![]() |
O compositor e cantor Elomar. |
Quem me conhece sabe que jamais corrijo meu interlocutor. Vou explicar.
Entendo que seja necessário haver uniformidade na escrita
para que o leitor não fique em dúvida sobre a mensagem, para que a compreenda de
forma plena, justamente porque a escrita não possui a mesma riqueza expressiva
da fala, à qual se acrescentam gestos, expressões faciais, diferentes
entonações de voz. A ausência de pontuação, por exemplo, pode levar a confusões
sobre o enunciado, ou mudar-lhe totalmente o sentido. Vejam-se os enunciados a
seguir:
“Só você não conseguirá a resposta.”
“Só, você não conseguirá a resposta.”
Na primeira oração, “só” tem o sentido de “somente, apenas”,
resultando em “Apenas você não conseguirá a resposta”; isto é, todo mundo
conseguirá a resposta, menos você.
Na segunda, com a vírgula”, “só” adquire o significado de
“sozinho, solitário”, o que muda o sentido da frase para “Sozinho, você não
conseguirá a resposta”; ou seja: você não conseguirá a resposta se a procurar
sozinho.
“Se homem soubesse o valor que tem, a mulher
sairia de quatro à sua procura.”
Mudando a vírgula de lugar, o significado também se altera:
“Se homem soubesse o valor que tem a mulher,
sairia de quatro à sua procura.”
Quaisquer tentativas de padronização da fala, de um lado,
destroem a riqueza e a própria história da língua; de outro, são resultado de
imposições e, por isso mesmo, refletem autoritarismo – o que já dissemos quando
mencionamos a novilíngua de Orwell (para ler o texto, clique aqui).
Como negar a beleza da música “Arrumação”(*), de Elomar
Figueira Mello, escrita no falar sertanejo das barrancas do Rio Gavião? Muito
embora não conheçamos muitas palavras e construções frasais do texto, por que
não pesquisar para compreendê-lo e apreciar a poesia que brota da força do
homem simples?
A língua é dinâmica - modifica-se, transforma-se, cresce com
novos termos e construções, e por isso não há caminho para imposições e
limitações sem que isso implique o cometimento de arbitrariedades.
(VOCABULÁRIO, PONTUAÇÃO, LINGUAGEM ESCRITA, NÍVEIS DE
LINGUAGEM, VARIAÇÃO LINGUÍSTICA)
Arrumação (*)
Josefina sai cá fora e vem vê
olha os forro ramiado vai chovê
vai trimina reduzi toda a criação
das banda de lá do ri Gavião
chiquera pra cá já ronca o truvão
futuca a tuia, pega o catadô
vamo plantá feijão no pó
Mãe Purdença inda num culheu o ái
o ái roxo dessa lavora tardã
diligença pega panicum balai
vai cum tua irmã, vai num pulo só
vai culhê o ái, ái de tua avó
futuca a tuia, pega o catadô
vamo plantá feijão no pó
Lũa nova sussarana vai passá
seda branca na passada ela levô
ponta d’unha lũa fina risca no céu
a onça prisunha a cara de réu
o pai do chiquero a gata comeu
foi num truvejo c’ua zagaia só
foi tanto sangue de dá dó
Os cigano já subiro bera ri
é só danos todo ano nunca vi
paciência já num güento a pirsiguição
já sô um caco véi nesse meu sertão
tudo qui juntei foi só pra ladrão
futuca a tuia, pega o catadô
vamo plantá feijão no pó
* * *
Glossário e Notas Explicativas (“Língua e Estilo de Elomar”,
organizado por Darcília Simões, com Luiz Karol e Any Cristina Salomão,
colaboração de Fernanda Piccinini, Rio de Janeiro, Dialogarts, 2006)
Ái roxo (reg.) = alho roxo, o alho roxo demora de 5 a 7
meses, enquanto as outras
lavouras demoram menos (v. 9).
Balai (reg.) = Balaio - Cesto de palha, de talas de
palmeira, ou de cipó, com tampa ou sem ela, geralmente com o formato de alguidar;
[Aurélio, s.u.](v. 10).
Chiquera (reg.)f.v.- IdPresP3 sing= prende no chiqueiro. (v.
5). Cf. Chiquero (reg.)= local onde se criam, bodes, cabras e porcos (O pai do
chiquero = o bode maior).(v. 19)
C’ua (reg.) = com + uma. (v. 20).
Culhê (reg.)f.v.-inf = colher. (v. 12). Cf. Culheu (reg.)f.v.Id.Pret.P.3ªp.sing.
= colheu.(v. 8).
Cum (reg.) = com. (v. 11).
D’unha = de unha
Forro ramiado (reg.) = céu que anuncia chuva. (v. 2)
Güento (reg.) = Agüento – Dev. agüentar; Sustentar,
suportar, tolerar. [Aurélio,su]. (v. 24).
Lavora tardã (reg.) = lavoura que precisa de mais tempo para
dar frutos (v. 9)
Lũa (arc.) = lua. (vv. 15/ 17).
Panicum (reg.) = (> panacum; cesta de boca larga). (v.
10).
Prisunha (reg.) = adj. unha deslocada que indica animal bom
de caça. (v. 18)
Reduzi (reg.)f.v.-Id.Pres.3ªp.sing.= reduz (v. 3).
Ri (reg.) = rio (vv. 4 / 22).
seda branca = nome do bode reprodutor(v. 16).
Sussarana = Suçuarana -Mamífero carnívoro, felídeo, comum em
toda a América nos tempos coloniais. A coloração é amarelo-avermelhada
queimada, mais escura no dorso, amarelo-claro na parte ventral, e os filhotes
nascem pintados com manchas escuras no corpo. [Aurélio, s.u.], também conhecido
como puma. (v. 15).
Trimina (reg.)f.v.-Imp.2ªp.sing. = metaplasmo de
transposição termina>trimina. (v. 3).
Truvão (reg.) = trovão. (v. 5).
Truvejo (reg.) = Trovão / dentro do contexto da música é uma
metáfora do rugido
assemelhado a um trovão. (v. 20).
Tuia = forma vocalizada para tulha = Grande arca usada para
guardar cereais
[Aurélio, s.u.], trata-se também, na zona rural, de um
cômodo da casa grande utilizado para guarda de ferramentas, sementes e
suprimentos, cf. entulhar.
Véi (reg.) = velho. (v.25).
Até a próxima semana!
Therezinha, minha nossa. Que rica que é nosso idioma portugues. Todos os dias a gente aprende algo novo. Vivo nao so a lingua portuguesa, mas tambem a pessoa que procura entender e aprender sobre al palavras e seus usos regionais. Gostei que voce usou Elomar como exemplo do nosso Sertao.
ResponderExcluirQue coisa linda!
ResponderExcluirEsplêndido, para dizer o mínimo!
Gostaria de saber o significado de dilidença nessa música.
ResponderExcluirDiligência (pra colher o alho antes da chuva).
Excluir"Catadô": feijão "catador", muito plantado nas áreas secas do NE.
ResponderExcluir"Plantar no pó": plantar na terra ainda seca (esperando que a chuva chegue em breve)
muito bom, obrigado
Excluir