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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Quanto mais amor a gente tem, mais medo a gente sente.

Por André J. Gomes.


Quem tem amor tem medo. Eu tenho. Todo mundo tem. É assim mesmo, sempre foi. Uns têm mais. Outros, menos. Outros tantos, quase nada. Tem ainda os que morrem de pavor mas vivem negando. De qualquer jeito, toda criatura que sente amor, toda alma que já amou alguém na vida também já sentiu medo.
Você pode discordar. Pode ser daquela gente especial, pessoa dotada do superpoder de não ter medo de nada. Eu acredito, invejo. Adoraria ser assim, mas eu não sou, não. Eu sofro de amores e pavores.
Tenho aqui um monte de amor. Está ali, ao lado daquela montanha de medo. Viu? Tenho mesmo. Adoraria, ah, como eu queria acreditar que “quem tem amor de verdade não tem o que temer”. Eu já acho que quanto mais amor a gente tem, mais a gente teme.
Cada amor que faz de nós sua casa traz consigo um medo à espreita no porão. É preciso cuidar dele também. Mandar comida por debaixo da porta, abrir a janela e deixar entrar o sol. Vez em quando até soltá-lo à noite, deixá-lo errar por aí na solidão do escuro, enquanto as crianças dormem. Ele vai. O medo vai, mas sempre volta.
Quem tem amor, tem medo. Tal qual os pais e as mães cheios de amor e de medo das bactérias e dos canalhas, das doenças e da maldade que ameaçam suas crianças, os amantes também têm medo.
É medo de ver o amor acabar como acabam a água, o leite, a comida da despensa. Medo de não ter para onde ir buscar mais. Medo da sombra que paira no olhar da pessoa amada depois do riso, medo de não ser aceito, medo das conversas pontuadas de silêncios tensos.
Também tem o medo da insegurança que vira e mexe nos acomete e, por ironia suprema, nos afasta de quem amamos pelo simples pavor de perder.
Há quem sinta medo de deixar o medo travar-lhe as pernas e endurecer-lhe o coração. Medo de se permitir paralisar. E tem aqueles que sentem medo de não perceber o óbvio: aos que amam, o medo é um aviso sublime. É o alerta divino para cuidar do amor. É a consciência de que o ser amado pode partir, de que o amor periga fraquejar ninguém sabe quando. Então é melhor amá-lo agora e amanhã e depois e depois e depois. Só assim o medo esmorece. E se esconde no escuro solitário do porão.
Amor é sentimento irmão do medo. Quem tem um, tem o outro. Pode ser pouco, pode ser muito. Mas há sempre um medo repousando no coração dos amantes. Ou para que serviria a tal coragem de quem ama se não há medo nenhum a enfrentar?
Então, que o amor nos venha cheio de medos inevitáveis. Que venha! É melhor viver com amor e sentir medo que morrer de medo e viver sem amor.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Elogio das pessoas tristes




É que de quando em vez a gente fica triste, sabe? Assim, triste. Macambúzio, cabisbaixo, taciturno. Amuado sem mais o quê. Acontece. Acontece com todo mundo. Quem nunca sentiu tristeza? Há de haver neste mundo quem jamais se viu aborrecido e achou que ia ser para sempre?


Eu fico triste. Quase sempre. Depois passa. Mas eu fico. E acho uma bruta covardia que o  mundo nos cobre felicidade o tempo todo. Não dá. Tem horas em que a gente se aborrece. Daí vem alguém nos apontar o dedo, o queixo, o olhar superior e dizer "vai lavar a louça que passa".

Acontece que talvez eu não queira que passe assim, com a espuma da louça enxaguada. Porque não se faz isso com visita nenhuma. "Senta um pouquinho aí, dona tristeza. Eu vou ali ajeitar a casa e já volto papear com a senhora, tá?"

Então eu demoro um tanto lá dentro e quando volto me dou conta de que a tristeza, cansada de esperar, já foi embora. Pode até funcionar uma vez. Duas. Mas não dá certo para sempre. Uma hora ela agarra na sua perna e vai junto. Vai com você lavar a louça, vai com seus tantos nomes. Agonia, mágoa, dor, desconsolo, pesar, luto. Ficam todos ali, na gordura dos pratos sujos, na superlotação da pia, na esponja envelhecida, no copo que escorrega de suas mãos ensaboadas e se espatifa na vida. No desânimo de estar ali com você. Em você.

Aí não tem jeito. É preciso sentar com ela e olhá-la nos olhos. Ouvir suas histórias, saber seus motivos.  Aprender que todo mundo uma hora há de ser triste. E que a tristeza é nada senão uma crise. Crisálida gestando seu tempo de ser borboleta.

Repare. Toda gente feliz já sentiu tristeza em algum grau, de qualquer tamanho, cor, intensidade. Ser feliz é conhecer a comparação. Quem já se viu triste valoriza de fato os minutos de alegria que, somados ao longo da vida, talvez resultem em felicidade.

Tem gente abrindo mão de seu direito sagrado à tristeza. Cheios de medo, damos as costas, fingimos que ela não existe e perdemos a melhor parte da felicidade que nos cabe: o susto de sua chegada, a consciência de sua estada em nós. E isso é o mais triste.

Quer saber? Gente muito feliz o tempo todo me incomoda. Gênios superiores, seres bem resolvidos insistindo em jogar sua alegria na minha cara, escancarar elevação, impor sua felicidade como quem exibe um brinquedo novo. Só para farejar minha névoa e escarnecer da minha incapacidade de ser como eles.

Eu fico triste, sim. Vira e mexe, entristeço. Mas sabe o que é? Isso não faz de mim pessoa infeliz. Ah, não faz, não. 

André J. Gomes

Livros do autor pela Nova Alexandria: