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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Gente vazia só enche o saco.

Por André J. Gomes.



Tem palavra que é como cachorro de rua: vem com pulgas. Hoje apareceu uma por aqui abanando o rabo, a língua de fora, o olhar pedinte, e eu deixei entrar. Na verdade é uma expressão japonesa, dessas com significado grandioso, definitivo. “Ikigai”. Alguma coisa como ‘a razão de ser’ de cada um, motivo pelo qual você e eu nos levantamos todos os dias. Boa frase. Esses japoneses têm cada uma!
Já as pulgas que vieram junto são daqui mesmo, adestradas, veteranas dos circos da vida. Saltaram certeiras para trás da minha orelha e agora estão coçando. Estão coçando muito.
É que eu andava distraído, sabe? E como em geral acontece quando a gente se distrai, eu topei de cara com o óbvio doloroso. Seguia esquecido dos meus reais motivos para acordar de manhã. Quando isso se dá, a gente liga o piloto automático. E o piloto automático é burro que só ele. Segue direto para o fim e o fim não é outro senão a bocarra da morte, sem as tantas escalas aqui e ali que alguém há de chamar de vida.
Certo é que todos seguimos sem volta para a morte e por isso viver é só o que nos resta. Mas viver sem saber para quê é perder as escalas, praticar o crime hediondo da estupidez.
Quem esquece ou não sabe por que se levanta todos os dias se torna aos poucos uma odiosa besta. Uma barata bêbada, uma criatura ridícula, vazia e perdida falando pelos cotovelos, agredindo quem passa perto, batendo em todas as portas à procura de só Deus sabe o quê.
Como todos aqueles que não têm, abandonam ou desconhecem suas motivações essenciais, quem existe neste mundo sem saber o que faz aqui sobrevive sem desconfiar por quê. Passa a vida nadando em praias que não são suas, engolindo humilhações, maus tratos, grosserias, preconceitos, pontapés, julgamentos descabidos, deselegâncias, tomando toda sorte de água suja. E a ironia é: mesmo ingerindo tanta coisa, pessoas assim continuam vazias.
Faça um teste. Olhe ao redor. Ouça as reclamações em curso. Já viu quanta gente se queixando sem fim? Reclamar é “clamar de novo”. Pedir repetida e infinitamente. Vê quanta gente pedindo de tudo outra vez? Pedem um novo trabalho, novos amigos, amores, estados de espírito. Vivem de eternas súplicas. É claro que podem e devem! A insatisfação é um impulso humano, um direito conquistado. Rogar, requerer, reivindicar. A nós é permitido clamar e reclamar à vontade. Mas não será um problema sério implorarmos a vida inteira por algo que nós mesmos não sabemos o que é?
É certo que há os insatisfeitos produtivos, aqueles que sabem o que querem e não se contentam até encontrarem. Miram o horizonte e vão buscá-lo. Vivem em movimento. Realizam. Palmas para eles! Mas há também os insatisfeitos frustrados, inférteis, infecundos, entrevados em queixas umbilicais. Esses enchem o saco.
Quem reclama sem saber o que quer há de fazê-lo para sempre, até morrer sentado num buraco que só afunda. Em situação bem pior que a do cachorro perseguindo o próprio rabo, porque ao menos o cachorro sabe o que está buscando. Ele quer morder o rabo e ponto. Porque a vida é dele e o rabo coça como as pulgas perversas que me mordem atrás da orelha.
Estar na vida sem saber por que pular da cama de manhã tem outro prejuízo assombroso: faz de nós presas fáceis dos terríveis zumbis sentimentaloides, essas mulas que saem por aí às cegas farejando amor nas sombras, nas sobras e nos restos. “Amooor… amoorrr… eu quero um amooooor, quero um amoooor assim e assado… quero porque quero…” feito tontos completos. Sem opinião, sem a menor ideia do que anseiam da vida, sem critérios, sem saber o que podem dar e o que desejam receber, correndo em busca tão somente de não estar sós. Exigindo tudo sem nada oferecer em troca. Arrastando-se na caçada de corações a devorar na praça de alimentação de um shopping, mortos por dentro, desprovidos de amor próprio, consumidos na busca de migalhas do afeto alheio.
Ignorar nossos propósitos essenciais ou, pior, não tê-los nos torna ridículos produtos manufaturados de uma vida pasteurizada. Figurantes mal pagos de uma cena em que todos têm respostas prontas para tudo. Assim seguimos anestesiados, distraídos, afastados do dever sublime de fazer perguntas e do direito universal de questionar e descobrir por empenho pessoal e sincero. Afinal, para quê perguntar tanto, né? Há inúmeras respostas pré-fabricadas por aí. Mais fácil comprar uma delas no cartão em doze vezes e fingir felicidade na hora da foto.
Abandonar nosso direito a questionar também é viver sem saber por quê. E quem não sabe o que está fazendo aqui perde o melhor da festa: a consciência plena de seus sentidos, o gosto incrível de saber que estamos oferecendo o melhor e recebendo o melhor em troca ou, no mínimo, estamos nos preparando com honestidade para o inesperado que está por vir.
Quem sabe o que quer pode seguir por onde bem entender porque há de sempre retornar à sua intenção sagrada. A quem compreende a potência da vida e o que fazer dela, andar por aí sem esperar nada além do privilégio de acordar no dia seguinte não traz nenhum prejuízo e ainda lhe dá uma vantagem imbatível: receber de bom grado o que vier para lhe fazer bem e descartar todo o lixo que lhe tentarem impor. Porque quem encontra e cultiva uma intenção sagrada se liberta da mendicância emocional. Aprende a valorizar o que tem e a dizer “não, obrigado, isso não me serve”.
Não por nada, não porque possui um poder sobre-humano, mas só porque reconhece aquilo e aqueles pelos quais se levanta todos os dias e dessa intenção se alimenta e por ela trabalha, vai à luta ora com medo, ora tomado de valentias, mas sempre repleto de uma íntima coragem de seguir vivendo, ímpeto valioso construído de gratidão e amor. “Ikigai”.
Benditos japoneses, malditas pulgas. Como coçam, as danadas.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Fuja das almas mesquinhas. Viver é um exercício de grandeza.

Por André J. Gomes.


Está faltando grandeza na gente. Falta, sim. Em todo canto, falta. Vivemos à míngua de gestos generosos, intenções grandiosas, ações maiores. Como bichos tímidos, acanhados em nossos projetos, reduzimos nossas vidas aos cargos e postos e títulos e relações oficiosas e protocolares que aos poucos nos transformam em meros colecionadores de miniaturas, acumulando milhas de mesquinharias. Nós e nossas vidinhas habitadas por pessoinhas deslumbradas, sorrindo sem graça em jantarezinhos sem afeto, cozinhando pratinhos sem gosto, a partir das receitinhas de homenzinhos dos programinhas de tevê.
Falta grandeza na gente, sim. Insistimos em ser rasos, superficiais, rasteiros, trancafiados em nossas verdades minguadas, metralhando com o dedo quem passar perto. Rareiam amigos de coração aberto e mãos postas, estendidas. Falta quem se disponha a escutar mais e mostrar menos, perguntar mais do que responder, questionar mais que pontificar. Falta gente disposta a pagar a conta por pura e simples gentileza. Ah… como são raras as visitas que surpreendem quando chegam para o churrasco em casa alheia trazendo nos braços algo além das doze cervejas combinadas. Um bolinho para a dona da casa, um presentinho para as crianças. Qualquer coisa para além de uma presença fria, mirrada, previsível, burocrática.
Pior. Nossa escassez de elevação vem sob a escolta das matilhas de gênios e suas teorias em defesa da mesquinhez. “É a crise!”; “não sobra dinheiro para isso”; “também, com o preço das coisas…”; “no mundo moderno cada um paga a sua, tá reclamando do quê?”; “É cada um por si” e outras desculpas esfarrapadas. Como se a falta de dinheiro fosse o único problema.
Será mesmo? Ou tanta evasiva não passa de nossa obtusa mania de pequeneza crescendo como verruga, aumentando como um buraco? Certo é que nos tornamos sovinas, ridículos, avarentos de emoção e entrega e disposição para nós e para os outros. Isso, minha gente, tem pouquíssimo a ver com dinheiro. Estar “no bico do urubu”, sem um tostão para nada, não faz de alguém um “mão de vaca”. Há muito mendigo por aí dividindo seu pedaço de cobertor, sua porção de comida fria e seu meio cigarro com quem necessita. Porque generosidade é coisa das almas elevadas, com ou sem fundos patrimoniais. E ela está em falta como a água que baixa nas represas e o dinheiro que some dos cofres.
Nosso tempo na vida é tão pequeno e a grandeza anda tão pouca! Quanto será que nos resta? Por quanto mais você e eu estaremos aqui? Quanta vida nos cabe ainda? Trinta anos? Quarenta? Duas horas, um minuto? Pergunto, pergunto e com franqueza me dou conta de que, no fundo, não importa. Não interessa porque no fim do caminho qualquer tempo terá sido pouco. Muito pouco tempo para perdermos com pequenezas.
Sejamos francos. A vida anda mirrada demais. Reduzida contra vontade, coitada, à pequena experiência pessoal de cada um. Obrigada por nós mesmos a dar as costas à sua vocação essencial. Porque, você sabe, diferente do que querem os mesquinhos, viver é nada senão um tremendo e escandaloso exercício de grandeza. Sejamos francos. Está faltando grandeza na gente.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Canto para uma manhã azul

Um dia, lá pelas tantas de sua vida longa de ir e vir, a manhã decidiu sair de casa despida, leve, solta. Liberta. Completamente nua. Impulsiva e louca, dispensou as nuvens que a acompanham desde tanto e foi tomar sol sem nada. Nada além de sua infinita, fresca, pura e bela pele azul.

Deitada sobre a terra vestida de dor e intolerância, medo e preconceito, ódio e prepotência e burrice e falsidade, a manhã abriu os braços e suspirou generosa seu hálito vivo que tudo renova e aquece.

Soprando os vestidos das moças, bagunçando as calcinhas do varal, acarinhando o recado divino nos rostos das crianças, porque toda criança tem o rosto de Deus, a manhã se espreguiçava e alongava sem mais sobre nós como gata mansa, espaçosa, atrevida.

E toda gente que ali existia, saltada de suas camas para mais um dia, os meninos rumo à escola em seus bigodes de café com leite, os homens e as mulheres apressados para o serviço, os velhos passeando de braços com suas saudades, os trabalhadores noturnos seguindo para o descanso no fim da lida, os boêmios entornando os últimos goles em seu movimento de fuga honesta, todos eles paravam de olhos apertados em franco rubor. A manhã, em generosa liberdade, despertara coisas no lá dentro de toda gente.

Ela ficou assim cochilando, ensolarada e nua, sem vergonha e sem medo, respirando calma sobre um mundo perplexo. Em seu longo e eterno instante de beleza pura e simples. Então veio um anjo e em absoluto silêncio cobriu-lhe as partes de nuvens suaves, vestes macias aqui e ali, como um carinho divino, um cuidado manso de amor sem mais.

O sol lambeu-lhe a extensão de suas costas azuladas com calor e capricho, até o fim. A manhã foi se tornando tarde, depois tardinha, noite. Mas aí já era tarde. Ao despertar desnuda, a manhã ensolarou a vida. E toda gente se viu condenada a viver em estado de permanente amanhecer. 


André J. Gomes

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Viagem no trem da saudade

Por André J. Gomes.


Naquele tempo, entre milhares de prédios e garagens e já dezenas de milhões de almas circulando pelas ruas sobre seus pés ou em veículos de motores barulhentos, havia lá pelo meio da cidade grande uma estação de trem. Dali partiam todas as tardes, quase à noitinha, duas composições de ferro e sonhos: uma às cinco e quarenta e dois e outra às seis e oito, como uma segunda chance a quem perdesse o primeiro.

Seus passageiros eram uma pequena multidão de trabalhadores afoitos, daquela gente que passa o dia na lida e à noite se agarra aos livros e aos planos. Talvez hoje nenhum deles se lembre, mas quase todos estavam ali de chegada no começo da vida. E chegavam lá aos poucos, todos os dias, à noitinha, num trem que os levava a outro jeito de existir.

Expressos, o trem das cinco e quarenta e dois e o trem das seis e oito partiam da metrópole e só paravam longe, numa cidade pequena habitada por estudantes, donas de casa e o resto do mundo. A viagem durava uma hora e a vida inteira. Porque àquela hora, uns sobre os bancos vermelhos de plástico duro, outros sentados no chão forrado de jornal e outros em pé, se equilibrando no embalo impetuoso de seu vagão, a vida começava e acabava de novo à noitinha.

É possível que hoje nenhum deles se lembre, mas o trem seguia seu rumo alheio a tudo. A despeito das pedras que lhe atiravam da rua os que têm sede de morte, a vida era mais forte, vencia sempre. Apesar das balas perdidas, do custo de vida penoso e de tanta coisa lá fora e cá dentro de cada um, o trem seguia em frente como o tempo. É que o trem era o último sopro de vida do dia. Rompia a tarde rumo à noite e ao para sempre, todos os dias.

O trem seguiu assim por muito e muito tempo, levando a bordo o passado e o presente e o futuro de cada um. Quando um dia parou sem mais o quê, seus passageiros seguiram seus rumos a bordo de outros sonhos. E em cada um deles encostou um vazio de plataforma à espera. Um espaço eterno, um terreno baldio na cidade de suas lembranças. Um lugar guardado para o trem que um dia, quando chegar a hora, sabe-se lá quando, nos levará de novo, juntos, à noite de nosso encontro eterno.

Talvez nenhum deles se lembre, mas eu também estava lá. E hoje, toda tardinha, às cinco e quarenta e dois e às seis e oito, a saudade me chega e me parte. Como o trem que em nosso tempo cortava a cidade e a vida rumo ao lugar em que estamos agora.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Crônica do Roni - Esplêndidas irrelevâncias

Por Roniwalter Jatobá.


Como o personagem Roberto, vivido pelo ator argentino Ricardo Darín no belo filme Um conto chinês, sou um compulsivo colecionador de recortes de jornais. Diariamente, ao ler os periódicos, tenho sempre uma tesoura à mão, para separar notas interessantes, até mesmo aquelas que o escritor norte-americano Bill Bryson denominou de "esplêndidas irrelevâncias".
– Isso só junta poeira – criticou alguém outro dia.
Faço pouco caso.
– Deixa aí. Uma hora servem para alguma coisa.
Eis aqui três histórias.
Sortear uma égua foi a solução encontrada por duas professoras de um colégio estadual em Itaguajé, no Paraná, diante da dificuldade de seus alunos em ter acesso a livros. Com o dinheiro arrecadado na rifa, elas compraram 250 obras literárias e inauguraram a biblioteca da escola. A iniciativa foi a primeira colocada na quinta edição de um concurso que escolhia os melhores programas de incentivo à leitura junto a crianças e jovens, promovido por órgãos do governo federal. O programa vencedor, intitulado "Uma égua por livros", foi inscrito pelo pai de um aluno que quis homenagear as professoras Lúcia Melo e Marisa Tamamaru. Por sinal foi Marisa que, em 1998, doou sua égua para a rifa.
No quintal de sua casa, no Jardim Carmelo, em Guarulhos, o ajudante de cargas, Irso Alves de Souza, vem cultivando uma horta com oito pés de couve gigante. Chegam a alcançar seis metros de altura. Segundo o "agricultor", o segredo para o cultivo da espécie com desenvolvimento extraordinário pode estar no cuidado que ele tem com as plantas e o adubo que prepara: esterco de gado, de galinha e pó-de-serra.
Na terceira história, dois jovens de 20 anos, totalmente embriagados, perambulavam pelo aeroporto de Frankfurt, na Alemanha, à procura de um banheiro. De repente, viram um ônibus parado e subiram a bordo. De imediato, foram levados para um avião da Lufthansa com destino a Moscou.
– Eles entraram, sentaram na parte traseira do avião e não foram notados por ninguém – explicou o responsável pela segurança do aeroporto.
Ao chegarem a Moscou, ainda não totalmente sóbrios, eles se deram conta de que não tinham passaportes nem vistos de entrada. Foram, então, postos num voo de volta pela polícia russa. Em Frankfurt, foram acusados pela Polícia Federal de Fronteiras de violar a lei ao viajar sem documentos. Um porta-voz da Lufthansa disse que a empresa estava intrigada.
– Não temos ideia de como eles chegaram ao ônibus sem terem passado por uma checagem de segurança. E também como permaneceram no avião sem serem vistos pelo pessoal de bordo. O problema maior é que os dois também não se lembravam como chegaram até lá.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Porque a gente precisa fazer alguma coisa.

Por André J. Gomes.

Precisa, sim. A gente precisa fazer alguma coisa. Passou da hora. O negócio ficou estranho demais. Já faz tempo que anda assim, é verdade, mas a gente que vive desse jeito, feito cavalo na corrida, uma hora cansa. Esgota para além do desgaste óbvio de quem sai de casa e dá o sangue no trabalho. Chateia mais que tudo essa coisa de viver esquivando, saltando acima de um milhão de rasteiras, como criança que pula corda no meio da rua, à espera de correr para a calçada quando vem o próximo carro nervoso querendo passar, pronto a atropelar quem estiver à frente.

Aborrece, enfastia seguir tantos manuais de instrução. “Viva assim”, “faça assado”. Duro obedecer a tantas ordens e preceitos e conselhos e receitas e palpites. Impossível responder a tanto ataque, tanta expectativa. Tanta instabilidade. “De manhã eu te amo, à tarde eu quero que você morra!”
A gente precisa fazer alguma coisa. Mas fazer assim, sem mais, pela mera expressão da vontade de que as coisas melhorem. Devagar. Fazer pela esperança de construir, vencer pelo empenho. Fazer sem esperar que o outro retribua. Fazer sem expectativa, sem esperar em troca. Fazer pelo outro o que você gostaria de fazer de novo amanhã. E depois de amanhã. E depois.

Olha quanta gente se engalfinhando e agredindo! Olha aquele sujeito ressentido da alegria do cachorro da vizinha que brinca lá embaixo com as crianças. Ele não se conforma de todos serem felizes, os meninos, as mães, os cachorros. O sujeito esbraveja em silêncio, resmunga “como assim? Esse cachorro é mais feliz do que eu? No meu condomínio? E então eu pago as taxas de manutenção das áreas comuns para um cachorro se divertir no meu lugar? NÃO aceito!”

E ele faz uma reclamação formal à síndica, a síndica proíbe os cachorros de brincar na pracinha do prédio com as crianças, as crianças e os cachorros brincam no apartamento mesmo e sujam o tapete da mãe, a mãe fica nervosa, grita e manda todo mundo brincar na rua que ela tem mais o que fazer e não vence limpar a casa. E assim vamos nos distanciando devagar.

É tempo da gente fazer alguma coisa. Não essas reclamações covardes e ressentidas aos síndicos. A gente precisa fazer alguma coisa que preste. Vê aquela senhora ali? Está ardendo de raiva porque desejou feliz aniversário a alguém que depois esqueceu de fazer o mesmo por ela. Sabe o que ela fez? Prometeu nunca mais desejar feliz aniversário a NINGUÉM!

Quanta gente afetada, autorreferente e apaixonada pelo som da própria voz! Tão convencida de sua perfeição e dedicada a exaltar as próprias façanhas que ninguém mais no mundo presta!

Não dá. A gente precisa fazer alguma coisa. Essa mania de achar que o mundo gira em torno de nossas vontades fez de nós um bando de cegos tateando os corredores pegajosos e fedorentos de nossos egos.

Está ficando cada vez pior. E sabe por quê? Porque a gente prefere achar que o problema não é nosso. A gente tem de fazer alguma coisa agora. Não precisa ser passeata, protesto, abaixo-assinado, manifestação. Começa com um gesto mais simples. Uma ação solitária que provoque um milhão de respostas solidárias: vamos fazer uma gentileza!

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Carta de amor ao amor


Por André J. Gomes.

Ah, meu caro, tem uma coisa me beliscando aqui e eu preciso dividir com você. Vou direto ao ponto, como você mesmo é de fazer nos tantos sustos que vira e mexe me dá por aí.

Olha, você é sempre tão generoso comigo que eu não posso agora ficar de mesquinharia. Vou dizer tudo de uma vez! E depois você vê aí o que se aproveita e o resto deixe sair pela outra porta. Por favor, me desculpe o jeito, mas você não acha que o seu irmão gêmeo anda abusando além da conta, não?

Eu sei, não sou ninguém para xeretar nos seus assuntos de família, mas o ódio, esse sentimento tão parecido e ao mesmo tempo tão diferente de você, está merecendo uma coça, um esfrega, um corridão. E aí não tem ninguém melhor que você, o irmão bem sucedido que ele odeia tanto, pra dar conta da tarefa.

A gente tenta, sabe? Tenta espantá-lo de perto. Faz de tudo, assovia, respira fundo, conta até dez. Mas ele é chato, insiste, cutuca. E aí, já viu! É briga, xingamento, esculhambação. A gente grita, avança, fere, fica doente de raiva. É triste.

Mas sabe por que isso acontece? Claro! É briga de família! Tá na cara que o ódio morre de inveja de você. Imagina! O irmão mais bonito, generoso, desejado. Todo mundo quer você! É amor daqui, amor dali, amor pra lá e pra cá. Aí o ódio, seu parente feioso e ciumento, fica queimado de cólera, babando veneno. E parte logo pra cima. De armas em riste e sangue nos olhos, ele ataca o amor com a maior covardia e uma frieza abjeta, no sossego de sua casa que é o coração da gente.

Você precisa fazer alguma coisa. Não me leve a mal, não. Mas é urgente uma medida extrema. O ódio é astucioso, vive à espreita. Disfarçado de você feito em festa à fantasia, avança no coração de cada um e vai fazendo das suas. Confunde amar com possuir, devoção com escravidão, cuidar com vigiar. Ele é esperto, o velhaco. Não demora muito, um mundaréu de gente torna a vida uma guerra “em nome do amor”. É tudo ódio enrustido. Pode reparar! A vida anda assim de gente amando com crachá! É! Sabe aquele povo anunciando aos quatro cantos que ama o marido, ama a mulher, ama os filhos, ama o país e depois ajuda a enfiar porrada no torcedor do time adversário, soca filho de vizinho no elevador, chuta cachorro? Gente achando que o fato de “amar” em casa lhe dá o direito de odiar na rua e vice-versa. É tanto coração cheio de ódio disfarçado por aí, rapaz!

Tá certo. Você está até as tampas de trabalho. É tanta gente o requisitando e você sempre ali, pronto a aparecer. Mas a gente tem de dar um jeito nisso e você precisa de ajuda. Sozinho, não vai dar conta de enfrentar o ódio que, confesso, também habita em mim como um visitante infiel, instável, que chega quebrando a louça, chutando as cadeiras, pousando os pés na parede sem modos de gente.

Passou da hora de tomar de volta o seu lugar no coração do povo. E nessa guerra não dá para ser bonzinho, meu caro. É preciso ser radicalmente bom! Jogar ternura na cara. Inundar a rua de gentilezas, disparar beleza por todo lado, detonar bombas de apreço em cada quarteirão, invadir as casas, escolas e empresas com tropas de entendimento e tolerância. Acorda, amor! É tempo de ir à luta. Peça ajuda! Vamos juntos. Pode contar comigo!

terça-feira, 28 de outubro de 2014

CRÔNICA DO RÔNI - Tarde em Ribeirão Preto

Roniwalter Jatobá. 

 Ribeirão Preto sediou, entre os dias 12 e 15 de novembro de 2011, o Congresso Nacional de Escritores, organizado pela UBE. Já estive lá em evento parecido.
Lembro. Caminho por uma rua comercial com o falecido escritor José J. Veiga, os amigos Noel, Ademar e Cachaça. Fazíamos uma pequena pausa nos debates e seminários.
Era um dia quente e abafado. Por isso, não via a hora de me sentar na Pinguim e, de um gole só, saborear um espumoso chope escuro. Ágil como meu avô paterno, Veiga andava ao nosso lado na calçada larga, a passos compridos, e narrava histórias de mascates e matadores de aluguel.
De súbito, ele pega em meu braço e literalmente me arrasta para a calçada em frente.
— Vamos até ali — me diz. — Quero mostrar uma coisa.
— Tenho sede, mestre.
— Vamos, é coisa ligeira.
Seguimos atrás. Imagino uma livraria com raros exemplares expostos na vitrine. Ao me aproximar, porém, reconheço outro ramo do comércio que não via há muito tempo, apenas na infância durante uma viagem a Governador Valadares, em Minas Gerais.
Era uma selaria. No interior, em mostruários bonitos, tudo para quem gosta de montar no mais fino couro - selas, cabrestos, pelegos e bridas.
Esqueço a sede e o chope. Ligado também nas coisas do campo, fico ali admirando os arreios. Duas selas, do mais rico acabamento, estavam dependuradas num canto, como se estivessem preparadas para equipar os mais belos animais. Não indago o que se passa na cabeça do velho escritor, mas logo lembro de meu pai, descendente de ára­bes e excelente cavaleiro, que um dia me ensinou a arte de cavalgar.
— 0 senhor é que é o escritor José J. Veiga, autor de Cavalinhos de Platiplanto? aproximou‑se o dono da loja. -- Vi sua entrevista ontem no noticiário da TV.
Humilde, como era de seu feitio, Veiga concordou com um leve aceno de cabeça.
— Gostaria de presenteá‑lo com uma sela de nossa fabricação.
Veiga sorriu.
— Muito obrigado — disse. — Em outros tempos, aceitaria sem pestanejar.
Saímos. A duas quadras da loja, não resisto à curiosidade.
— Por que não aceitou? — indago.
O escritor para e me encara com olhos cheios de sabedoria.
— Meu jovem, moro no Rio de Janeiro num pequeno apartamento soterrado de livros. Uma sela vai ocupar muito espaço. Se aceitasse, poderia chegar uma doida vontade de comprar um animal de montaria. Mas, para tê-lo, talvez devesse adquirir um sítio e ter um caseiro para alimentá‑lo todos os dias. Agora, o que quero mesmo é mesmo inventar coisas.
Fomos alegres no rumo da Pinguim. No dia seguinte, cada um viajou para seu canto. Depois disso, nunca mais reencontrei o escritor J. J. Veiga. Ele virou estrela, aos 84 anos, em 19 de setembro de 1999.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Crônica do Roni - O observador inglês

Por Roniwalter Jatobá. 

 Rudyard Kipling.
–  O brasileiro diz que o seu país é cheio de corrupção!

Quem fez essa afirmação, tão atualíssima em relação ao nosso país, foi o escritor Rudyard Kipling, Prêmio Nobel de Literatura de 1907, no começo do século 20, depois de alguns dias em visita ao Brasil.
Vamos à história. Kipling chegou ao Rio de Janeiro, então capital da República, no final da tarde de 13 de fevereiro de 1927. Foi recebido com festa. Numa recepção na Academia Brasileira de Letras, estavam presentes dezessete acadêmicos, de Afonso Celso a Coelho Neto, além dos embaixadores da Inglaterra, França, Estados Unidos, Argentina, diplomatas, e Getúlio Vargas, na época ministro da Fazenda.

Na segunda semana de março, Kipling desembarcou do navio Sierra Cordoba, no porto de Santos, em companhia do advogado Alexander Mackenzie, vice-presidente da Light. O romancista e poeta era uma celebridade literária mundial e “cantava as glórias perenes” da Inglaterra, ainda a maior potência colonial do mundo. Em prosa e verso, exaltava a coragem com que os ingleses enveredavam por terras estranhas no continente asiático e, com “sacrifícios”, levavam a este mundo o estilo de vida britânico.

O canadense Alexander Mackenzie, também súdito de sua majestade (na época o rei Jorge V), acompanhou Kipling do Rio a São Paulo para mostrar, em Cubatão, o trabalho da Light na Serra do Mar – as represas e uma usina elétrica. Tudo por interesse. Afinal, uma impressão favorável no Morning Post, de Londres, onde o escritor publicava seus relatos de viagem, seria um excelente negócio para a empresa canadense, já que seu capital era também inglês e suas ações, negociadas na Bolsa de Londres.

Relatou o escritor, nascido em Bombaim, Índia, sobre a terra de contrastes: “Chegamos a Santos, porto de São Paulo, sob a claridade bronzeada de um céu da África Ocidental, subimos um tortuoso rio holandês. Montões de bananas desciam o rio em barcaças e se juntavam às cargas verdes de vapores cremes com chaminés pretas e vermelhas. A atmosfera é a do Sul da Índia. Saímos da cidade por uma estrada vermelha. O carro entrou por uma via lateral que lembrava o sopé do Himalaia, embora o clima fosse tão quente como o de Madrasta.”

Na verdade, Kipling veio, viu e não gostou do complexo hidrelétrico construído pela Light.
– Ridiculamente fácil – escreveu em seu jornal.

Mas ficou deslumbrado com a Serra do Mar e “as generosas tempestades tropicais”.

Em São Paulo, o escritor ficou hospedado no hotel Esplanada, um dos mais chiques do centro da cidade. Foi a uma recepção no São Paulo Athletic Club e visitou “na extremidade de um dos intermináveis subúrbios de São Paulo, uma fazenda de criação de cobras onde se preparam e distribuem soros contra as dentadas de cobras venenosas, que são abundantes por aqui”. Era o Instituto Butantã.

Antes de seguir para o Uruguai e Argentina, Kipling, que mostrava muito interesse pelo que hoje se chama de ecologia, ficou fascinado com dois exemplares da nossa fauna: a onça e o tatu. Contam que ganhou e levou para a Inglaterra um tatu-bola, que em sua terra exibia para os amigos.

O escritor inglês, nascido em 1865, faleceu em 1936. O saudoso jornalista e cronista Otto Lara Resende escreveu certa vez na Folha de S. Paulo que fez muita pesquisa e não descobriu o que aconteceu, em terras inglesas, com o tatu-bola, agora em risco de extinção.

Sabemos, no entanto, que hoje, infelizmente, o Brasil ainda ocupa uma bela posição na lista suja da corrupção global. Os brasileiros, ouvidos pelo observador inglês há quase um século, tinham razão.

terça-feira, 29 de julho de 2014

CRÔNICA DO RÔNI - CHEIRO DE ALECRIM

Por Roniwalter Jatobá.

Antiga fábrica de chocolates Kopenhagen.


Um amigo me guia pelo bairro do Itaim Bibi, em São Paulo. Durante o breve intervalo do horário do almoço, ele segue me mostrando estreitas vias que desembocam em ruas coalhadas de carros. Nascera ali. Diz ele na altura da Rua Bandeira Paulista, esquina com Tabapuã:
— Vamos por aqui.
Entramos na Rua Professor Tamandaré Toledo. É uma rua pequena, estreita, de mão única. Sabia de sua existência porque toda terça uma feira ocupa seu asfalto, colorindo-o de barracas, bugigangas, verduras e frutas. Tem apenas um quarteirão. De um lado, prédios residenciais; de outro, há uma comprida e antiga parede lateral, que é o que resta da antiga fábrica de chocolates Kopenhagen.
— Sente o cheiro? – indaga o amigo.
Infelizmente, não sinto nada nas narinas cansadas da poluição paulistana.
— Nada mesmo? – quer de novo saber.
— Pastel? – arrisco pensando na barraca do japonês no dia de feira.
— Não.
Ele para na calçada vazia, bem próximo à parede descascada pelo tempo, e aspira uma longa golfada de ar. Penso, claro, que o amigo acaba de entrar numa espécie de transe com as loucuras de São Paulo.
— Sinta também, companheiro! – e aspira com força e alegria. -- Sinta o cheiro de chocolate.
Depois, ele conta que, menino ainda, seu pai sempre o levava pelas imediações. A Rua Professor Tamandaré Toledo era considerada um lugar mágico. Na passagem sobre o calçamento de paralelepípedos, sentia chegar do interior da fábrica os mais diferentes aromas achocolatados. Voltava para casa, mas, durante dias, sonhava com o que imaginava acontecer dentro do galpão industrial: duendes em volta de reluzentes apetrechos numa doce alquimia.
Acho que, provavelmente, fui me influenciando pelo agradável bate-papo. No caminho de volta, descendo a Rua Joaquim Floriano, sinto um forte cheiro de café socado no pilão, e coado na hora. Sinto também outros cheiros da infância e, longe, bem longe, o odor inconfundível da cana-de-açúcar, do melado da garapa e do borbulhar da rapadura já quase sólida em tachos de cobre.
O amigo me conta de uma pesquisa realizada pelo Monell Chemical Senses Center, na Filadélfia, Estados Unidos:
— Uma equipe de norte-americanos reuniu 30 pessoas de ambos os sexos – conta ele. – Todos voluntários. Eram crianças, jovens e idosos, com idade que variavam dos três aos setenta anos. Durante dez horas, todos eles ficaram com um pedaço de gaze preso às axilas, para fornecerem amostras do cheiro de seus corpos.
— Meio nojento, não é? – dou meu palpite. – Já pensou se eles não gostassem de tomar banho, igual àqueles franceses que têm sete anões mortos debaixo de cada braço?
O amigo faz pouco caso da brincadeira. Continua:
 — Eles não podiam usar perfumes ou desodorantes nem comer alimentos de aroma forte nos quatro dias que antecediam a coleta das amostras. Banho, sim. Podiam tomar banho com sabão inodoro e xampu.
— E aí?
— Aí, os pesquisadores pediram que mais de 300 estudantes universitários respondessem a um questionário para avaliar como eles estavam de bem com a vida. Depois, cada estudante cheirou um pedaço de gaze, sem saber qual a origem do odor. Finalmente, todos responderam novamente a um questionário de avaliação de humor. De acordo com as respostas, o humor de quem tinha cheirado amostras retiradas das axilas de mulheres idosas era significativamente melhor. Quem foi exposto ao “aroma” de homens jovens, por outro lado, ficou deprimido. Conclusão: pelo cheiro você pode indicar um estado de espírito.
Comento com o amigo que há algum tempo li algo num jornal abordando o mesmo assunto. Segundo a reportagem, o cheiro tem a capacidade de atrair a pessoa certa e afastar as indesejáveis. Dizia ainda que havia uma combinação química entre os sexos, baseada em cheiros, o que ajudaria muito a explicar, por exemplo, o fenômeno do amor à primeira vista.
No caminho até o escritório continuo a sentir outros cheiros: manga madura, terra molhada de chuva, água em queda da cachoeira e, principalmente, uma primeira namorada. Chamava-se Clarice. Durante todo o expediente da tarde burocrata, lembro fortemente que, em qualquer hora do dia ou noite, ela cheirava sempre à suave fragrância do alecrim do campo.