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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Quanto mais amor a gente tem, mais medo a gente sente.

Por André J. Gomes.


Quem tem amor tem medo. Eu tenho. Todo mundo tem. É assim mesmo, sempre foi. Uns têm mais. Outros, menos. Outros tantos, quase nada. Tem ainda os que morrem de pavor mas vivem negando. De qualquer jeito, toda criatura que sente amor, toda alma que já amou alguém na vida também já sentiu medo.
Você pode discordar. Pode ser daquela gente especial, pessoa dotada do superpoder de não ter medo de nada. Eu acredito, invejo. Adoraria ser assim, mas eu não sou, não. Eu sofro de amores e pavores.
Tenho aqui um monte de amor. Está ali, ao lado daquela montanha de medo. Viu? Tenho mesmo. Adoraria, ah, como eu queria acreditar que “quem tem amor de verdade não tem o que temer”. Eu já acho que quanto mais amor a gente tem, mais a gente teme.
Cada amor que faz de nós sua casa traz consigo um medo à espreita no porão. É preciso cuidar dele também. Mandar comida por debaixo da porta, abrir a janela e deixar entrar o sol. Vez em quando até soltá-lo à noite, deixá-lo errar por aí na solidão do escuro, enquanto as crianças dormem. Ele vai. O medo vai, mas sempre volta.
Quem tem amor, tem medo. Tal qual os pais e as mães cheios de amor e de medo das bactérias e dos canalhas, das doenças e da maldade que ameaçam suas crianças, os amantes também têm medo.
É medo de ver o amor acabar como acabam a água, o leite, a comida da despensa. Medo de não ter para onde ir buscar mais. Medo da sombra que paira no olhar da pessoa amada depois do riso, medo de não ser aceito, medo das conversas pontuadas de silêncios tensos.
Também tem o medo da insegurança que vira e mexe nos acomete e, por ironia suprema, nos afasta de quem amamos pelo simples pavor de perder.
Há quem sinta medo de deixar o medo travar-lhe as pernas e endurecer-lhe o coração. Medo de se permitir paralisar. E tem aqueles que sentem medo de não perceber o óbvio: aos que amam, o medo é um aviso sublime. É o alerta divino para cuidar do amor. É a consciência de que o ser amado pode partir, de que o amor periga fraquejar ninguém sabe quando. Então é melhor amá-lo agora e amanhã e depois e depois e depois. Só assim o medo esmorece. E se esconde no escuro solitário do porão.
Amor é sentimento irmão do medo. Quem tem um, tem o outro. Pode ser pouco, pode ser muito. Mas há sempre um medo repousando no coração dos amantes. Ou para que serviria a tal coragem de quem ama se não há medo nenhum a enfrentar?
Então, que o amor nos venha cheio de medos inevitáveis. Que venha! É melhor viver com amor e sentir medo que morrer de medo e viver sem amor.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O amor é para os atrevidos. Deixe de coisa e vá buscar o seu.


Por André J. Gomes.


Então fica assim. Para o bem de todos os amantes, para a saúde de todo ser amado, quem quiser um amor verdadeiro vai ter de ir buscar. Esse negócio de esperar no sofá, a TV ligada, o olhar perdido, a vida em estado de suspensão por longos fios de baba enquanto a pessoa perfeita não vem, tudo isso fica revogado até segunda ordem. Desista que do céu não vai cair.

Quer amor? Levante e vá buscar. Não tem delivery, compra por catálogo, encomenda, disque-pizza. Não se pode pedir pela Internet. Faça por merecer!

Aos distraídos de boca aberta, os encalhados na correnteza, os pesos mortos e os zumbis sentimentaloides só chegam moscas, mariposas, lesmas, vermes e outros pequenos bichos. O amor é para quem sabe o que quer e, sobretudo, para quem sabe o que oferecer.

É para quem se atreve, se arrisca e se lança. Para os que ousam devolver o prato mal feito e o que mais não serve, para os insubordinados e os insatisfeitos, aqueles que procuram sem fim. Procuram até achar. E se acaso encontram e perdem de novo, retomam a busca sem frescura.

Amar é coisa de quem tem coragem de dizer “não”, “sim”, “talvez” quando e como achar que deve. Para quem tem medo também o amor lhes cabe. Porque só os poços de perfeição, os impecáveis e os soberbos acreditam mesmo que coragem é a ausência do medo. Nós, os imperfeitos confessos, não nos vexamos em borrar as calças de medo antes de o encarar com coragem. Porque fingir que o pavor não existe não é valentia nenhuma. É burrice.

Se fosse fácil, teria outro nome. Amor dá trabalho. Então deixemos de tanta conjectura, ora essa, e sigamos logo ao que interessa!

Assim seremos, você e eu e todo mundo, como a moça que na infância estremecia quando sua avó a pegava fazendo careta no espelho, “menina, o galo canta, um anjo diz amém e você fica assim para sempre”. Mal sabia ela o que a vida lhe arrumaria. Atrevida, andou de amores por pessoa boa, sorrindo sem mais o quê, quando um arcanjo passou voando baixo, esbarrou no galo e deu-se a profecia da avó: a moça sorrindo de amor ficou assim para sempre. Amém!

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Fuja das almas mesquinhas. Viver é um exercício de grandeza.

Por André J. Gomes.


Está faltando grandeza na gente. Falta, sim. Em todo canto, falta. Vivemos à míngua de gestos generosos, intenções grandiosas, ações maiores. Como bichos tímidos, acanhados em nossos projetos, reduzimos nossas vidas aos cargos e postos e títulos e relações oficiosas e protocolares que aos poucos nos transformam em meros colecionadores de miniaturas, acumulando milhas de mesquinharias. Nós e nossas vidinhas habitadas por pessoinhas deslumbradas, sorrindo sem graça em jantarezinhos sem afeto, cozinhando pratinhos sem gosto, a partir das receitinhas de homenzinhos dos programinhas de tevê.
Falta grandeza na gente, sim. Insistimos em ser rasos, superficiais, rasteiros, trancafiados em nossas verdades minguadas, metralhando com o dedo quem passar perto. Rareiam amigos de coração aberto e mãos postas, estendidas. Falta quem se disponha a escutar mais e mostrar menos, perguntar mais do que responder, questionar mais que pontificar. Falta gente disposta a pagar a conta por pura e simples gentileza. Ah… como são raras as visitas que surpreendem quando chegam para o churrasco em casa alheia trazendo nos braços algo além das doze cervejas combinadas. Um bolinho para a dona da casa, um presentinho para as crianças. Qualquer coisa para além de uma presença fria, mirrada, previsível, burocrática.
Pior. Nossa escassez de elevação vem sob a escolta das matilhas de gênios e suas teorias em defesa da mesquinhez. “É a crise!”; “não sobra dinheiro para isso”; “também, com o preço das coisas…”; “no mundo moderno cada um paga a sua, tá reclamando do quê?”; “É cada um por si” e outras desculpas esfarrapadas. Como se a falta de dinheiro fosse o único problema.
Será mesmo? Ou tanta evasiva não passa de nossa obtusa mania de pequeneza crescendo como verruga, aumentando como um buraco? Certo é que nos tornamos sovinas, ridículos, avarentos de emoção e entrega e disposição para nós e para os outros. Isso, minha gente, tem pouquíssimo a ver com dinheiro. Estar “no bico do urubu”, sem um tostão para nada, não faz de alguém um “mão de vaca”. Há muito mendigo por aí dividindo seu pedaço de cobertor, sua porção de comida fria e seu meio cigarro com quem necessita. Porque generosidade é coisa das almas elevadas, com ou sem fundos patrimoniais. E ela está em falta como a água que baixa nas represas e o dinheiro que some dos cofres.
Nosso tempo na vida é tão pequeno e a grandeza anda tão pouca! Quanto será que nos resta? Por quanto mais você e eu estaremos aqui? Quanta vida nos cabe ainda? Trinta anos? Quarenta? Duas horas, um minuto? Pergunto, pergunto e com franqueza me dou conta de que, no fundo, não importa. Não interessa porque no fim do caminho qualquer tempo terá sido pouco. Muito pouco tempo para perdermos com pequenezas.
Sejamos francos. A vida anda mirrada demais. Reduzida contra vontade, coitada, à pequena experiência pessoal de cada um. Obrigada por nós mesmos a dar as costas à sua vocação essencial. Porque, você sabe, diferente do que querem os mesquinhos, viver é nada senão um tremendo e escandaloso exercício de grandeza. Sejamos francos. Está faltando grandeza na gente.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Elogio das pessoas tristes




É que de quando em vez a gente fica triste, sabe? Assim, triste. Macambúzio, cabisbaixo, taciturno. Amuado sem mais o quê. Acontece. Acontece com todo mundo. Quem nunca sentiu tristeza? Há de haver neste mundo quem jamais se viu aborrecido e achou que ia ser para sempre?


Eu fico triste. Quase sempre. Depois passa. Mas eu fico. E acho uma bruta covardia que o  mundo nos cobre felicidade o tempo todo. Não dá. Tem horas em que a gente se aborrece. Daí vem alguém nos apontar o dedo, o queixo, o olhar superior e dizer "vai lavar a louça que passa".

Acontece que talvez eu não queira que passe assim, com a espuma da louça enxaguada. Porque não se faz isso com visita nenhuma. "Senta um pouquinho aí, dona tristeza. Eu vou ali ajeitar a casa e já volto papear com a senhora, tá?"

Então eu demoro um tanto lá dentro e quando volto me dou conta de que a tristeza, cansada de esperar, já foi embora. Pode até funcionar uma vez. Duas. Mas não dá certo para sempre. Uma hora ela agarra na sua perna e vai junto. Vai com você lavar a louça, vai com seus tantos nomes. Agonia, mágoa, dor, desconsolo, pesar, luto. Ficam todos ali, na gordura dos pratos sujos, na superlotação da pia, na esponja envelhecida, no copo que escorrega de suas mãos ensaboadas e se espatifa na vida. No desânimo de estar ali com você. Em você.

Aí não tem jeito. É preciso sentar com ela e olhá-la nos olhos. Ouvir suas histórias, saber seus motivos.  Aprender que todo mundo uma hora há de ser triste. E que a tristeza é nada senão uma crise. Crisálida gestando seu tempo de ser borboleta.

Repare. Toda gente feliz já sentiu tristeza em algum grau, de qualquer tamanho, cor, intensidade. Ser feliz é conhecer a comparação. Quem já se viu triste valoriza de fato os minutos de alegria que, somados ao longo da vida, talvez resultem em felicidade.

Tem gente abrindo mão de seu direito sagrado à tristeza. Cheios de medo, damos as costas, fingimos que ela não existe e perdemos a melhor parte da felicidade que nos cabe: o susto de sua chegada, a consciência de sua estada em nós. E isso é o mais triste.

Quer saber? Gente muito feliz o tempo todo me incomoda. Gênios superiores, seres bem resolvidos insistindo em jogar sua alegria na minha cara, escancarar elevação, impor sua felicidade como quem exibe um brinquedo novo. Só para farejar minha névoa e escarnecer da minha incapacidade de ser como eles.

Eu fico triste, sim. Vira e mexe, entristeço. Mas sabe o que é? Isso não faz de mim pessoa infeliz. Ah, não faz, não. 

André J. Gomes

Livros do autor pela Nova Alexandria:


sexta-feira, 27 de março de 2015

Conversa à toa sobre o começo, o meio e o fim do amor

É certo que o amor começa quase sempre pelo mesmo mecanismo perfeito, preciso, inexplicável que organiza o reencontro inesperado de dois velhos conhecidos numa cidade com seis milhões de habitantes. Do nada. Nasce com a impertinência de uma espinha no rosto da debutante, da noiva ansiosa, da madrinha solteira. No descabimento de um espirro durante o orgasmo, o amor também dá o ar de sua graça. Surge como visita inesperada, resfriado, bolada na praia, multa de trânsito, mamangava, maria-fedida, vagalume, conjuntivite, cabelo branco em adolescente, flor no asfalto, passarinho em escritório.

Sem aviso, o amor rompe a membrana tênue que separa as coisas elevadas, impossíveis, da vida corriqueira e seus acontecimentos rasteiros. Dá as caras à toa, sem mais, como alguém que vai ao mercado, o despertador que não toca, a moça que acorda com raiva, o pobre que acerta na loteria, o tombo da patinadora. Porque o amor pertence à insuspeitada categoria das coisas imprevisíveis. O amor vive no terreno do imponderável. É ali que ele respira, ali ele espera, invisível, seu tempo fortuito e incalculável de vir a ser.

Ah… o amor que adora despertar no desencontro absoluto e na coincidência escandalosa dos números inacreditáveis, na história improvável da moça que passa sete anos sozinha e, dois meses depois de engatar um namoro assim-assim, encontra um moço que viveu os mesmos sete anos casado e há dois meses — os mesmos e inacreditáveis dois meses — encerrou mais uma entre tantas tentativas de amar e ser amado. É, o amor também principia em desarranjo e escárnio divino.

Então, uma vez iniciado, o amor vive sua maior peleja: o meio. Porque difícil não é o começo e nem o fim do amor. É o meio, o que existe entre um e outro lado da história, entre a capa e a contracapa, a frente e o verso. O morno que um dia foi água pelando e no outro será gelo e indiferença. A segunda, terça, quarta e quinta feiras de todo amor.

Quando chega ao meio é que o amor se põe à prova. E só sobrevive a esse terreno esburacado e enganoso o amor dos amantes operários. O amor trabalhador. Porque é de subidas dolorosas, descidas traiçoeiras e retas sonolentas que se compõe esse meio-caminho.

Quem aprende a ficar e se manter de pé, a cair e levantar nesse território impreciso vive o amor em sua face mais primorosa. O amor parceiro de quem se sabe disposto a caminhar rumo ao inferno para estar ao lado do outro, ou na frente, ou atrás. Porque só quem sobrevive às trevas há de entrar no paraíso.

No meio do amor, é preciso perder o medo de se arrebentar inteiro no campo minado do dia a dia. Ali, os casais caminham com cuidado para não pisar em nenhuma mina, ora sabendo, ora não, que se um o fizer os dois serão atingidos na explosão, tão perto estão um do outro.

A quem supera essa fase é reservado um regalo sublime, bônus do exercício maravilhoso de amar: as lembranças. Vagas e adocicadas lembranças de longas conversas tarde da noite, ouvindo a cidade dormir lá fora. As memórias de viagens e festas, sábados de cinema, domingos de churrasco, segundas a sextas de trabalho, planos e sonhos. As reminiscências, tão sublimes quanto os instantes que as originaram. Afinal, seja qual for o tamanho do meio, um dia o amor chega ao fim.

Nesse dia, a decência dos amantes é medida pelo tamanho de seu desprendimento e de sua capacidade de engolir o pranto e dizer “adeus, seja feliz”. Porque só merece as dores e as delícias do amor aquele que um dia saiba deixar o outro ir em frente. E que aprenda a estar só novamente e a guardar a dor consigo até a dor passar, como as antigas personagens de desenho animado que engolem bananas de dinamite acesas.

No amor, que também ama a lógica, depois do começo e do meio vem o fim. Tempo em que ele se arrasta entre migalhas, restos e sobras. Como o guaraná que perde o gás, a cerveja que esquenta, a goiaba que passa do tempo e deixa a casa inteira com cheiro de quintal, é certo que o amor também acaba como começou. Do nada. Em nada, como uma estranha sombra pálida e triste, sinal agudo de que seu tempo já foi e de que é hora de seguir em frente para, tomara Deus seja logo, começar tudo de novo e de novo outra vez.


André J. Gomes

sexta-feira, 20 de março de 2015

Carta para alguém que espera

Hoje voltou o frio. Veio como havia muito não vinha. Gelou o ar, esfriou o sofá da sala, resgatou meias, casacos e dores do fundo de uma gaveta que emperra como não quisesse abrir. Chegou sabe-se lá de onde, do pacífico, dos polos congelados, do sul do país. Não importa. Aqui faz frio.

Em seu sopro fresco e úmido, esse frio há de aquecer os ímpetos de alguém. Há de animar as almas boas que se reúnem no calor de suas mesas, em volta de suas histórias contadas na fumaça perfumada das panelas bafejando decência. A mim, o frio me reencontra desprevenido e ridículo. Como visita inesperada, entra pelas frestas das horas suspensas e me congela a alma. Vem com o medo da solidão e da dor, com a frieza do dia a dia que me atropela em seus afazeres obrigatórios, com a incerteza de meus caminhos e a angústia que os corta na chuva fina.
Mas o frio também traz uma alegria mansa e um sentimento tímido, frágil, de que alguém em algum lugar deste mundo treme as mesmas dúvidas que eu. Nos quatro cômodos da casa fechada, o vento penetra impertinente e me sopra sons e cheiros de algum lugar onde alguém, como eu, também espera.
Abro a janela, a brisa cruel me bate na cara e me enche de esperança: alguém por aí me aguarda no frio da chuva, me imagina nas horas vazias. E essa presença é tão certa que me dá vontade de lhe escrever uma carta, um bilhete, um alô ou qualquer sinal que dê a esse alguém a impressão de que eu também espero. Um pedido para que não desista, porque mais dia menos dia nos encontramos. Enquanto isso, o vento frio nos mantém juntos.
Em minha carta, conto das tantas vezes em que ganhei o mundo buscando quem me espera. Refaço rotas, retomo caminhos, relembro instantes exatos em que me perguntei “então é você?” Em cada encontro, há sempre uma certeza calorosa. É você. Depois nos separamos sem mais, como que amarrados a dois caminhões que se cruzam e depois viajam em direções opostas. O frio volta a ventar suas questões. E não era mais você.
Escrevo como louco o que me nasce na cabeça, cresce no coração e parte pelos dedos. E envio as cartas pelo vento, dizendo baixinho cada palavra na fresta da janela. Quem sabe alguém ouça. Quem sabe seja você. E você vai notar que ali, escondido entre vírgulas e adjetivos, há um sujeito que sofre porque tem medo e tem amor. Alguém que se viciou em saudade e solidão. Que chora olhando o céu e assiste quieto à dança de suas lembranças quando o vento canta, anunciando o outono que chega e derruba as folhas, e desperta uma vontade dolorida de sabe-se lá o quê.
Quem sabe alguém leia. Quem sabe seja você. Quem sabe também me mande uma cartinha e me salve o dia. Afinal, é para isso mesmo que servem os seres humanos, não é? Para se salvarem uns aos outros. De si mesmos. Do frio que está fazendo hoje. Das paredes geladas de uma casa nos primeiros dias do outono.


André J. Gomes

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A doce vida de Júlia e Raimundo

Por André J. Gomes.


Encontrei há pouquinho minha avó, Dona Irene, mãe de meu pai, os braços muito abertos e os cabelos muito brancos, e ela me deu um presente raro: uma fotografia dos avós maternos dela. Meus trisavós! Ele se chamava Raimundo de Campos Rosa e ela, Júlia de Campos Rosa. Juntos, tinham um pequeno negócio doméstico. Eram “doceiros”.

Minha avó me contou, separando lembranças em sua memória valiosa de noventa e dois anos, que Dona Júlia cozinhava e Seu Raimundo vendia os doces na Estação Ferroviária de Araraquara a quem chegava e a quem partia. Eram doces caseiros de verdade. Na primeira metade do século passado, todo dia antes do sol apontar e da primeira locomotiva apitar furiosa, meu trisavô enchia um pequeno baú e o levava nas costas, de bicicleta, para a estação de trem.

O cardápio decerto não tinha nada de sofisticado. Deviam ser quindins tranquilos, simpáticas cocadas, humildes doces de abóbora, suspiros discretos, bananadas e outras coisas simples de açúcar e sonho que hoje quase não existem mais. Seu Raimundo e Dona Júlia fizeram a vida assim, fazendo doce. Também fizeram filhos e filhas. Uma delas, Benedita Rosa, deu à luz minha avó, Irene, que pariu meu pai e que depois ajudou a me trazer a este mundo grande e quase sempre doce, como o ganha-pão da família de Seu Raimundo e Dona Júlia.

Uma tarde, Seu Raimundo passou mal enquanto esperava o último trem. Um grupo de solidários desconhecidos o levou de volta para casa, os doces intocados, e pouco tempo depois ele morreu ali, sob o amor e os cuidados de Dona Julia, dos filhos e das filhas e dos netos.

Eu não conheci Seu Raimundo e Dona Júlia. Mas passei a infância inteira ao lado de sua filha Benedita Rosa, minha bisavó. Foi a minha primeira amiga na vida. Hoje é uma lembrança boa que me visita sem mais o quê.

O certo é que a mim faz bem imaginar meus trisavós na lida, Dona Júlia no calor do fogão de lenha, Seu Raimundo à espera dos viajantes, e as tantas vezes em que juntos fizeram mais doce o dia de toda gente, amaciando a dureza e o amargor da despedida, amansando a fome de afeto da chegada. Salpicando o mundo de amor e açúcar.

Não tenho deles nada além de uma fotografia que ganhei de minha avó, uma história fantasiada nas noites sem sono e esse gosto pelos doces que me socorrem quando a solidão amarga.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Da gratidão, esse negócio caro que faz da vida um barato

Por André J. Gomes.

Olha, eu não sei se você acredita nessas coisas. Eu acredito. Comigo dá certo sempre e com você não há de ser diferente. É que eu rezo, sabe? Rezo de manhãzinha. Depois, várias vezes até a noite eu agradeço. Agradeço mesmo. Assim, no duro! Agradeço a Deus! Aperto os olhos e penso comigo: "Obrigado! Muito obrigado!”
Levo a maior fé nas coisas divinas, nas altas esferas, nas razões do imponderável. Tanto que vou rezar por você. Não precisa se preocupar, não vai custar nada. Descanse. Essa história vai passar e depois você e eu e a turma vamos rir disso tudo. Eu acredito.

Dia desses encontrei pessoa conhecida, amiga antiga, moça que conhece você também. Ali, em nossa conversa de calçada, coisa breve, repassamos a vida inteira. "Lembra do fulano? Que fim deu? E o beltrano, ah, era tão engraçado! A sicrana eu vejo de vez em quando. Diz que anda feliz!" Falamos tanto e o mundo passando. Lembramos os velhos, trouxemos os novos. E falamos de você. Falamos tanto de você!


Olha, eu não tenho muito, sabe? Nunca tive, não. Assim, na ponta do lápis, somo duas calças compridas, meia dúzia de camisetas, uma camisa de botão, essa jaqueta surrada como a sexta-feira, pequenas porções de comida, dois tostões aqui e ali.
É que eu também acredito que assim, levando tudo aos pouquinhos, fica mais fácil seguir em frente. Sobra mais espaço para o que importa mesmo. E o que importa mesmo começa e termina no afeto da nossa gente.

Eu sou desse povo que agradece. Nessa vida o que vem é lucro. Estamos vivos, ué! Gratidão faz bem! Quando a gente agradece, o céu escancara uma porta enorme e deságua sobre nós um mundo de sorte. Agradecer é o jeito mais simples de renovar o nosso visto de permanência aqui embaixo. Quer ficar? Tem de merecer. E você merece, merece muito. Não repare, não. Mas eu dei de pensar nos amigos com gratidão.
Você me desculpe se pareço assim meio aborrecido, mas é que hoje eu acordei com uma vontade honesta de pedir por você. Estamos vivos num mesmo tempo e quase no mesmo espaço. Tão perto um do outro apesar das distâncias. E isso não é pouco. Não é pouco, não.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Conversa de um encontro que repousa nos sonhos.

Por André J. Gomes. 


Hoje eu fiz tudo errado. Fiz, sim. E já estou pagando por isso. Ouviu esse violino de novo? Esse violino que não para nunca! Ouviu? É um castigo. Fiz tudo errado, agora pago. É assim sempre. Vai, volta. Começa grave, desliza aqui dentro, no estômago, como um sentimento de pesar, e vai subindo, me escalando agudo pelas vísceras até explodir lá em cima, num grito pontiagudo de euforia, um choque que percorre um bilhão de neurônios no espaço de um estalo.

Ah, esse violino.

Toca sem parada como reprimenda, uma tortura cometida por um chinês sádico, uma valsa de inspiração sadomasoquista.

Um violino tocando sem fim, seu som me rasgando cirúrgico aqui. No peito.

Vem, então, violino. Vai, toca. Vai em frente. Rasga. Alegro! Isso. Tem mesmo umas coisas guardadas aqui e elas precisam sair. Aí... vem! Você tocou e eu não interrompi. Agora é hora de me ouvir.

Hoje eu fiz tudo errado. Enchi o copo e o corpo do que não devia. Envenenei o espírito com sentimentos mesquinhos. Hoje fui péssimo comigo mesmo e pior com os outros. Comi tudo o que não é saudável. Senti tudo o que não faz bem. Deixei entrar o que não presta, o que passou da validade. Minha cabeça dói, meu corpo reclama. A cabeça e o corpo resolveram se unir contra mim. Nunca se deram muito bem, não. É preciso reconhecer. Mas agora estão aqui, juntos, jogando na minha cara, latejando nos meus olhos, gritando em coro: toma que a culpa é sua!

A culpa é minha. E sabe o que foi que eu fiz? Sabe?

Hoje eu fiz tudo errado.

Agora eu ouço esse violino, ah... esse violino que não para nunca!

Para Luciana Carnieli e Ricardo Castro, com gratidão e saudade.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Viagem às terras de Tardelinda

Por André J. Gomes.

Em algum canto deste mundo ou do outro, perdido entre meia dúzia de continentes, repousa um país pequeno chamado Tardelinda. Destino de fronteiras livres e portas escancaradas a quem vier de onde seja, seu nome não está nos catálogos das agências de viagens, seus pontos turísticos não ultrapassam dois ou três, mas Tardelinda é dos lugares mais visitados por quem costuma fazer as malas e seguir.

O acesso a suas terras é fácil. Não há espera nos aeroportos nem trânsito nas estradas ou alta no preço das passagens. E a despeito de suas dimensões diminutas, seus estados pequenos e cidades cortadas por meia dúzia de ruas estreitas, esse país exótico de clima agradável recebe a todos com absoluto conforto e grandiosa alegria.

Em Tardelinda, os hotéis e as pousadas estão sempre cheios de hóspedes e nunca faltam quartos a quem chega buscando abrigo, uma cama macia de lençóis limpos, um chuveiro de água boa e uma toalha felpuda, macia e de perfume morno à espera.

A comida de Tardelinda é farta, a bebida é fresca e o descanso é certo. Seus habitantes usam chinelos de dedo e escutam velhas canções em vitrolas alaranjadas, dormem de portas destrancadas e janelas abertas para mirar de suas camas a lua e as estrelas, enquanto o vento passa e faz das suas nas casas, esvoaçando as cortinas, bagunçando as toalhas, eriçando os pelos dos cachorros que dormem sob a mesa da cozinha.

Lá, o sol se põe várias vezes ao dia. Basta que alguma alma precisada deseje vê-lo se pôr. “De manhã”, “de tarde” e “à noite” não pertencem à cronologia tradicional. São estados de espírito em cada um. Fulano anda amanhecido, Sicrano entardeceu, Beltrano está noturno. E as estações do ano começam e acabam e recomeçam em questão de horas. Em Tardelinda é assim.

Como qualquer outro país, Tardelinda tem um idioma oficial. Sua língua são as lembranças de sua gente. Os moradores do lugar se comunicam por meio de suas recordações de infância, ressonâncias de vidas passadas, pensamentos de ontem à tarde. Trocam memórias e recordam histórias em conversa fácil e franca, sem hora de parar.

Quem viaja a Tardelinda uma primeira vez costuma voltar. Há os que o fazem de hora em hora e os que não aguentam esperar tanto. Não por esbanjamento, falta do que fazer ou pela absoluta facilidade de embarcar até lá, mas pela urgência inadiável de fechar os olhos e acordar em terra amiga, cercado de afetos, com o sol da tardinha lhe queimando manso a pele, aquecendo-lhe o coração, evaporando suas poças de tristezas paradas.

Esse país pequeno espera por nós em algum canto do mundo, entre a saudade do que já fomos, a ternura que resta pelo que somos e a promessa do que ainda viremos a ser. Respire, solte o cinto, desfaça as malas. Você chegou a Tardelinda. Bem-vindo. Bem-vinda.