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Ouça aqui o Samba do Arnesto, de Adoniran Barbosa. |
Depois do surgimento das redes sociais, há quem não viva sem
elas. Publicam-se fotos dos bichinhos de estimação, do almoço, da cor do
esmalte das unhas, do sapato novo. A cada segundo vem uma nova “atualização”.
E, como não poderia deixar de ser, logo vêm as piadinhas: “O
que seria de mim sem a rede social? Já pensou se eu tivesse que telefonar para
quinhentas pessoas só para avisar que estou indo dormir?”.
Também vêm à baila discussões mais sérias. De um lado,
estamos permanentemente expostos como numa vitrine, o que pode representar um
perigo para a segurança pessoal, especialmente de crianças, jovens, adultos
incautos.
De outra parte, sentimo-nos cobrados a aceitar o bombardeio
de informações, sem termos noção exata de sua necessidade ou utilidade, e
acabamos sobrecarregados e estressados.
Muito se critica o uso abusivo dos celulares, que acabam
substituindo as relações fisicamente mais próximas. É muito desagradável estar
falando com alguém, e a pessoa nos interromper para responder uma mensagem de
texto que nem sempre é de trabalho, ou nem mesmo urgente.
O abuso do celular não altera apenas as regras da boa
educação. Além desse inconveniente, a premência de enviar para conhecimento de
outros a última novidade, a foto mais recente, de “compartilhar o status”, está
matando o português (outras línguas também, mas o português é o que nos
interessa aqui).
Teclado na tela do celular, teclas pequenas no aparelho, ou
simplesmente a pressa ou preguiça de escrever uma palavra inteira estão gerando
confusões, habitualmente atribuídas, por seu turno, a aplicativos como
autopreenchimento, autocorreção ou como quer que se chamem.
Algo que chama a atenção é o sumiço das letras “r” e “u”
finais:
- “Se
eu fo aí, vo quere um pedaço desse bolo” (“Se eu foR aí, voU quereR um pedaço
desse bolo”).
E também este diálogo surreal:
- “Jho
Leno, onde sua mãe arrumo esse nome” (“... arrumoU...”, e faltou o ponto de
interrogação)
-
“Porque” (“Por quê?”)
-
“Nunca vi”
- “Ah,
é de um canto, o Jho Leno dos bilto” (“Ah, é de um cantoR, o John Lennon dos
Beatles”)
Além da grafia errada, faltam os sinais de pontuação.
Outro diálogo exemplar:
- “Que
eh esse bagui de de OK indet que ses fala” (Novamente, faltando pontuação, e também
com erro de concordância verbal.)
- ???
- “de
ok indet – ta todo mundo vendo” (... todo mundo ESTÁ vendo)
- Ah!
“The Walking Dead”...
(Que é esse bagulho de The Walking Dead de que vocês falam?”)
Todos nós usamos gírias em ocasiões informais, omitimos
alguns sons ou esquecemos algumas preposições na fala quotidiana, mas na
escrita precisamos ter mais cautela, pois do contrário a comunicação será
falha.
Como se viu nos exemplos dados, a pontuação é essencial para
dar ao texto escrito a correta entonação: a falta do ponto de interrogação,
naqueles casos, não nos permite compreender que se trata de uma pergunta.
Muito diferente é o caso de Adoniran Barbosa (pseudônimo de
João Rubinato – clique aqui), cujas letras de músicas buscavam representar a
fala popular de São Paulo:
O Arnesto
nos convidou pra um samba, ele mora no Brás
Nós fumos não encontremos ninguém
Nós voltermos com uma baita de uma reiva
Da outra vez nós num vai mais
Nós não semos tatu! (2x)
No outro dia encontremo com o Arnesto
Que pediu desculpas mais nós não aceitemos
Isso não se faz, Arnesto, nós não se importa
Mas você devia ter ponhado um recado na porta
Um recado assim ói: "Ói, turma, num deu pra esperá
Aduvido que isso, num faz mar, num tem importância,
Assinado em cruz porque não sei escrever"
Arnesto
Nós fumos não encontremos ninguém
Nós voltermos com uma baita de uma reiva
Da outra vez nós num vai mais
Nós não semos tatu! (2x)
No outro dia encontremo com o Arnesto
Que pediu desculpas mais nós não aceitemos
Isso não se faz, Arnesto, nós não se importa
Mas você devia ter ponhado um recado na porta
Um recado assim ói: "Ói, turma, num deu pra esperá
Aduvido que isso, num faz mar, num tem importância,
Assinado em cruz porque não sei escrever"
Arnesto
Ou, ainda, a recriação de poemas famosos reescritos de forma
a representar a fala dos imigrantes italianos da cidade de São Paulo, na obra
de Juó Bananére (para saber mais sobre Alexandre Ribeiro Marcondes Machado, o
Juò Bananère, clique aqui):
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Ouça aqui Juó Bananére. |
Versos
Ficas n'un ganto da sala
P'ra fingi chi non mi vê,
E io no ôtro ganto
Stô fingino tambê.
Ma vucê di veiz in veiz
Mi dá una brutta spiada,
E io tambê ti spio
Ma finjo chi non vi nada.
Cunversas co Bascualino
P'ra mi afazê a gelosia,
Ma io p'ra mi vingá
Cunverso tambê c'oa Maria.
Tu spia intó p'ra Maria
Con ar di querê dá n'ella;
P'ra evitá quarquére asnêra
Si afasto i vô p'ra gianella.
O firmamento stá scuro
I na rua os surdato apita,
Inguanto nu ganto da sala
Tu fica afazéno "fita".
Marietta non segia troxa,
Non faccia fita p'ra gente,
Perchê vucê quêra ô non quêra
Io ti quero internamente.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 196
Ficas n'un ganto da sala
P'ra fingi chi non mi vê,
E io no ôtro ganto
Stô fingino tambê.
Ma vucê di veiz in veiz
Mi dá una brutta spiada,
E io tambê ti spio
Ma finjo chi non vi nada.
Cunversas co Bascualino
P'ra mi afazê a gelosia,
Ma io p'ra mi vingá
Cunverso tambê c'oa Maria.
Tu spia intó p'ra Maria
Con ar di querê dá n'ella;
P'ra evitá quarquére asnêra
Si afasto i vô p'ra gianella.
O firmamento stá scuro
I na rua os surdato apita,
Inguanto nu ganto da sala
Tu fica afazéno "fita".
Marietta non segia troxa,
Non faccia fita p'ra gente,
Perchê vucê quêra ô non quêra
Io ti quero internamente.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 196
Tanto Adoniran Barbosa como Juó Bananére buscavam
representar na escrita os sons da fala do paulistano e do imigrante italiano,
porém sempre indicando a sonoridade por meio da acentuação, e também a
entonação das frases com os sinais de pontuação.
É claro que, numa situação de informalidade, podemos também
representar os sons da fala – mas, por favor, sem maltratar o português...
TT,
ResponderExcluirAdorei a coluna e a lembrança do Adoniram e do Juò... Pois é, há tanta criatividade borbulhando na rede - eu mesma me divirto muito com a internet, uma vez que é raro o momento em que posso conviver com os amigos ao vivo. No entanto, os maus tratos ao português me irritam. E o que dizer dos próprios portais de notícias que cometem erros terríveis? 'Eu acho que essa gente/ precisava em vez de inglês/ aprender um pouco mais de português/ ok! ok!' (lembra-se desta canção?). Beijos Susana
Obrigada pela lembrança, Susana!!
ExcluirUm outro exemplo é o samba "Orora", de Gordurinha (nome artístico de Waldeck Artur de Macedo), gravado por Jorge Veiga e também por Jards Macalé.
A língua é dinâmica - e não deve mesmo ficar estagnada, senão morre-, e por isso sempre se modifica. No entanto, estamos assistindo hodiernamente a uma involução, e não apenas do nosso amado português.
O maior perigo das reduções já foi apontado por George Orwell (creio termos conversado sobre esse assunto, não?). Acho até que vou falar disso na coluna da próxima semana.
Obrigada por acompanhar a coluna!!! Suas intervenções são sempre muito oportunas!
Beijos também.
TT