quarta-feira, 23 de abril de 2014

CINEME-SE - Laranja antiga é mais doce?



Por Plínio de Mesquita Camargo.

José Mauro de Vasconcelos, nos anos 1970, foi leitura para nota no Ginásio, mas a gente gostava de o ler; do Meu pé de laranja lima obrigatório se ia buscar outros. Meu pé virou filme em 70, de e com Aurélio Teixeira como o Português, segundo melhor amigo do menino Zezé, Júlio César Cruz (depois Pedrinho no Sítio do Pica-pau global). Rosinha minha canoa também se leu para a escola; Coração de vidro se dava a meninas no aniversário (e se lia na miúda); os mais furões achavam Arara vermelha (que é filme de Tom Payne com Anselmo Duarte, de 1957, que vi na TV lá por 1975), uma história de garimpo, Doidão e outros e - o mais importante - criavam o costume de procurar por um autor numa biblioteca.



Escola nenhuma dava livro, na ditadura. Livro obrigatório o pai comprasse, como lápis e caderno e uniforme. Porque ginásio público era para poucos, os leitores não fizeram de José Mauro um homem rico; ele completava o orçamento com cinema desde 1941, quando fez pontas em 24 horas de sonho, de Chianca de Garcia, e O dia é nosso, de Milton Rodrigues, comédias da produtora carioca Cinédia. Antes, foi treinador de box, carregador de bananas numa fazenda, professor em uma aldeia de pescadores, começou vários cursos superiores e não concluiu nenhum, juntou-se aos irmãos Villas-Boas em seu trabalho com os índios brasileiros – daí resultou, entre outros livros, As confissões de Frei Abóbora, filmado em 1971 por Braz Chediak.

Da paulista Vera Cruz, atuou na primeira produção, Caiçara (1950), de Adolfo Celi, e no último sucesso, Floradas na serra (1954), de Luciano Salce; Modelo 19 (de Armando Couto, 1952) da Maristela, outra efêmera produtora de São Paulo, rendeu-lhe um prêmio Saci de melhor coadjuvante; para a mesma Maristela, ajudou no roteiro de O canto do mar (1953), filme de Alberto Cavalcanti, premiado na Europa e ignorado pelo público no Brasil; esteve em O preço da ilusão (1957), produção do Clube de Cinema de Florianópolis que, fora da ilha, ninguém viu. Para Walter Hugo Khouri – diretor e produtor -, atuou em Fronteiras do Inferno (1959), Na Garganta do Diabo (60, prêmio Governador do Estado de São Paulo, melhor ator) e A ilha (63); Mulheres e milhões, chanchada tardia (de 1961) de Jorge Ileli, deu-lhe outro Saci. Mexicanos coproduziram e Tito Davinson, do Chile, dirigiu, em 1958, Mulher de fogo, baseado em seu livro Vazante. Também foi ator na TV, em que Meu pé de laranja lima gerou três telenovelas (na Tupi, em 1970, na Bandeirantes em 80 e 98.

José Mauro de Vasconcelos foi um dos culpados por eu (e muitos outros de minha geração, penso) gostar de literatura, e Meu pé de laranja lima (livro e filme) denunciava a violência de pais contra crianças, num momento em que a violência da ditadura contra os brasileiros atingia seus auges. Se não foi o primeiro filme nacional que vi, é o primeiro que lembro onde e com quem vi (aos 13 anos) e o que achei. Mesmo esnobado pelos críticos, José Mauro vendeu muitos livros e os teve traduzidos para dezenas de idiomas, até 1984, quando morreu. Então, esqueceram-no até 98.
Tudo isso é para dizer que não vi (nem quero muito ver) a mais nova versão fílmica (de Marcos Bernstein, lançada em 2013) de Meu pé de laranja lima.

3 comentários:

  1. Olá, Plínio. Bem legal seu artigo!

    Abs. Jeosa.

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  2. Plínio,
    Que coluna bacana. E olhe, depoimento de professora com rodinhas nos pés: José Mauro é publicado no exterior e muito muito lido. Mencionado para mim nos mais diversos quadrantes, tem gente fazendo trabalhos sobre ele na Argentina, em Portugal, na Alemanha. Onde eu paro tem alguém que diz que ama, que leu, que amou. Muito obrigada pela coluna (ah, eu vi o filme novo também - qualquer hora a gente fala!).

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  3. Muito bom o artigo, apenas uma correção: Mulheres e Milhões, digirido por Jorge Ileli não é uma chanchada, mas um thriller policial muito bem feito e detentor de premios de melhor filme do ano (1961),

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