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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Brincando com a língua - Quando o nome sugere a coisa


Por Therezinha Hernandes.

Recentemente, surgiu no Brasil a palavra chicungunha, aportuguesamento de chikungunya, nome da doença que pode ser descrita como uma versão muito pior da dengue. O termo vem da língua maconde, um dos idiomas oficiais da Tanzânia, onde foi documentada a primeira epidemia da doença em 1953, e provém da raiz do verbo kungunyala, “tornar-se dobrado ou contorcido”, devido à aparência curvada dos pacientes, causada pelas fortes dores articulares e musculares. Em Angola, é conhecida como catolotolo, do quimbundo katolotolu, derivado do verbo kutolojoka, “ficar alquebrado”.

Não que eu queira falar de doenças – seria muito mórbido. Sério, sem trocadilho. Apenas fico intrigada com as palavras e sua sonoridade. Aliás, mórbido vem do latim morbos (estado patológico, doença), que originou morbidus (enfermo, doente, doentio). Não entendo como essa mesma palavra, em italiano, pode significar “macio”, “suave”, “delicado”.

De uma língua para outra, palavras que aparentemente pertencem à mesma família podem ter significados completamente diferentes – os falsos cognatos.

Mas existem palavras cujo som representa muito bem as coisas a que dão nome.

Já falei, aqui, sobre línguas puras, conceito praticamente impossível de existir. O nosso bom português do Brasil não é uma delas, para nossa sorte e alegria. Assim, assimilamos vocábulos de várias origens, até mesmo de línguas longínquas no espaço e no tempo, como o sânscrito e o persa: o pagode, tão popular como ritmo musical, veio do sânscrito e passou pelos significados de “templo hindu”, “ídolo indiano” e “festa barulhenta” – não preciso adicionar nada a este último quesito. Paraíso vem do persa, e designava um recinto circular. Depois passou a significar “pomar” (hebraico), “jardim ou parque dos nobres” (grego), até chegar a paradisus, “paraíso terrestre ou celeste” (latim).

Mas confesso que os sons das palavras de origem indígena e africana, no português do Brasil, são mais melodiosos. E, muitas vezes, já dão uma pista do seu significado.

Pipoca, por exemplo, já tem o “POC” para sugerir o som do estouro do milho, não é? Pois vem do tupi pi’poka, em que pira é pele, e pok, estourada – literalmente, a pele estourada do milho.

Pororoca, fenômeno natural produzido pelo encontro de águas fluviais com as oceânicas, é muito mais elucidativo do que seu sinônimo macaréu. Do tupi poro’roka, gerúndio do verbo poro’rog (“estrondar”), significa isso mesmo: estrondo.

O verbo tupi pererek, por sua vez, significa “pular”, “andar aos saltos”, e daí vem o nome do conhecido anfíbio – a perereca, que vive aos pulinhos. Explica também a analogia com o órgão genital feminino. Sem mais comentários.

Mingau tem uma sonoridade que por si mesma sugere algo mole, pastoso, e é isso mesmo. A palavra tupi minga’u quer dizer “papa”, “empapado”.

O verbo tupi nhe’enga quer dizer “falar”, e por isso a expressão “pare com esse nhen-nhen-nhen” significa “pare de falar tanto”, “chega de falar sem parar”.

Velha coroca é uma ofensa infelizmente comum. O verbo tupi kuruk quer dizer “resmugar”, e por isso “velha coroca” significa “velha resmungona”.

Quem nunca esteve na pindaíba? Isso também é comum. A palavra pertence à língua africana quimbundo, e se origina da junção de mbinda (“miséria”) com uaíba (“feia”), resultando em mbindaíba, cujo significado muita gente conhece.

Também do quimbundo vem a palavra moleque (mu’leke, “menino”).

Banguela deriva do nome de uma localidade angolana, Benguela, cujos habitantes, no passado, especialmente os homens, costumavam serrar os dentes incisivos.

Mas uma das palavras de origem africana mais utilizadas no nosso país é bunda, que também é originária do quimbundo, designando a mesma coisa.

Outra palavra africana de muito sucesso no Brasil é samba. Vem do quimbundo semba, que significa “umbigada”. Isso se deve ao fato de que, em Luanda, onde se originou a dança, num dado momento os pares trocavam umbigadas. Já no umbundo, outra língua de origem banta falada em Angola, principalmente na região de Luanda, a palavra significa “estar animado”. Isso parece ter mais relação com o samba brasileiro.

Bem, existem outras palavras cuja sonoridade parece sugerir significados totalmente diferentes dos que lhes são atribuídos – como falácia, que para Luís Fernando Veríssimo lembra algo vagamente vegetal. Mas isso fica para uma outra vez.

Por hoje, vou deixar de nhen-nhen-nhen, para não bancar a velha coroca.

Axê, e até a próxima.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Brincando com a língua - Arará cairota – se você encontrar uma, fuja!

As palavras sempre me apaixonaram, primeiro pela sonoridade, depois pelo desenho (sim, pelo desenho delas, quando eu ainda não sabia ler; até hoje sou fascinada pelos ideogramas de línguas orientais pelo mesmo motivo), e finalmente pelos significados misteriosos.

Essa sequência – sonoridade, forma, significado – representa as fases do aprendizado da língua.

Quando inicio um curso, sempre pergunto aos alunos: “O que uma criança aprende primeiro? A falar ou a escrever?”. A resposta é: nenhuma das duas. As crianças ouvem; só depois tentam reproduzir os sons.

Eu amava as vozes que falavam comigo. Talvez isso explique o amor que desenvolvi pelas palavras. Minha mãe cantava o dia inteiro; meu pai, às vezes. Lembro-me bem, por isso, da letra de “Serra da Boa Esperança”, cujas rimas sempre me encantaram: “Ó, minha serra, eis a hora/ do adeus... Vou-me embora./ Deixo a luz do olhar no teu luar – adeus!”. Não sei como, mas sempre entendi a metáfora de que os olhos do poeta não sairiam do rosto dele para ficar na terra que ele adorava, e sim que ele levaria a imagem na lembrança.


Creio mesmo ter sido esse também o motivo que me levou a gostar de poesia, com ou sem rima. Porém, há outro: meu pai adorava poesia e vivia recitando o soneto “Duas Almas”, de Alceu Wamosy:

Ó tu que vens de longe, ó tu, que vens cansada, 
Entra, e, sob este teto encontrarás carinho: 
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho, 
Vives sozinha sempre, e nunca foste amada...

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada, 
E a minha alcova tem a tepidez de um ninho, 
Entra, ao menos até que as curvas do caminho 
Se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa, 
Essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua, 
Podes partir de novo, ó nômade formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha. 
Há de ficar comigo uma saudade tua... 
Hás de levar contigo uma saudade minha...


E foi então que percebi: palavras podem ter significados misteriosos. “Lividamente”, “alcova”, “tepidez”, “nômade” – o que seria tudo isso? Por incrível que possa parecer, eu sabia o que era “esplendor”, pois no meu tempo de criança os adultos ainda diziam que algo muito bom era “esplêndido”, “fabuloso”, “encantador”.

Crianças têm uma curiosidade natural que faz delas verdadeiras esponjinhas: absorvem tudo que veem, que ouvem, e assim vão aprendendo.
Depois, quando fui para a escola, tive muita sorte. Talvez fosse minha curiosidade, ou então um pendor inato para gostar das pessoas sem maiores delongas, mas o fato é que eu adorava minhas professoras. Talvez elas se fizessem amar, por serem elas mesmas amorosas. Não sei bem qual a razão, mas acho sinceramente que tive muita sorte, pois logo uma dessas professoras disse a um dos alunos uma frase que me marcou para o resto da vida: “Como você me diz que não entende português? Você fala português há onze anos! Pense no que você fala, meu bem, porque já aprendeu a usar a língua. Agora só estamos dando nome aos bois...”.

Ela estava coberta de razão. Nós começamos ouvindo os sons, passamos a repeti-los, assimilamos as estruturas, e só no fim aprendemos os nomes das relações que se estabelecem. É uma gramática internalizada, um conjunto de regras que o falante domina (Possenti, 1996), ainda que não lhes saiba os nomes ou as fórmulas.

Mas, e os significados? E as palavras “difíceis”? Bem, isso se aprende. Pode não ser imprescindível para a eficiência da comunicação, não prova a inteligência de ninguém, mas o desejo de saber mais, de aprender coisas diferentes, é algo que não se deve desprezar.

Aprendi palavras “difíceis” por diversão. No início, era um jeito que meu pai encontrava de me fazer ficar quieta: “Não apoquente seu irmão!”. Ou, então, para salvar minha mãe da minha teimosia, ele me sugeria conjugar o verbo “desinquevinquevacar” (não, esse verbo não existe, mas garanto que qualquer criança abandonaria a travessura em que estivesse metida para desinquevinquevacar, seja lá o que for isso). Meus irmãos, vendo que a tática do meu pai funcionava, passaram a usá-la também. Eu parava na hora o que estivesse fazendo e perguntava: “O que é isso?”. Algo me diz que não fui uma criança muito pacata.

Porém, como tudo virava brincadeira – e qual criança não gosta de brincadeiras?-, acabei me apaixonando pelas palavras. Às vezes amamos pessoas difíceis, problemáticas. Por que não dirigir esse mesmo amor às palavras? Era assim que eu pensava. Até hoje é assim.

Bem mais tarde, quando comecei a lecionar, usei a mesma estratégia para apaziguar turmas agitadas demais: “Não estou falando nada perfunctório”. Ah, que ninguém subestime o poder que uma palavra nova tem de criar um silêncio sepulcral!

O gosto pelas palavras me tornou uma leitora voraz: nem rótulos nem bulas de remédio me escapam. Foi assim que descobri escritores tão ou mais apaixonados que eu. Da mesma maneira, percebi que um defenestrador contumaz pode se esconder na alma de Luís Fernando Veríssimo (leia aqui), que Rubem Braga poderia ficar ensandecido com uma arará, mas poderia ser salvo por um cairota, e também admirar-se com a pulcritude de uma dama (leia aqui), e que Manuel Bandeira e eu temos algo em comum: não sossegamos enquanto nossa curiosidade não for saciada (mas as semelhanças param por aí).

Luís Fernando Veríssimo, na crônica “Defenestração”, brinca com a sonoridade das palavras em relação ao seu significado. Rubem Braga, com muita propriedade, mas sem perder a leveza característica da crônica, se insurge contra questões de provas (no caso, de um concurso público) que exigem do candidato mais do que saber usar a língua, em “Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim”. Manuel Bandeira, por seu turno, leu a crônica de Rubem Braga e, movido pela curiosidade, pôs fim ao enigma (descubra aqui) na crônica “A fêmea do cupim”.

Certamente é inconcebível exigir de um estudante ou candidato, numa prova, que saiba essas filigranas da língua. Isso não lhe mede a capacidade de expressão, nem muito menos a inteligência. No entanto, esses três autores são grandes conhecedores da língua, são amantes das palavras como eu, e fazem com seus leitores o que meu pai fazia na minha infância: atiçam-lhes a curiosidade de forma divertida e, com isso, criam neles a preciosa vontade de aprender coisas diferentes.

O nome da fêmea alada do cupim pode interessar apenas para o cupim; quem nasce no Cairo inegavelmente é estrangeiro; mas, da minha parte, se encontrar uma arará cairota, fujo correndo, pois ela deve ser gigante.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Brincando com a língua - Diante de um angu-de-caroço

Por Therezinha Hernandes.
  
Uma das primeiras expressões de cuja origem tratamos foi “acabar em pizza”. Aberto o apetite, continuaremos no ramo culinário do português, dando uma canja ou uma colher de chá para que ninguém coma com os olhos nem chore as pitangas, pois quem tem vocação para arroz de festa não quer saber de encontrar caroço no angu. Se isso parece o samba do crioulo doido (veja aqui), melhor explicar logo.

Por ser uma bebida suave, muitas vezes estimulante e que pode ser preparada com plantas medicinais, o chá sempre foi oferecido a doentes. Os mais fragilizados o recebem às colheradas. Também é reconfortante, bom de beber no frio para esquentar e no verão para refrescar. Assim, dar uma colher de chá tanto possui o sentido de facilitar a vida de alguém, como se traduz numa expressão de carinho ou de ajuda a quem está de alguma forma necessitado.

Dar uma canja pertence à linguagem dos músicos, e não da culinária. Significa tocar de graça num determinado local (bares, casas noturnas em geral), mas também é habitualmente usada para designar o ato de tocar de improviso. Consta que a locução surgiu nos idos de 1960, quando o Clube dos Amigos do Jazz, entidade que reunia cerca de trezentos fãs desse gênero musical, passou a ser conhecido pela sigla CAMJA. Como o clube deixava os instrumentos musicais à disposição de seus frequentadores, os músicos diziam que iam “tocar no CAMJA”, e logo a expressão se transformou em “dar uma CAMJA”, até ganhar a forma atual.

Dizer que algo é “canja de galinha” não tem nenhuma relação com “dar uma canja”. A canja é um prato de fácil digestão, e por isso é a refeição mais comumente servida a doentes. Dessa maneira, tudo que é fácil, simples ou muito prático passou a ser chamado de “canja” ou “canja de galinha”.

Comer com os olhos normalmente expressa, de um lado, um desejo incontrolável, a inveja ou a cobiça de alguém; de outra parte, pode significar um olhar de reprovação, de ira, mas sem partir para a agressão física, como na frase “Ela parecia querer me comer com os olhos, de tanta raiva”. Mas a locução “comer com os olhos” vem mesmo da situação de ver uma iguaria e não lhe poder apreciar o sabor, independentemente do motivo. Denota um desejo insatisfeito, e vem da Roma Antiga, quando existia uma cerimônia religiosa consistente na oferta de um banquete em honra dos deuses, mas nenhum dos celebrantes podia tocar na comida – só podiam mesmo olhar. Outra expressão equivalente e bem popular no Brasil é “ver com os olhos e lamber com a testa”, ou seja, sem poder alcançar aquilo que se almeja.

Chorar as pitangas é mesmo uma analogia com a cor dessa fruta, cujo nome vem de pyrang, que em tupi quer dizer “vermelho”. Desse modo, chorar as pitangas significa chorar muito, até os olhos ficarem vermelhos.

Arroz de festa já é uma expressão mais alegre. Em várias culturas, o arroz simboliza a fartura – por isso ainda se mantém a tradição de jogar arroz nos noivos, após a cerimônia de casamento, para desejar uma vida de prosperidade. Mas o nosso “arroz de festa” designa aquela pessoa que não falta a nenhuma reunião, solenidade... enfim, qualquer ocasião. Arroz-de-festa é o nome dado em Portugal ao arroz-doce, sobremesa muito apreciada por fidalgos e plebeus portugueses, e também pelos brasileiros desde o século XVI. Entre os portugueses, esse doce era presença obrigatória nas festas – daí o seu nome, e também a analogia com aquela pessoa que se faz presente em todo e qualquer evento social.

A expressão angu de caroço demanda algumas explicações a mais. Denota algo difícil, complicado, insolúvel, ou uma situação constrangedora. O Dicionário Aurélio registra também seu uso como sinônimo de intriga, fofoca, mexerico.

Angu é uma papa feita de farinha de milho (fubá), que deve ser misturada primeiramente à água fria, para depois ser levada ao fogo, mexendo-se constantemente, caso contrário o fubá cria grumos (pelotas ou “caroços”) difíceis de serem desfeitos.

O nome angu origina-se da palavra àgun, do idioma africano fon, e designa uma papa de inhame sem tempero. No Brasil, refere-se a papas feitas com farinha de mandioca, milho ou arroz, as quais eram acompanhadas por miúdos de carne de vaca ou de porco. Com o tempo, a palavra angu passou a ser utilizada apenas para as papas feitas com fubá, enquanto as papas feitas de farinha de mandioca passaram a ser chamadas de pirão.

Quando o milho foi levado para a Europa, os italianos criaram um angu mais consistente, e assim surgiu a polenta, servida ora com molho, ora grelhada ou frita.

De início, o angu era simples, feito somente com fubá, água e sal, sem carnes ou outros ingredientes, para alimentar os escravos. As escravas da cozinha, porém, davam um jeito de esconder pedaços de carne ou miúdos para reforçar a comida dos companheiros da senzala, e daí surgiu outra expressão: “debaixo desse angu tem carne”, ou ainda “tem peixe nesse angu”, para representar algo escondido ou de que se deve desconfiar.


Apesar de o angu, por ser preparado com ingredientes baratos, ser “comida de pobre” e de escravos, a adição de temperos e carnes o faz muito saboroso. Desse modo, como nos informa o pintor, desenhista e professor Jean-Baptiste Debret (ou De Bret) em seu livro Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, o angu passou a frequentar a mesa dos senhores, os quais faziam piadas a respeito da iguaria, para resguardar as aparências, seu orgulho e seu amor-próprio – mas não deixavam de se regalar com ela. 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Brincando com a língua - Expressões populares e o mapa-múndi

Por Therezinha Hernandes.


 
Da expressão "Só para inglês ver".
Hoje em dia, ninguém mais faz acordos verbais – imperam os contratos escritos, mais seguros porque amparados pelas leis. Se alguém lhe oferecer um negócio da China, é melhor sair à francesa, pois a oferta maravilhosa pode ser só para inglês ver, sua vida financeira pode virar uma montanha-russa e no final ir para a cucuia. Você vai ficar sem entender patavina, mas terá feito uma volta ao mundo com essas expressões populares.

Negócio da China todo mundo sabe que é algo fabuloso, promissor, lucrativo. A comparação surgiu no século XVI, quando a distribuição dos cobiçados (e caros) produtos orientais na Europa, notadamente a porcelana chinesa, era um privilégio de Portugal, que dominava a rota de comércio das então chamadas Índias. Porém, a prosperidade despertou a cobiça de outros países, e navios holandeses e ingleses começaram a invadir as rotas portuguesas. Em 1600 foi criada a Companhia das Índias Orientais inglesa; em 1602, foi a vez da Holanda; em 1664, a França conquistou seu quinhão. Monopolizando o comércio de porcelana chinesa por aproximadamente três séculos, a empresa obteve lucros imensos. O bom negócio, então, deu origem à expressão popular.

Para inglês ver, significando uma ação feita apenas por aparência, ou mesmo para iludir alguém, vem dos tempos da Independência do Brasil, quando a Inglaterra passou a exigir o fim do tráfico de escravos e, para atingir esse objetivo (ou outros, não declarados), colocou embarcações suas patrulhando a costa brasileira. Em 1831 foi aprovada uma lei declarando livres todos os africanos desembarcados em portos brasileiros a partir daquela data, mas até o próprio governo fazia vista grossa em relação ao tráfico. No entanto, para não desagradar a Inglaterra, lançava ao mar navios que, só na aparência, deveriam perseguir navios negreiros que tentassem aportar. Desse modo, tudo que represente fingimento é “para inglês ver”.

Não sei se depois disso a Inglaterra saiu à francesa, mas essa expressão, que hoje significa sair sem ser percebido, especialmente quando se está diante de uma situação que pode ficar complicada, na origem representava falta de educação mesmo. Sair à francesa queria dizer sair sem se despedir, sem cumprimentar ninguém. Sua origem é confusa. Os franceses supostamente se irritavam com a descortesia inglesa, e assim nasceu “filer à l’anglaise”. Obviamente os britânicos não concordaram com isso. No início do século XIX, em Paris, passou a ser usada a forma “s’en aller à l’anglaise”. Alguns estudiosos supuseram que essa locução se devesse às derrotas sofridas por Napoleão nesse período (vencido e humilhado, o exército procuraria fugir sem ser notado), mas o fato é que a expressão é bem anterior, pois já era popular em Lisboa por volta de 1779, e nessa época Napoleão tinha dez anos de idade. Os franceses negam que a expressão seja usual em seu país, registrando apenas “sair à inglesa” como representativa de falta de cortesia. Já em Portugal, a locução já era de uso corrente nos tempos da rainha Dona Maria I (1734-1816; conhecida como “a Louca”, iniciou seu reinado em Portugal em 1777), não se devendo portanto ao Bloqueio Continental imposto por Napoleão em 21 de novembro de 1806. A origem dessa expressão, desse modo, permanece obscura.

Montanha-russa é uma das poucas expressões que retratam fielmente sua origem. Trata-se verdadeiramente de um esporte de inverno criado pelos russos entre os séculos XV e XVI. No início, as montanhas-russas eram feitas inteiramente de gelo, tanto a pista como os carrinhos. Estes eram escavados em blocos de gelo, recobrindo-se com palha a parte destinada ao assento. A aventura era entrar no carrinho escorregadio e descer a montanha em alta velocidade, mas era uma diversão perigosa, na medida em que o carrinho não tinha freios, nem havia como parar no final da rampa. É claro que muita gente se machucava, até que o brinquedo fosse aperfeiçoado e ganhasse o mundo.

Provavelmente muitos dos que se feriam nas montanhas-russas iam para a cucuia, mesmo sem o saber. Embora haja muitas controvérsias em relação à origem dessa locução genuinamente brasileira, consta que mapas antigos da cidade do Rio de Janeiro registravam uma área, na Ilha do Governador, em que se localizava um cemitério, inaugurado em 1904, cujo nome era Cucuia. Dessa forma, “ir para Cucuia” (sem o artigo “a”) significava desde o início morrer, como alusão a esse antigo cemitério, passando posteriormente a designar qualquer situação que não tivesse final feliz. Todavia, há quem defenda que cucuia deriva da palavra tupi kui, que significa “cair, ir para a decadência”, e a duplicação da palavra teria derivado kukui, resultando em cucuia, que não deixa de ser um nome bem apropriado para um cemitério.

Patavina se refere à cidade italiana de Pádua, cujo nome em latim era Patauium. A tradição diz que o historiador romano Tito Lívio, nascido em Pádua/Patauium, usava o latim de maneira bastante peculiar, de modo que as pessoas tinham dificuldade em entendê-lo. Outra explicação relata que os portugueses raramente entendiam o que os mercadores e religiosos patavinos (de Pádua) diziam.
Há uma relação bem interessante entre Portugal e a cidade italiana de Pádua. O famoso Santo Antônio, nosso querido casamenteiro, nasceu em Lisboa e morreu em Pádua. Assim, Santo Antônio de Lisboa e Santo Antônio de Pádua são a mesma pessoa.
De todo jeito, patavino é relativo à cidade de Pádua, e não entender patavina continua significando não entender absolutamente nada do que foi dito.

Mas, depois de todas essas explicações sobre locuções tradicionais da nossa bela língua portuguesa, acho difícil alguém dizer que não entendeu patavina.
Abraço e até o nosso próximo encontro.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Brincando com a língua - Que bicho te mordeu?

Por Therezinha Hernandes.


Eleição é coisa séria. Muitas vezes, porém, o eleitor se sente no fio da navalha ao se deparar com candidatos que são santos do pau oco, que viram a casaca na hora “H”, que sabidamente vão deixar o povo a ver navios... A voz do povo é a voz de Deus, mas, em tempos de murici, cada um cuida de si.

Alguém pode me perguntar “que bicho te mordeu?”. Respondo que nenhum; só aproveito o momento para mencionar outras expressões populares da nossa rica língua portuguesa.

A expressão “no fio da navalha” é bem conhecida, afinal são muitas as circunstâncias da vida em que nos sentimos assim. Representa uma situação crucial, de angústia, um momento decisivo, em que qualquer deslize pode ser fatal. Seu uso vem da tradução literal do nome de um romance do escritor inglês William Somerset Maugham (The Razor’s Edge), em que o personagem principal hesita entre levar uma vida convencional em Chicago, ou partir sem destino em busca de si mesmo. O sentido figurado de andar sobre o fio de uma navalha, contudo, já existia nos tempos de Homero, que o emprega na Ilíada.

“Santos do pau oco” também não são raros no nosso mundo, mas a expressão surgiu em Minas Gerais, no século XVIII, no auge da mineração. Para burlar os pesadíssimos impostos cobrados pela Metrópole, os proprietários de minas e os grandes senhores de terras colocavam parte de seus ganhos no interior de imagens ocas de santos, feitas de madeira. Algumas delas, em geral as maiores, eram enviadas a parentes em outras províncias, e mesmo a Portugal, como se fossem presentes. Para representar que as aparências enganam, também se usam as expressões “por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento”, “quem vê cara não vê coração”, “não se julgue o livro pela capa” e outras tantas. O povo é sábio.

“Virar a casaca” sempre pertenceu ao âmbito da política, representando uma certa “versatilidade” em mudar de partido e de opinião conforme a conveniência e os interesses de momento. Sua origem remonta ao século XVIII, possivelmente como referência a Carlos Emanuel III, duque de Saboia e rei da Sardenha. Para defender seu patrimônio territorial, fez várias alianças, ora se voltando para o lado dos franceses, ora para o dos espanhóis, segundo a utilidade e conforme qual deles o ameaçava. Para isso, alternadamente usava as cores nacionais desses dois países em sua casaca de gala. Virando a casaca o tempo todo, conseguiu ficar 43 anos no poder. História antiga. Hoje, basta que a roupa tenha dupla face, ou que a face seja dupla.

A “hora H” pertence ao “dia D”... Hein? Durante a Segunda Guerra Mundial, os Aliados planejaram uma operação para invadirem a França, ocupada pelos alemães, desembarcando na Normandia. Para manter o plano em sigilo absoluto, registraram apenas o dia com a letra “D” (Day, Dia), e a hora como “H” (Hour, Hora). Dia “D” e hora “H” representam um momento decisivo. Para constar: o dia “D” foi 6 de junho de 1944, e a hora “H” foi às seis da manhã.

“Ficar a ver navios” significa esperar por algo que não virá, que não acontecerá. Essa locução tem origem em Portugal, e se reporta à lenda do rico Pedro Sem, mercador do Porto, que viu seus navios de comércio naufragarem quando desafiou Deus a fazê-lo pobre. Todavia, também pode ser uma referência aos Sebastianistas (que aguardam o retorno do Rei Dom Sebastião, desaparecido na batalha de Alcácer-Quibir em 1580), que iam ao Alto de Santa Catarina, em Lisboa, para esperar a vinda do navio que traria “o Encoberto”.

Será o julgamento popular manifestação do pensamento divino? Não, não é bem assim. A crença é quase tão antiga quanto o mundo. Conta-se que em Farae, na Acádia, Norte do Peloponeso, havia um templo dedicado a Hermes, deus grego do comércio e da comunicação, pois era tido como o mensageiro dos outros deuses. Acreditava-se que ele respondia as perguntas dos devotos da seguinte maneira: o consulente, depois de se purificar, contava seu segredo ou sua dúvida bem no ouvido da estátua, cobria suas próprias orelhas com as mãos e só as destampava na entrada do templo, para prestar atenção aos transeuntes. As primeiras palavras que ouvisse de um passante seriam a resposta de Hermes. Conta-se também que Santo Agostinho (354-430), atravessando uma crise espiritual antes de se converter ao cristianismo, foi passear num jardim, quando ouviu uma voz infantil cantando um refrão que dizia: “Tolle, lege! Tolle, lege!” (“Toma, lê! Toma, lê!”). Ele então leu a Epístola de São Paulo aos Romanos e se converteu. Segundo as crenças populares de origem católica, há vários santos que respondem aos apelos dos fiéis utilizando as falas de quem passa na rua. Esse processo de invocar a manifestação sobrenatural por meio de palavras ocasionais ditas por pessoas do povo determinou a origem da expressão – Vox populi, vox Dei -, e não a ideia de que o senso comum representa o pensamento divino.

Sei que algumas pessoas vão ficar tristes agora, mas “murici” não é substantivo próprio, a despeito do nome de um conhecido treinador de futebol. É o nome de uma árvore típica das regiões Norte e Nordeste do Brasil (Byrsonima crassifolia), também conhecida como muruci, murici-da-praia ou murici-do-brejo. “Em tempo de murici, cada um cuida de si” foi uma frase que teria sido dita pelo Coronel Nunes Tamarindo, em março de 1897, no final catastrófico da coluna Moreira César, na campanha de Canudos, mencionada por Euclides da Cunha em Os Sertões. Segundo João Ribeiro, “murici” seria forma corrompida de morexi, morxi, murixi, mordexim, a cólera-morbo da Índia, e desse modo significaria que, diante de uma epidemia letal, a solidariedade se anula.

Porém, Luís da Câmara Cascudo registra que essa expressão não existe fora do Brasil, e portanto refere-se à fruta popular da Bahia ao Maranhão. Segundo suas pesquisas, a cambica de murici é referida como alimento de pobre. Nesse sentido, a expressão corresponde ao adágio português “em tempo de figos não há amigos”. Assim, em tempo de colheita (de figos ou de muricis) e na falta de outros alimentos, cada um busca seu interesse e proveito, coletando a maior quantidade possível de frutos. De qualquer maneira, a expressão se refere a que, em tempos adversos, a solidariedade desaparece.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Brincando com a língua - Das injustiças contra o gato e outros animais

Por Therezinha Hernandes.

Há muitas expressões no nosso português que envolvem animais, cujas características se prestam a lições de moral, seja por meio de fábulas, seja em provérbios ou em ditos populares.

Mas nem sempre se faz justiça aos pobres bichos, especialmente quando se procura comparar sua natureza à dos humanos – estes, sim, responsáveis por suas escolhas.

A cantiga infantil atira o pau no gato, mas ele não morre (como se devesse morrer, coitado!). Se alguma coisa não aconteceu como se esperava, deu zebra. Quando alguém tenta por várias vezes empreender um negócio e este sempre fracassa, é porque tem caveira de burro enterrada, ou alguém agiu como lobo em pele de cordeiro e sabotou o trabalho alheio. Talvez tenha aparecido uma borboleta preta, de mau agouro, e ninguém percebeu.

Pobres animais! Parece que a maioria das expressões em que eles aparecem tem relação com insucesso, maus presságios, muito azar – e quem não adora uma superstiçãozinha?

O primeiro grande injustiçado nas crendices populares é o gato, especialmente se for preto. Em tempos primitivos, a noite sempre foi um poço de temores para o ser humano. Daí a associação da cor negra a tudo que é misterioso ou que possa trazer malefício. Na Idade Média, acreditava-se que os animais de cor negra eram encarnações do demônio ou seus emissários. Vem dessas superstições a crença de que o gato, principalmente o preto, era o animal predileto das bruxas. Na época da Peste Negra, por conta da ideia de que esses animais eram os causadores da doença, os infelizes bichanos eram exterminados aos borbotões. Hoje se sabe que a falta de higiene da época atraía ratos, cujas pulgas, picando as pessoas, transmitiam a peste bubônica. Ou seja: os gatos, naturais predadores, teriam sido grandes auxiliares dos seres humanos ao caçarem os verdadeiros disseminadores da doença.

A suposição de que os gatos têm sete ou nove vidas (e aqui não vamos comentar a numerologia) vem do equilíbrio e da agilidade dos felinos, da ideia de que eles sempre caem sobre as quatro patas e, presumivelmente, não se machucam numa queda. Por isso o gato não morreu quando atiramos o pau nele na cantiga infantil. Talvez por isso, também, tenha sido o animal escolhido por Schrödinger para seu experimento mental.

“Estar de gato amarrado” é hoje uma expressão desusada, mas que designava alguém muito embriagado, “cercando frango” (alguém já tentou perseguir um frango fujão?), por estar cambaleando, em plena carraspana. Segundo o grande folclorista Luís da Câmara Cascudo, em seu livro Locuções Tradicionais no Brasil, a menção ao gato (no masculino) deve-se a um equívoco. A expressão originária era “amarrar a gatA (feminino)” e tem origem náutica, do tempo dos barcos a vela, porque “gata” era o nome da vela de maior dimensão do mastro de ré. Como esse mastro também era chamado de mezena ou mesena, a gata (vela) também era conhecida por esse nome.

Pois bem. Com a gata caçada ou ferrada (enrolada, amarrada), a nau oscila mais nas ondas do mar. Não é difícil imaginar como os marinheiros andam quando o navio está balançando desse jeito, e é por isso que o andar cambaleante do bêbado foi associado à “gata (vela) amarrada”. Quando a gata está solta, ela gera mais uma superfície de oposição ao vento, e assim o navio retoma um pouco de equilíbrio.

O jogo do bicho, considerado ilegal mas muito popular no Brasil, rendeu várias expressões pitorescas. Uma das mais conhecidas é “deu zebra”. A zebra não está entre os vinte e cinco animais do jogo do bicho, e portanto “dar zebra” representa um acontecimento inesperado ou improvável. Segundo o Guia dos Curiosos – Língua Portuguesa, do jornalista Marcelo Duarte, a expressão foi criada em 1964, durante o Campeonato Carioca de futebol. Consta que pouco antes do início de uma partida entre o poderoso Vasco da Gama e a Portuguesa carioca, time pequeno treinado por Gentil Cardoso, este técnico, confiante no seu time, teria dito a frase “Acho que hoje vai dar zebra”. A Portuguesa ganhou por um placar de 2 a 1, e assim a expressão se popularizou. Apesar do início alvissareiro, hoje em dia ela designa algo que não deu certo, ainda que devido a algum imprevisto.

Um dos bichos mais indesejados é a borboleta preta, pois a crendice tradicional é de que ela porta maus presságios, trazendo o aviso de infelicidades futuras, afastando a alegria, prenunciando a morte. Machado de Assis fixou magistralmente a superstição em Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Em grego, a palavra “psiquê” tanto pode ser “alma” como “borboleta”, ante a alegoria da borboleta que, depois de muito rastejar como lagarta, fecha-se num casulo em morte aparente, para depois ressurgir com asas, e assim flutuar entre as flores na primavera. Assim a alma humana, depois de purificada pelo sofrimento, pode finalmente encontrar a felicidade.
Isso serve para as borboletas diurnas e coloridas. Mas, como representação do espírito, as borboletas escuras não gozam de boa reputação.

O pobre do burro também não tem melhor sorte no imaginário popular. “Dar com os burros n’água” significa fracassar, representando algo por que alguém muito se empenhou, mas sem sucesso. A expressão vem de um conto popular que relata a competição entre dois tropeiros. Eles deveriam levar um fardo, de sua escolha, até um ponto determinado, mas sem conhecer o caminho. Um escolheu um fardo de sal; o outro, algodão. Acontece que havia um rio no meio do percurso. Quando os dois competidores o atravessaram, a carga de sal se dissolveu, e a de algodão se encharcou, ficando tão pesada que quase afogou o burro que a levava. Este, para não morrer, corcoveou para se livrar da carga, que também acabou se perdendo no rio. Nenhum dos tropeiros venceu o desafio, e “dar com os burros n’água” passou a designar algo previsivelmente não vai dar certo.

Se os negócios vão mal apesar de todas as precauções, “tem caveira de burro enterrada”. Pior ainda se a pessoa insiste, e continua “dando com os burros n’água”, e a “caveira de burro enterrada” continua anunciando miséria. Foi num jumento que a Virgem e o Menino Jesus fugiram para o Egito. Burros e jumentos deveriam ter a gratidão das pessoas. Então, qual o motivo para uma caveira de burro representar tamanha desgraça?
O burro é um símbolo de resistência: é teimoso e parece incansável. Alimenta-se de qualquer coisa que encontre. Enfrenta fome, sede, excesso de cargas. É um animal de trabalho pesado, e as pessoas não o consideram um bicho de estimação. Ao contrário, dão-lhe chicotadas, e o animal trabalha sem direitos e sem descanso até morrer – daí a expressão “trabalhar como um murro de carga”. Desse modo, o burro e o jumento não têm como dar testemunho de vitórias, sucessos e êxitos – apenas de trabalho pesado e infeliz, servindo sua caveira para recordar uma existência desgraçada, sem alegrias, sem compensações.

Burros e jumentos são animais inteligentes, de instinto acurado, não tendo nenhum traço da estupidez com que os pintou o folclore.

Por sorte, hoje existem ativistas e organizações que defendem os direitos dos animais; agora é crime atirar o pau no gato e judiar de animais de carga.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

BRINCANDO COM A LÍNGUA - Um “viva!” ao Português!!

Por Therezinha Hernandes.
  
Nossa língua é muito divertida. Quem ousa dizer que não? Temos várias expressões engraçadas, principalmente porque muitas delas vêm de situações insólitas.

Continuando a explicar as origens de várias expressões populares, vamos ver também um pouquinho dos costumes antigos, hoje relegados ao esquecimento.

Quando aparecia uma visita inesperada, principalmente se o dono da casa fosse interrompido nos seus afazeres, era usual dizer “Mas será o Benedito?”, mais como interjeição de aborrecimento do que propriamente uma pergunta. Segundo o Guia dos Curiosos – Língua Portuguesa, do jornalista Marcelo Duarte, a origem dessa expressão vem da nomeação de interventores por Getúlio Vargas. Em 1933, o então presidente hesitava na escolha do interventor para Minas Gerais, e a população temia que fosse nomeado Benedito Valadares, o pior dos candidatos. Por isso, diante da demora de Getúlio, o povo se perguntava: “Será o Benedito?”. E foi.

Muitas vezes, no nosso dia-a-dia, fazemos tempestade em copo d’água mesmo quando não se trata de sangria desatada. Puro estresse. Porém, “fazer tempestade em copo d’água” não é privilégio do mundo moderno, já que os antigos romanos tinham um dito parecido: “excitare fluctus in simpulo”, que em tradução livre seria algo como “provocar tempestade numa conchinha”. Com o tempo e segundo os costumes locais, o ditado foi mudando de recipiente; no inglês, passou da concha latina para tigela (registrada em 1678), bacia (1830), e finalmente xícara de chá (em 1872). O recipiente mudou, mas o significado continua o mesmo: fazer um escândalo por um motivo banal ou insignificante.

“Sangria desatada” vem da crença de que era possível curar várias doenças “afinando o sangue” do paciente por meio de sangrias. Dor de cabeça? Dê um talho no paciente e faça-o sangrar um pouquinho. Ataque de ira? Sangria para acalmar os nervos. Porém, se o médico fosse “barbeiro” (ou seja, sem habilidade), poderia causar uma hemorragia no paciente e, com isso, causar-lhe a morte. Então, uma “sangria desatada” (sem controle) representava uma situação de emergência. Ao contrário, se existe um problema, mas não há necessidade de resolvê-lo com urgência, não é uma sangria desatada.

Falamos ali em cima de alguém que é “barbeiro”, como sinônimo de pessoa sem habilidade, sem perícia. O uso dessa palavra para designar alguém que não exerça efetivamente essa profissão vem do tempo em que os barbeiros, além de cuidar da barba e do cabelo de seus clientes, também acumulavam as funções de dentistas (claro que só para arrancar dentes doentes) e médicos (para as famigeradas sangrias). De início, a comparação era usada por médicos diplomados para ironizar seus colegas mais velhos, ou profissionais de outras áreas que exerciam algumas práticas da medicina sem habilitação. Com o tempo –especialmente quando surgiram os primeiros automóveis-, a expressão passou a designar qualquer pessoa inábil, especialmente os motoristas que não controlam bem o volante.

Se alguém for chamado de “barbeiro” e não gostar, pode “ir se queixar ao bispo” – frase que hoje tem a conotação de algo insolúvel, ou uma situação à qual ninguém dá importância e que por isso ficará sem resposta. Mas nem sempre foi assim. “Queixar-se ao bispo” vem de tempos muito antigos, em que as mulheres precisavam comprovar aos homens que eram férteis, que eram capazes de gerar filhos, o que era importante não só para perpetuar a espécie, mas também para garantir que, tendo muitos filhos, ao menos um herdeiro sobrevivesse, numa época em que a mortalidade infantil era altíssima. Essa é a razão para a existência do noivado: ajustado o casamento entre as famílias, o período do noivado destinava-se a que a noiva engravidasse para provar que era fértil. Só depois disso ocorria a cerimônia de casamento. Se durante o tempo combinado para o noivado a mulher não engravidasse, o contrato era desfeito.

Há um quadro muito famoso, do pintor flamengo Jan Van Eyck (século XV), que representa o casamento de Giovanni Arnolfini e Giovanna Cenami – e ela repousa a mão esquerda sobre o ventre, mostrando que está grávida. Há muitas especulações sobre essa cena, entre as quais se diz que o ventre inchado não indica gravidez, sendo antes moda, para exibir por exemplo o gasto com tecido, indicando a prosperidade do retratado. 

Mas o motivo de existir o período do noivado é mesmo esse: comprovar a fertilidade da mulher – como se apenas dela dependesse o sucesso do evento.

Por isso, até por volta do início da década de 70 do século passado, o rompimento de um noivado poderia ser visto como algo negativo para a mulher, ainda que o costume antigo já não existisse.

No Brasil do século XVIII ainda existia esse costume, que era aprovado pela Igreja desde que o casamento se consumasse. Ocorre que muitos noivos desapareciam deixando a noiva grávida. Esta se queixava ao bispo, que mandava alguém atrás do fujão – muitas vezes sem resultado.

Mas nem só de costumes bizarros vivem os povos. Por isso, damos “vivas!!” à modernidade. Dar um “viva!” simboliza isso mesmo: desejar vida longa ao homenageado.
Há registros do uso dessa expressão no Brasil ainda nos tempos coloniais, época em que havia até um protocolo de “vivas” para a saudação de autoridades. Só um “viva!” deveria indicar uma autoridade de baixo escalão; o grau mais alto na hierarquia provavelmente era saudado com uma quantidade bem maior de “vivas!”. Nem quero imaginar uma visita do Papa... Meia hora seguida de “vivas!”, no mínimo!

Mais diversão, só na próxima semana.
Abraços e até lá.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

BRINCANDO COM A LÍNGUA - E se a pizza acabar?

Por Therezinha Hernandes.
  
Quantas vezes não ouvimos que alguma coisa vai acabar em pizza? Com isso, quer-se dizer que algo não vai ter solução, que tudo vai continuar como está.

Quando alguém deveria tomar uma atitude, mas se omite, diz-se que essa pessoa está “dando uma de joão-sem-braço”.

Você já se perguntou de onde vêm essas expressões?

Hoje vamos desvendar algumas delas.
  
Algumas resultam de mal-entendidos. Sem compreender direito as palavras, as pessoas saíam repetindo as frases de forma distorcida.

É esse o caso de “cuspido e escarrado”, quando se quer dizer que uma pessoa é extremamente parecida com outra. A frase original é “esculpido em carrara”, numa alusão à perfeição das esculturas feitas num mármore de excepcional qualidade extraído na região da comuna de Carrara, na Itália. Escarro é uma coisa muito nojenta. Uma bela peça de mármore é muito mais plausível quando se trata de uma representação perfeita de alguém.

“Batatinha, quando nasce, esparrama pelo chão”. Esses versos populares revelam um equívoco: a batata é um tubérculo; portanto, fica debaixo da terra. Como pode então se esparramar pelo chão, se está debaixo dele? O que se vê acima do solo são as folhagens (ramas), e assim a expressão correta é “batatinha, quando nasce, espalha a rama pelo chão”.

“Cor de burro quando foge” sempre parece indicar que o burro em fuga muda de cor, mas não é nada disso. A tradição oral aos poucos foi modificando a frase, que inicialmente era “Corra de burro quando ele foge”, pois esse animal é realmente perigoso se enraivecido, e é obstinado quando persegue algo ou alguém.
Usa-se essa expressão como referência a uma cor indefinida ou esmaecida, mas na origem era sinônimo de prudência.

Ainda falando de expressões inspiradas em animais, “quem não tem cão caça com gato”, denotando que, se um problema não se resolve de uma determinada maneira, é necessário encontrar outra solução. Na verdade, o cão é um animal de matilha; os cães selvagens caçam em grupo. Já os felinos são animais solitários e independentes (sim, sim – os leões não seguem essa regra) e por isso caçam sozinhos. O dito popular, então, é “quem não tem cão caça COMO gato”, ou seja, sozinho.

“Cair no conto-do-vigário” até hoje significa ser enganado por um estelionatário, ter prejuízo. Espertalhões não faltam neste mundo. Essa expressão, porém, tem um fundo real, quando uma imagem de Nossa Senhora dos Passos, presenteada pelos espanhóis à cidade mineira de Ouro Preto, foi disputada pelos vigários de duas igrejas (Nossa Senhora do Pilar e Nossa Senhora da Conceição). A fim de resolver o impasse, o vigário do Pilar propôs amarrar a imagem no lombo de um burro, que seria colocado no meio do caminho entre as duas igrejas. O rumo que o burro tomasse indicaria a igreja vencedora. Quando solto, o animal imediatamente seguiu para a Igreja do Pilar. Mais tarde, descobriu-se que o burro pertencia ao vigário daquela paróquia, cuja esperteza rendeu a expressão usada até hoje.

Deixar alguma coisa ao “Deus-dará” significa não tomar nenhuma decisão, abandonar alguma coisa ou alguém à própria sorte. Essa expressão é usada desde tempos muito antigos, quando os transeuntes, tentando se esquivar das mãos estendidas dos pedintes, diziam “Deus dará” (eu não lhe dou esmola, mas Deus dará). E lá ficava o mendigo, seguindo a vida aos trancos e barrancos.

Aliás, “aos trancos e barrancos” é outra expressão usada até hoje para indicar uma situação penosa, algo que segue adiante ainda que enfrentando dificuldades. A palavra tranco, além de significar um golpe brusco (golpe físico ou do destino), também é o nome que se dá ao salto do cavalo. Em Portugal, de onde se originou a frase, barranco é uma vala aberta no chão por mãos humanas ou por ações da natureza. No Brasil, barranco é a ribanceira de um rio de margem íngreme. De qualquer maneira, andar por um terreno acidentado no lombo de um cavalo que dá trancos é uma imagem muito bem associada às vicissitudes.

Depois de contos-do-vigário, de trancos e barrancos, e também de correr de burro quando foge, melhor acabar tudo em pizza. De onde vem essa expressão? Do futebol!

Hoje em dia, “acabar em pizza” é uma frase muito empregada quando se fala de política, ou de julgamentos que não resultam na devida punição. No entanto, sua origem está na década de 1960, quando alguns dirigentes do Palmeiras (Sociedade Esportiva Palmeiras, antigo Palestra Itália) se reuniram para tratar de problemas do clube, resultando em muitas brigas, sem que se chegasse a nenhuma solução. Após catorze horas de discussão, todos estavam com muita fome e resolveram ir para uma pizzaria. Lá, depois de muitos canecos de chope e dezoito pizzas, desistiram do debate e tudo ficou por isso mesmo.

Se as decisões forem adiadas, acabando sempre em pizza, a vida pode se tornar uma casa-da-mãe-joana – mas isso já fica para a próxima conversa, que já fica prometida, pois não sou nenhum joão-sem-braço.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

BRINCANDO COM A LÍNGUA - Orgulho nacional ou xenofobia linguística?

Por Therezinha Hernandes.

Continuam em pauta as reformas ortográficas e as polêmicas decorrentes delas, principalmente após a notícia da existência de um grupo de estudos pretendendo eliminar o “h” inicial (“omem”, “oje”, “omônimo”, no lugar de “homem”, “hoje”, “homônimo”, etc.) e, entre outras alterações, extinguir vários dígrafos (“qeijo”, “xuva”, “eseso”, por “queijo”, “chuva”, “excesso”, etc.), a fim de apresentar um projeto de lei cujo objetivo, em síntese, seria grafar as palavras como elas são pronunciadas, e com isso facilitar o aprendizado da língua portuguesa.

Diante da reforma cuja entrada em vigor está prevista para janeiro de 2016, para que o andamento dessa proposta será necessário consultar os outros países lusófonos participantes do acordo ortográfico, na medida em que este visa à uniformização da escrita para todos os falantes do português, e estes serão afetados por eventuais medidas novas.

Toda essa discussão nos remete ao assunto das interferências nas línguas por meio de imposições legislativas, e esse é o nosso tema de hoje.

Já houve no Brasil projetos que pretendiam excluir da língua os estrangeirismos, como os do Deputado Aldo Rebelo (Projeto de Lei n.º 1676/99) e o da Deputada Jussara Cony (Projeto de Lei n.º 65/2000), bem como a proibição de nomes estrangeiros na época do Integralismo.

Ainda hoje vigoram pelo mundo leis que proíbem nomes próprios de origem estrangeira, ou simplesmente limitam os nomes permitidos, independetemente da origem. Por um lado, buscam evitar que os filhos sofram constrangimentos em razão dos nomes escolhidos por seus pais, como ocorre por exemplo na Alemanha, em que um casal turco foi impedido de dar ao seu filho o nome de Osama Bin Laden, mas o nome Legolas é permitido; na Nova Zelândia, cujas autoridades livraram um bebê de se chamar 4Real (“De Verdade”, em tradução livre), e também autorizaram a mudança de nome de uma jovem que se chamava "Talula Does The Hula from Hawaii" ("Talula faz a Ula do Havaí", em tradução livre);  no Japão também há restrições, e o nome “Akuma” foi banido por significar “demônio”.

Argentina, Dinamarca, Espanha e França também possuem restrições quanto aos nomes.Na China, as pessoas podem ser obrigadas a mudar de nome se este for considerado obscuro.

Os Estados Unidos, por seu turno, têm uma postura mais liberal, pois a escolha dos nomes dos filhos pelos pais é considerada manifestação da liberdade de expressão; assim, qualquer intervenção governamental resultaria em violação de princípios constitucionais.

Em termos de liberalidade, porém, o Brasil é campeão. De modo geral, os pais desejam que seus filhos tenham nomes únicos, diferentes, e a criatividade brasileira parece não ter limites, com seus Vandercleysson, Richarlyson, Keirrison, Kimarrison, Radamésio (Radamés é nome do principal personagem masculino da ópera Aída, de Giuseppe Verdi, e emprestou seu nome ao compositor e maestro Radamés Gnatalli, mas a variante Radamésio é inusitada), Erinovaldo, para citar apenas jogadores de futebol, sem esquecer o festejado Neymar. Também não faltam homenagens a artistas famosos: Maicon Jéquisson (Michael Jackson), Joleno (John Lennon).

A propósito, Oswald de Andrade não batizou nenhum de seus filhos como “Lança-Perfume Rodometálico de Andrade”; isso é lenda.

De outra parte, contudo, há países em que a limitação dos nomes próprios aparentemente possui um outro objetivo: impedir a absorção de estrangeirismos no intuito de manter a “pureza do idioma”. É o caso da Islândia, que possui uma lista de 1.853 nomes femininos e 1.712 nomes masculinos. Os pais devam embasar suas escolhas nessa compilação ou, então, pedir autorização a um comitê especial. Lá, o nome Carolina é rejeitado – mas é aceito o nome Elvis.

Há que se cogitar, no entanto, se esse “purismo” visa a resguardar a gramática da língua, como expressão de orgulho nacional, ou se é manifestação de xenofobia linguística.

Seja pelas transações comerciais, quase tão antigas quanto a própria humanidade, seja por meio de intercâmbios de estudo, que já existem há séculos, seja mesmo pela culinária, ou ainda em virtude de casamentos entre pessoas de nacionalidades diferentes, sempre houve contato entre as várias línguas, com a apropriação de vocábulos em maior ou menor grau.

Assim, não se pode considerar que esse fenômeno esteja adstrito à modernidade, e os nomes próprios são apenas uma parte dessas constantes apropriações. Os empréstimos de outras línguas podem pertencer a épocas tão remotas, que já não nos damos conta da origem de certas palavras.

De qualquer modo, esse conceito de “pureza” é bastante falho. Num mundo em que a tecnologia e a economia põem tudo e todos em contato, a globalização afeta igualmente as línguas.
  

(Etimologia – Ortografia)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Brincando com a língua - Do brega à etimologia e à polissemia.

Há algumas semanas descobri uma palavra nova: “brega”.

Bem, acredito que a maioria dos paulistas vai dizer que essa palavra é antiga, que eu devo estar delirando, “onde já se viu não saber o que significa ‘brega’?”, e por aí vai.

A questão é outra. Descobri para essa palavra dois significados que para mim são novos: brega como substantivo sinônimo de bordel, lupanar, zona de meretrício, cabaré de baixa categoria, e, em Portugal, brega como substantivo que designa o ofício do toureiro durante a tourada, por empréstimo ao espanhol – e deste último significado vem muita reflexão, mas vamos por partes.

Sempre ouvi a palavra brega como adjetivo: música brega, roupa brega, decoração brega, pessoa brega, etc.

Pesquisando a origem do termo (e rindo muito! Quem disse que pesquisa não pode ser divertida?), deparei com várias definições, ou tentativas de definir um vocábulo tão abrangente e ao mesmo tempo tão vago como “brega”.

Da música à moda, passando pelo comportamento, tudo que é deselegante é brega. Se for algo de mau gosto, é brega. Se for excessivamente popular, é brega. Exagerado ou singelo demais? É brega. Algo que apela sem pudor às emoções é brega. Tudo que é fora de moda, antiquado, cafona (e cafona já é uma palavra fora de moda) é brega.

Num dicionário online ( http://www.dicio.com.br/brega/ ) encontrei as seguintes definições:

“adj. m. adj. f. Informal. Pej. Característica da pessoa que não possui cortesia; cujos modos são indelicados; cafona: “naquela festa só havia gente brega!”.
Que denota falta de gosto; que se apresenta de maneira desapropriada tendo em conta a opinião de quem critica: música brega; vestido brega.
Particularidade daquilo que é grosseiro, reles, comum: apartamento brega.
Que possui características melodramáticas ou expressa seu sentimento de modo exagerado;  kitsch.
s.m. e s.f. Pessoa que possui essas características: “embora se vestissem como ricos, não passavam de uns bregas”.
s.m. Bahia. Informal. Região de prostituição. (Etm. de origem discutível)
s.f. Portugal. Ofício do toureiro durante a tourada. (Etm. pelo espanhol: brega)”


Também durante a pesquisa online ( http://www.dicionarioinformal.com.br/brega/ ) surgiu esta informação:

“No interior da Paraíba, Pernambuco e Ceará, sinônimo de cabaré, geralmente de baixa categoria. A música tocada nesses ambientes, assim como o modo de se vestir e de se comportar dos seus frequentadores, geralmente gente simples do povo, fez com que o termo fosse utilizado como antônimo de "chique", oposto dos valores das das camadas privilegiadas da sociedade:

- Vamos para o brega hoje.

- Essa é uma música de brega.”
Por Therezinha Hernandes.


Veja-se, neste último exemplo, que se trata de uma locução adjetiva, “de brega”. Aquilo que fosse característico de um cabaré seria “de brega”: música de brega, roupa de brega, gente de brega. Daí a ser transformado diretamente num adjetivo foi apenas um passo.

Isso pode explicar o emprego da palavra como adjetivo, mas não explica seu surgimento como substantivo significando cabaré ou lupanar. Talvez a resposta esteja no seu emprego, em Portugal, para designar o “ofício do toureiro durante a tourada”.
Deixando de lado o fato de que, pela lógica, o ofício do toureiro É a tourada, a etimologia desta acepção resta bem obscura.

Buscando a origem espanhola do termo (Dicionário de Espanhol-Português, Porto Editora, s. d.) , “brega” significa briga, disputa, conflito, luta, pendência. Isso explica seu uso, em Portugal, para designar o ofício do toureiro.

Como verbo, “bregar” tem o sentido de brigar, contender, mas também de fatigar-se, trabalhar afanosamente; em sentido figurado, “bregar” é lutar contra as dificuldades.

Porém, nesse caminho tortuoso, surgiu o adjetivo “bregado(a)”, que é um barbarismo para “bragado”. Certo. Mas o que é “bragado”? Lá vamos nós...

“Bragado”, figurativamente, é um adjetivo aplicado a pessoas enérgicas e firmes, mas em seu sentido original designa o animal cujas pernas têm cor diferente da do resto do corpo. Por extensão, surge “bragadura”, que dá nome ao entrepernas – parte superior e interior das coxas, ou à parte do vestuário que fica nessa região do corpo.

A partir dessa definição, e conferindo possíveis regionalismos da língua espanhola, chegamos às “bragas”, que em espanhol designam a peça inferior da roupa-de-baixo feminina, ou seja: a calcinha. Mas, em sentido figurado, significa estar sem dinheiro, em situação difícil, ou, ainda, ser desprevenido ou descuidado.

Todos estes significados para a palavra brega, bregado, bragado ou braga, em espanhol – briga, entrepernas, calcinha, situação difícil, trabalhar arduamente -, são origens possíveis da palavra brega, empregada no Brasil como sinônimo de cabaré ou bordel, e a partir daí a sua derivação como adjetivo, para qualificar alguma coisa como de mau gosto.

Mas nenhuma dessas possibilidades tem o mesmo encanto, nem é tão divertida, quanto a origem, ainda que folclórica, suscitada nesta definição (http://pt.wikipedia.org/wiki/Brega):

“Brega: de mau gosto, de baixo nível. Consta que a palavra teve origem em Salvador, mais propriamente numa área urbana de baixo meretrício onde uma placa indicando a Rua Padre Manuel da Nóbrega teve gasto o letreiro, sobrando apenas as duas últimas sílabas. Aplica-se a pessoas que se mostram sem elegância, que exibem mau gosto.”


Quem não gosta de pesquisar em dicionários não sabe a diversão que está perdendo.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

BRINCANDO COM A LÍNGUA - Entre a píteça , a mídia e o business meeting está o bom-senso

Por Therezinha Hernandes.

O filósofo canadense  Marshall McLuhan compreendia o nosso mundo como uma “aldeia global” já na década de 1960, em seus livros “A Galáxia de Gutenberg” (1962) e “Os Meios de Comunicação como Extensão do Homem” (1964).

Ele foi o primeiro a tratar das transformações sociais a partir da revolução tecnológica trazida pelo computador e pelas telecomunicações.

A globalização, então, entendida nesses termos, já não é novidade. O que nos interessa, nesse contexto, são as interferências linguísticas decorrentes do contato do nosso bom e velho português com outras línguas – o que também não é fato recente, mas tem se intensificado nos últimos tempos em função das relações comerciais e das comunicações, mais especificamente nas redes sociais.

Pensando na comunicação, começamos nosso assunto falando da influência do termo mass media, ou meios de comunicação de massa. A palavra media ganhou um aportuguesamento no vocábulo mídia (por exemplo, na expressão “a mídia brasileira”), que tem até o plural mídias (“campanha eleitoral nas várias mídias”). Grandes erros! A palavra de origem não pertence ao inglês, mas ao latim: media é o plural de medium, que significa meio. Portanto, se media já é plural (meios), seu aportuguesamento como “mídia” reflete a pronúncia anglófona (primeiro equívoco), e o plural “mídias” representa uma redundância. Outro equívoco foi ter sido transformada em palavra feminina (a mídia), quando em português a palavra correspondente, “meios”, é masculina.

Mas, bem. O equívoco já está lançado e parece não ter volta, mesmo porque há cerca de quatro décadas não se ensina latim nas escolas.

Outro termo que se expandiu com a popularização dos computadores é delete, que em português resultou no verbo deletar e seus derivados. Engana-se quem pensa ser delete um vocábulo oriundo do inglês. Novamente ressurge o latim: trata-se do verbo dĕleo, -evi, -etum, delere (transitivo), “destruir”, “eu destruo”, como na expressão “Delenda est Carthago” (“Cartago deve ser destruída”). Destruir e deletar são, pois, redundantes, embora deletar seja empregado como sinônimo de apagar.

Apesar desses equívocos na apropriação de palavras e expressões estrangeiras, seu uso se vulgarizou de tal maneira, tão quotidianamente, que nem sequer nos damos conta de quantas vezes isso acontece, e com quantas palavras isso ocorre.

Ninguém deixará de pedir uma baguete na padaria, ou uma pizza, um bife, rosbife; ninguém deixará de pedir o menu a um garçon; os aviões não deixarão de aterrissar (ainda bem!!); ninguém deixará de guardar o carro na garagem após retornar de um show, de um coquetel, ou de um simples passeio pelo shopping. Mais ainda: aqui no Brasil, ninguém deixará de gostar de futebol para, em seu lugar, apreciar o ludopédio.

Parece que mudamos de assunto? Não, não mudamos. Todas as palavras empregadas no parágrafo anterior são de origem estrangeira. Algumas são consideradas galicismos (ou francesismos: uso de palavras do francês), anglicismos (do inglês); a palavra pizza foi apropriada na sua forma italiana mesmo.

O uso de estrangeirismos, quando há palavras correspondentes em português, é considerado um barbarismo, que por sua vez representa um vício de linguagem.

Há puristas que pretendem livrar o português da influência estrangeira. Vejam-se os projetos de lei do Deputado Aldo Rebelo (Projeto de Lei 1676/99) e da Deputada Jussara Cony (Projeto de Lei nº 65/2000), que pretendiam legislar sobre os estrangeirismos, mais especificamente a influência do inglês, que consideravam exagerada. Existe mesmo quem defenda a grafia píteça para a palavra pizza. Particularmente, acho que uma píteça seria muito menos saborosa do que uma pizza.

Na época do Integralismo brasileiro, ao longo da década de 1930, nomes estrangeiros precisaram ser aportuguesados. Foi assim que o Hernández da minha família se tornou Hernandes.

Exageros à parte, nos últimos tempos vemos a substituição de expressões corriqueiras como “reunião de trabalho” ou “reunião de negócios” por suas equivalentes em inglês, como “business meeting”. Parece mais chique (chique é galicismo), mais elegante e sofisticado ter um “business meeting” do que uma simples reunião de trabalho. Esse tipo de apropriação de expressões inteiras do inglês (e não mais palavras soltas) se mostra assustador, especialmente para o ouvinte ou leitor que não tem familiaridade com o inglês, e seu emprego pode parecer arrogância de quem fala, ainda que tudo dependa das circunstâncias ou exigências da ocasião.

Os estrangeirismos, especialmente do inglês, estão à nossa volta: shopping center (que não existe em inglês; o vocábulo empregado habitualmente é “mall”), hall, cheeseburger (que virou o nosso popular xis-búrguer, ou simplesmente X-búrguer), bacon, link, hiperlink, show room, workshop, e tantas outras palavras.

Se tomarmos partido dos puristas, teremos de eliminar do vocabulário do português brasileiro todas as palavras de origem indígena e africana também – afinal, não pertencem ao português em sua forma “pura”.

Por outro lado, se existe em português uma forma correspondente e tão adequada e perfeita como a expressão estrangeira, ou mesmo mais simples e ainda em uso, usar a forma estrangeira pode parecer uma atitude pedante.

Tudo depende do bom-senso: há palavras que estão incorporadas ao nosso linguajar há tanto tempo, e de modo tão intenso, que já não compreendemos o nosso dia-a-dia sem elas. E também, pensando em termos práticos, escrever uma correspondência eletrônica parece um trabalho muito mais complicado e penoso do que simplesmente enviar um e-mail.

Até a próxima, pois agora vou pedir uma pizza (píteça não deve ter gosto bom).
  
[Vícios de linguagem, barbarismo, estrangeirismo, anglicismo, usos do português]