Por Therezinha Hernandes.

Por ser uma bebida suave, muitas
vezes estimulante e que pode ser preparada com plantas medicinais, o chá sempre
foi oferecido a doentes. Os mais fragilizados o recebem às colheradas. Também é
reconfortante, bom de beber no frio para esquentar e no verão para refrescar.
Assim, dar uma colher de chá tanto possui o sentido de facilitar a vida de
alguém, como se traduz numa expressão de carinho ou de ajuda a quem está de
alguma forma necessitado.
Dar uma canja pertence à
linguagem dos músicos, e não da culinária. Significa tocar de graça num
determinado local (bares, casas noturnas em geral), mas também é habitualmente
usada para designar o ato de tocar de improviso. Consta que a locução surgiu
nos idos de 1960, quando o Clube
dos Amigos do Jazz, entidade que reunia cerca
de trezentos fãs desse gênero musical, passou a ser conhecido pela sigla CAMJA.
Como o clube deixava os instrumentos musicais à disposição de seus
frequentadores, os músicos diziam que iam “tocar no CAMJA”, e logo a expressão
se transformou em “dar uma CAMJA”, até ganhar a forma atual.
Dizer que algo é “canja de
galinha” não tem nenhuma relação com “dar uma canja”. A canja é um prato de
fácil digestão, e por isso é a refeição mais comumente servida a doentes. Dessa
maneira, tudo que é fácil, simples ou muito prático passou a ser chamado de
“canja” ou “canja de galinha”.
Comer com os olhos normalmente
expressa, de um lado, um desejo incontrolável, a inveja ou a cobiça de alguém;
de outra parte, pode significar um olhar de reprovação, de ira, mas sem partir
para a agressão física, como na frase “Ela parecia querer me comer com os
olhos, de tanta raiva”. Mas a locução “comer com os olhos” vem mesmo da
situação de ver uma iguaria e não lhe poder apreciar o sabor, independentemente
do motivo. Denota um desejo insatisfeito, e vem da Roma Antiga, quando existia
uma cerimônia religiosa consistente na oferta de um banquete em honra dos
deuses, mas nenhum dos celebrantes podia tocar na comida – só podiam mesmo
olhar. Outra expressão equivalente e bem popular no Brasil é “ver com os olhos
e lamber com a testa”, ou seja, sem poder alcançar aquilo que se almeja.
Chorar as pitangas é mesmo uma
analogia com a cor dessa fruta, cujo nome vem de pyrang, que em tupi quer dizer “vermelho”. Desse modo, chorar as
pitangas significa chorar muito, até os olhos ficarem vermelhos.
Arroz de festa já é uma expressão
mais alegre. Em várias culturas, o arroz simboliza a fartura – por isso ainda
se mantém a tradição de jogar arroz nos noivos, após a cerimônia de casamento,
para desejar uma vida de prosperidade. Mas o nosso “arroz de festa” designa
aquela pessoa que não falta a nenhuma reunião, solenidade... enfim, qualquer
ocasião. Arroz-de-festa é o nome dado em Portugal ao arroz-doce, sobremesa
muito apreciada por fidalgos e plebeus portugueses, e também pelos brasileiros
desde o século XVI. Entre os portugueses, esse doce era presença obrigatória
nas festas – daí o seu nome, e também a analogia com aquela pessoa que se faz
presente em todo e qualquer evento social.
A expressão angu de caroço
demanda algumas explicações a mais. Denota algo difícil, complicado, insolúvel,
ou uma situação constrangedora. O Dicionário Aurélio registra também seu uso
como sinônimo de intriga, fofoca, mexerico.
Angu é uma papa feita de farinha
de milho (fubá), que deve ser misturada primeiramente à água fria, para depois
ser levada ao fogo, mexendo-se constantemente, caso contrário o fubá cria grumos
(pelotas ou “caroços”) difíceis de serem desfeitos.
O nome angu origina-se da palavra àgun, do idioma africano fon, e designa uma papa de inhame sem
tempero. No Brasil, refere-se a papas feitas com farinha de mandioca, milho ou
arroz, as quais eram acompanhadas por miúdos de carne de vaca ou de porco. Com
o tempo, a palavra angu passou a ser utilizada apenas para as papas feitas com
fubá, enquanto as papas feitas de farinha de mandioca passaram a ser chamadas
de pirão.
Quando o milho foi levado para a Europa, os
italianos criaram um angu mais consistente, e assim surgiu a polenta, servida
ora com molho, ora grelhada ou frita.
De início, o angu era simples, feito somente com
fubá, água e sal, sem carnes ou outros ingredientes, para alimentar os escravos. As escravas da
cozinha, porém, davam um jeito de esconder pedaços de carne ou miúdos para
reforçar a comida dos companheiros da senzala, e daí surgiu outra expressão:
“debaixo desse angu tem carne”, ou ainda “tem peixe nesse angu”, para
representar algo escondido ou de que se deve desconfiar.
Apesar de o angu, por ser preparado com
ingredientes baratos, ser “comida de pobre” e de escravos, a adição de temperos
e carnes o faz muito saboroso. Desse modo, como nos informa o pintor,
desenhista e professor Jean-Baptiste Debret (ou De Bret) em seu livro Viagem Pitoresca e Histórica ao
Brasil, o angu
passou a frequentar a mesa dos senhores, os quais faziam piadas a respeito da
iguaria, para resguardar as aparências, seu orgulho e seu amor-próprio – mas
não deixavam de se regalar com ela.
Therezinha, su blog é realmente muito rico (em espanhol, significa delicioso) e exquisito (em espanhos, muito, muito gostoso!!) Gostei muito, e eu, que gosto da tematica, diria: "saco vazio nao para de pé" ou sera que "estou falando abobrinha?" Obrigada!
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