domingo, 22 de junho de 2014

BRINCANDO COM A LÍNGUA: NÃO MALTRATE O PORTUGUÊS - Certas palavras, outras palavras, todas as palavras

Por Therezinha Hernandes.

O compositor e cantor Elomar.
Nesta semana me deliciei lendo a coluna “Fé no que virá”, com texto da professora Mírian Pereira (leia aqui), em que ela expressa a ideia de que é preciso abolir preconceitos linguísticos com relação à fala – e tem toda razão.

 Ainda que por vias diversas, partilhamos a mesma opinião. Embora eu defenda a uniformidade na escrita, aprecio muito os falares regionais como expressão da cultura popular. Isso só nos engrandece e nos une como nação.

Quem me conhece sabe que jamais corrijo meu interlocutor. Vou explicar.
  
Entendo que seja necessário haver uniformidade na escrita para que o leitor não fique em dúvida sobre a mensagem, para que a compreenda de forma plena, justamente porque a escrita não possui a mesma riqueza expressiva da fala, à qual se acrescentam gestos, expressões faciais, diferentes entonações de voz. A ausência de pontuação, por exemplo, pode levar a confusões sobre o enunciado, ou mudar-lhe totalmente o sentido. Vejam-se os enunciados a seguir:
  
“Só você não conseguirá a resposta.”
“Só, você não conseguirá a resposta.”


Na primeira oração, “só” tem o sentido de “somente, apenas”, resultando em “Apenas você não conseguirá a resposta”; isto é, todo mundo conseguirá a resposta, menos você.
Na segunda, com a vírgula”, “só” adquire o significado de “sozinho, solitário”, o que muda o sentido da frase para “Sozinho, você não conseguirá a resposta”; ou seja: você não conseguirá a resposta se a procurar sozinho.

 O exemplo seguinte dispensa comentários:
“Se homem soubesse o valor que tem, a mulher sairia de quatro à sua procura.”


Mudando a vírgula de lugar, o significado também se altera:
“Se homem soubesse o valor que tem a mulher, sairia de quatro à sua procura.”

 No entanto, entristeço ao ver que a fala acaba sofrendo perdas quando se impõe um padrão escolhido quase aleatoriamente, como se apenas o falar de uma dada região fosse "certo", e todos os demais, "errados". Esse conceito de certo e errado é limitador.

Quaisquer tentativas de padronização da fala, de um lado, destroem a riqueza e a própria história da língua; de outro, são resultado de imposições e, por isso mesmo, refletem autoritarismo – o que já dissemos quando mencionamos a novilíngua de Orwell (para ler o texto, clique aqui).


Como negar a beleza da música “Arrumação”(*), de Elomar Figueira Mello, escrita no falar sertanejo das barrancas do Rio Gavião? Muito embora não conheçamos muitas palavras e construções frasais do texto, por que não pesquisar para compreendê-lo e apreciar a poesia que brota da força do homem simples?

 Creio firmemente que não se deve privilegiar este ou aquele modo de falar em detrimento de todos os outros; que a língua não deve ser reduzida – ao contrário, os jovens têm o direito de conhecer todos os níveis de linguagem, de ampliar seu vocabulário e, com isso, ter acesso a todo tipo de conhecimento. Cabe a nós, professores, fornecer aos mais jovens ferramentas para que se desenvolvam no universo linguístico.
  
A língua é dinâmica - modifica-se, transforma-se, cresce com novos termos e construções, e por isso não há caminho para imposições e limitações sem que isso implique o cometimento de arbitrariedades.

 Marie Curie dizia que "não devemos temer o desconhecido, e sim procurar compreendê-lo". Transportando essa frase para o mundo das línguas, conhecer novas palavras, novas formas de expressão, buscar compreender os falantes do português em outras terras que não apenas a nossa, é uma sempre enriquecedora fonte de união e de fortalecimento nacional.

(VOCABULÁRIO, PONTUAÇÃO, LINGUAGEM ESCRITA, NÍVEIS DE LINGUAGEM, VARIAÇÃO LINGUÍSTICA)

 Arrumação, Elomar.

Arrumação (*) 

Josefina sai cá fora e vem vê
olha os forro ramiado vai chovê
vai trimina reduzi toda a criação
das banda de lá do ri Gavião
chiquera pra cá já ronca o truvão
futuca a tuia, pega o catadô
vamo plantá feijão no pó

Mãe Purdença inda num culheu o ái
o ái roxo dessa lavora tardã
diligença pega panicum balai
vai cum tua irmã, vai num pulo só
vai culhê o ái, ái de tua avó
futuca a tuia, pega o catadô
vamo plantá feijão no pó

Lũa nova sussarana vai passá
seda branca na passada ela levô
ponta d’unha lũa fina risca no céu
a onça prisunha a cara de réu
o pai do chiquero a gata comeu
foi num truvejo c’ua zagaia só
foi tanto sangue de dá dó

Os cigano já subiro bera ri
é só danos todo ano nunca vi
paciência já num güento a pirsiguição
já sô um caco véi nesse meu sertão
tudo qui juntei foi só pra ladrão
futuca a tuia, pega o catadô
vamo plantá feijão no pó

*     *     *

Glossário e Notas Explicativas (“Língua e Estilo de Elomar”, organizado por Darcília Simões, com Luiz Karol e Any Cristina Salomão, colaboração de Fernanda Piccinini, Rio de Janeiro, Dialogarts, 2006)

Ái roxo (reg.) = alho roxo, o alho roxo demora de 5 a 7 meses, enquanto as outras
lavouras demoram menos (v. 9).

Balai (reg.) = Balaio - Cesto de palha, de talas de palmeira, ou de cipó, com tampa ou sem ela, geralmente com o formato de alguidar; [Aurélio, s.u.](v. 10).

Chiquera (reg.)f.v.- IdPresP3 sing= prende no chiqueiro. (v. 5). Cf. Chiquero (reg.)= local onde se criam, bodes, cabras e porcos (O pai do chiquero = o bode maior).(v. 19)

C’ua (reg.) = com + uma. (v. 20).

Culhê (reg.)f.v.-inf = colher. (v. 12). Cf. Culheu (reg.)f.v.Id.Pret.P.3ªp.sing. = colheu.(v. 8). 

Cum (reg.) = com. (v. 11).

D’unha = de unha

Forro ramiado (reg.) = céu que anuncia chuva. (v. 2)

Güento (reg.) = Agüento – Dev. agüentar; Sustentar, suportar, tolerar. [Aurélio,su]. (v. 24).

Lavora tardã (reg.) = lavoura que precisa de mais tempo para dar frutos (v. 9)
Lũa (arc.) = lua. (vv. 15/ 17).

Panicum (reg.) = (> panacum; cesta de boca larga). (v. 10).

Prisunha (reg.) = adj. unha deslocada que indica animal bom de caça. (v. 18)

Reduzi (reg.)f.v.-Id.Pres.3ªp.sing.= reduz (v. 3).

Ri (reg.) = rio (vv. 4 / 22).

seda branca = nome do bode reprodutor(v. 16).

Sussarana = Suçuarana -Mamífero carnívoro, felídeo, comum em toda a América nos tempos coloniais. A coloração é amarelo-avermelhada queimada, mais escura no dorso, amarelo-claro na parte ventral, e os filhotes nascem pintados com manchas escuras no corpo. [Aurélio, s.u.], também conhecido como puma. (v. 15).
Trimina (reg.)f.v.-Imp.2ªp.sing. = metaplasmo de transposição termina>trimina. (v. 3).

Truvão (reg.) = trovão. (v. 5).

Truvejo (reg.) = Trovão / dentro do contexto da música é uma metáfora do rugido
assemelhado a um trovão. (v. 20).

Tuia = forma vocalizada para tulha = Grande arca usada para guardar cereais
[Aurélio, s.u.], trata-se também, na zona rural, de um cômodo da casa grande utilizado para guarda de ferramentas, sementes e suprimentos, cf. entulhar.
Véi (reg.) = velho. (v.25).


Até a próxima semana!


Um comentário:

  1. Therezinha, minha nossa. Que rica que é nosso idioma portugues. Todos os dias a gente aprende algo novo. Vivo nao so a lingua portuguesa, mas tambem a pessoa que procura entender e aprender sobre al palavras e seus usos regionais. Gostei que voce usou Elomar como exemplo do nosso Sertao.

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