua estreia se dá jogando num Maracanã lotado numa tarde ensolarada de domingo! É o meu caso.

Falar o quê? Falar de quê? Penso, rememoro, repenso, me demoro: encontrar o assunto não é difícil, mais complicado é decidir sobre qual dos vários que assuntam (e assustam) a minha cabeça irá versar. São vários.

Minha primeira vontade é fazer uma propagandinha, afinal, lanço livro novo (o terceiro) nessa semana. Mas pudores me impedem de seguir este plano, vou pra outro terreno. Penso falar da Casa Amarela, um espaço cultural em São Miguel que ajudo a administrar e que se tornou, com o correr dos anos, a minha Meca, o paraíso onde me deleito, minha Macondo, minha Pasárgada. É lá que refinei a prática da cultura do abraço, onde encontro alguns dos mais leais e necessários amigos, meu refúgio em busca de paz, bom papo, arte prazerosa, boa bebida e boa comida.

A Casa Amarela tornou-se, com o passar do tempo, um templo onde, mais do que a fruição artística, somos agraciados com a poética da boa convivência, os prazeres das coisas pequenas, o orgasmo da arte sem muitos artificialismos, o criadouro de novas ideias. E quão belo é o espetáculo da arte sendo criada, remendada, aliterada, edulcorada! Parece o pôr-do-sol sendo revisto em câmera-lenta diversas vezes, por ângulos diferentes. É esse êxtase que vivo constantemente, quase uma rotina, gostosa repetição de coisas que me dão paz.

Por último, pensei em falar um pouco de produção audiovisual, uma de minhas paixões – assim como os livros – mas, embaralhando todas as cartas que escondi sob a manga da blusa, optei por dar uma banana pra dúvida e decidi escrever sobre ela: a dívida que tenho com essa dúvida. Esse afã é o que me move, me promove, me inaugura, dissimula, eleva e vela as minhas utopias. E de muitos.

Por isso, mesmo, pago sempre em moeda corrente e ainda assim fico devendo um troco para o dia seguinte.

E, de tanto tentar, saiu-me este textículo que entrou por uma porta, saiu por essa outra. Quem quiser que conte mais. Semana que vem!


Escritor, fotógrafo e videomaker paulistano e membro da UBE (União Brasileira de Escritores, Escobar Franelas publicou seu primeiro trabalho em 1989 - os poemas "Velhos Trapos" e "Opus Vivendi", na Antologia Poética de Pinheiros. Desde então ganhou alguns prêmios, entre os quais o Arte na Cohab/SP-Literatura (1998, poema "Pátrio Nosso"), 1º Prêmio Barueri de Literatura/SP (2003, poema "Balé"), e o 1º Concurso Chapecoense de Literatura/SC, (2004, conto "Anatomia de um Crime" e poema "Prostração"). Tem verbete na Enciclopédia Brasileira de Literatura (Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa (São Paulo, Global Editora, 2ª edição, volume 1, 2001, pg. 732). Publicou o livro de poemas, hardrockcorenroll (São Paulo: Scortecci, 1998) e o volume de prosa Itaquera: uma breve introdução (São Paulo: Editora Kazuá, 2014). Mantém o blog Vs. Eu   e a página no sítio literário Recanto das Letras. Colabora na coluna de terças-feiras SP: ZONA LESTE, assinada coletivamente pela CASA AMARELA.



 Leia também a coluna DR. MONSTRO, com histórias de arrepiar os cabelos.

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terça-feira, 29 de abril de 2014

PELA CIDADE - A Casa Amarela pulsa vida

A Casa Amarela debate cultura na Zona Leste nas décadas de 1980 e 1990.

Por Jeosafá.

Estive sábado passado (26/04/14) n' A Casa Amarela, espaço cultural, em São  Miguel Paulista, a convite do cineasta João Luiz de Brito Neto (Botinas no elevador, Brasil, 2010), para o lançamento do livro MovimentAções pela Cultura: Um painel dos movimentos culturais de região Leste de São Paulo, 1980-1990, de Patrícia Freire de Almeida, Julio Cesar José Marcelino e João Luiz de Brito Neto.

Com o auditório lotado, o debate seguiu quente durante mais de duas horas, em que o papel dos movimentos culturais, dos artistas e sua difícil relação com o Estado, nas três esferas (federal, estadual e municipal) estiveram em foco.

Além do resgate da experiência dos anos 1980 e 1990 na Zona Leste de São Paulo, debatedores e público examinaram a década de 2000 e a situação atual da cultura e dos movimentos em São Paulo, muitas vezes ameaçados em sua autonomia pela dependência excessiva em relação ao Estado, que se por um lado estimula a  produção via editais, por outro preserva a situação de instabilidade e precariedade do setor, uma vez que esses mesmos editais não têm caráter perene e muitas vezes resultam em práticas clientelistas.

A Apresentação do livro é esclarecedora:

No início do século XXI presenciamos uma grande mobilidade de grupos e coletivos
culturais das regiões periféricas da cidade de São Paulo que buscam participar e interferir na construção de políticas públicas de cultura que contemplem a suas necessidades de expressão e reconhecimento.
 
Assim, a partir da recuperação das lutas pela democratização da cultura nas décadas que serviram de espaço de pesquisa e reflexão aos autores, o presente é posto em foco, de maneira a tornar vivo um passado recente, mas cujas promessas de esperança ainda não se realizaram completamente. Na mesma Apresentação, ao final, sobre esse particular, os autores argumentam:

Entendemos que o presente material pode contribuir para ampliar e enfatizar a necessidade de haver outras perspectivas para a construção da história da cidade de São Paulo, proveniente de pessoas, grupos e movimentos organizados das regiões afastadas do centro da metrópole, trazendo-os para a grande História em estigmatizar ou supervalorizar, considerando que até mesmo a tentativa de construção destas estrutura ideológicas dentro dos próprios movimento é importante para entender suas contradições.


Embora a publicação e o debate tenham realizado uma espécie de balanço de décadas, o horizonte dos presentes, artistas e líderes culturais, foi a busca pela construção de um projeto concreto que, no campo da cultura, institua um clima fértil de produção cultural com repercussão em políticas públicas, mas sem a tutela do Estado que, na opinião dos presentes, deve ter papel estimulador e democratizante, mas nunca direcionador ou dirigista, o que é sempre o pior dos mundo para a livre criação.

A Casa Amarela – Espaço Cultural está localizada em São Miguel Paulista (SP), iniciou suas atividades em Março de 2011 e foi pensada para, em todos seus ambientes, respirar a criação humana e seus desdobramentos onde música, teatro, literatura, cinema, artes visuais, filosofia, história ou simplesmente a conversa entre seus visitantes possa ser aconchegante e convidativa para novas descobertas.