quinta-feira, 22 de maio de 2014

CORDEL NA REDE - Minha homenagem a Ruth Guimarães (1920-2014)


Ricardo I, Batalha de Jaffa (1192).
Por Marco Haurélio.


Em meu livro Breve história da Literatura de Cordel (Claridade, 2010), há um capítulo — o meu favorito — chamado Nordeste medieval. Abro com um resumo da lenda do Rei Ricardo Coração de Leão, baseado no artigo Ricardo Coração de Leão, do livro Grandes enigmas da História (1975), da historiadora e folclorista Ruth Guimarães. O sugestivo subtítulo, Como se faz um herói popular, nos ajuda a compreender o processo de mitificação dos protagonistas do drama do cangaço, encenado no Nordeste brasileiro, a partir do século XVIII. É a minha homenagem a esta grande escritora, que rompeu fronteiras e deixou um legado que sobreviverá por muitas gerações.

Uma obscura lenda medieval, conservada pela tradição, ajuda a entender o processo de difusão e o prestígio alcançado pela poesia popular do Nordeste. Nela, o menestrel é figura de destaque. Refere-se a Ricardo Coração de Leão, rei inglês de origem normanda, herói de muitas canções de gesta, a despeito de ter sido, segundo os historiadores, um monarca movido pela impiedade. Ocupou o trono, após vencer numa batalha o rei Henrique II, seu pai, que, antes de morrer, lançou-lhe uma maldição. Ao ser coroado em 1189, afirmou, resoluto, que iria à Terra Santa defender o sepulcro de Cristo. O povo, em delírio, aclamou o rei que partia para uma cruzada. Não carece determo-nos em detalhes desta empreitada, na qual Ricardo mostrou-se um hábil guerreiro e um mau político. Promoveu banhos de sangue e semeou terror entre os muçulmanos. Colecionou inimigos, inclusive nas hostes cristãs, dentre eles o duque Leopoldo V, da Áustria.

No retorno à Inglaterra, sua embarcação, impelida pelas ondas, foi arremessada às costas do Adriático. Disfarçado, tentou atravessar a Áustria, porém, reconhecido, caiu prisioneiro. Seus homens foram trucidados. Os poucos sobreviventes, rotos e famintos, alcançaram a Inglaterra. Noticiaram a prisão do rei sem, contudo, indicar o local. A notícia semeou desespero entre as camadas populares, mas foi motivo de júbilo para o príncipe João Sem-Terra, o despótico irmão de Ricardo, que havia muito ambicionava o trono. Nesse período, lenda e realidade se enredam. Surge Robin Hood, um fora da lei de ascendência nobre, liderando um bando de salteadores que roubavam dos ricos e distribuíam aos pobres. Robin era também personagem de baladas e canções de gesta.

A desesperança já se apossava dos ingleses quando um jogral popular, Blondel de Nesle, igualmente de origem normanda, de posse de sua bandurra, resolve sair à procura de seu senhor. Galgou enormes distâncias, cantando à beira dos calabouços, levando aos prisioneiros o lenitivo de sua bela voz. Ao rei Ricardo era atribuído o dom da poesia. Em outros tempos compusera uma canção, que, por sua feição de diálogo, se assemelha a algumas modalidades do repente nordestino. Por sorte, o menestrel, em suas andanças pela Europa Central, deparou com a prisão de Durnstein, onde entoou justamente a cantiga composta pelo rei. A resposta veio de uma das torres, para alegria do jogral, que enfim encontrara seu amo.
De volta à Inglaterra, Blondel espalhou a notícia. O resgate foi pago, por imposição popular, contra a vontade do príncipe João. A tradição atribui ainda a Robin Hood e ao jogral Guilherme de Long Champ a árdua missão de levantar o dinheiro, exigido por Leopoldo V. Pago o resgate, Ricardo, de volta à Inglaterra, viu-se obrigado a retomar os combates, desta vez contra Felipe Augusto, da França, que reivindicava a Normandia.

Vitorioso, Ricardo desfrutaria de glória efêmera. Morreria, no cerco ao castelo de Limoges, abatido por uma flecha atirada por certo Gourdon. O rei buscava um tesouro enterrado no castelo, pois, de acordo com o direito feudal, lhe pertencia a metade. Marchara contra o senhor do castelo e perdera a vida. Os ocupantes do castelo, derrotados, foram todos enforcados. Gourdon, o assassino do rei, teve destino pior: foi esfolado vivo. O tesouro, nunca encontrado, reforçou as suspeitas de traição, e João Sem-Terra, para sempre identificado à vilania, foi apontado como o principal responsável pela tragédia.

A lenda do rei Ricardo mostra o processo de formação, na mentalidade coletiva, do mito do herói popular. Pelo mesmo processo passaram outros reis e heróis, a exemplo de Carlos Magno, cuja presença nas tradições populares do Brasil é motivo de estudos que vão além do folclore e da etnografia. Na base da cristalização do mito está o jogral, o bardo itinerante, o poeta do povo, encarregado de difundir e divulgar as façanhas dos heróis, que, conscientemente ou não, ele ajuda a fabricar.

Baiano de Riacho de Santana, Marco Haurélio é poeta popular, editor e folclorista. Em cordel, tem vários títulos editados, dentre os quais: Presepadas de Chicó e Astúcias de João GriloHistória da Moura Torta e Os Três Conselhos Sagrados (Luzeiro). É autor, também, dos livros infantis A Lenda do Saci-Pererê e Traquinagens de João Grilo (Paulus); O Príncipe que Via defeito em Tudo (Acatu). Escreveu ainda Lendas do Folclore Capixaba (Nova Alexandria),As Babuchas de Abu Kasem (Conhecimento), A Megera Domada (recriado em cordel a partir do original de William Shakespeare) e O Conde de Monte Cristo(versão poética do romance de Alexandre Dumas), os dois últimos para a coleção Clássicos em Cordel, da Nova Alexandria, onde atuou como editor. Escreve toda quinta-feira para o blog da editora Nova Alexandria a coluna Cordel na rede.

Um comentário:

  1. Lindíssima sua crônica, Marco Haurélio. As questões em torno do poder simbólico dos poetas populares sempre me emocionam e me fazem pensar muito. Tenho seu livro, mas a crônica lembrou-me de voltar a ele! Obrigada,
    Susana Ventura

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