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terça-feira, 21 de outubro de 2014

SP: ZONA LESTE - A arte em dias tempestuosos

Por João Caetano do Nascimento. 

Vivemos dias tempestuosos em que a disputa política toma grande parte de nosso tempo, de nossas reflexões e ações. Pelo menos de velhos militantes de esquerda como eu.  O meu coração, corpo e mente reservam energias para ajudar a garantir que avanços e conquistas sociais, obtidas a  duras penas, não retrocedam.

Seria, portanto, uma traição às minhas convicções tecer considerações neste espaço sem  ressaltar que os destinos do Brasil e de nossa gente  estão em jogo no dia 26 de outubro, quando teremos mais uma batalha dessa longa luta política do nosso povo pelos seus direitos básicos de cidadania.

Acompanho essa luta com apreensão, mas também com  certo otimismo. Sinto o pulsar de um novo Brasil há alguns anos. Assim como sinto um, ouso dizer, renascimento cultural. Vejo surgir em todos os cantos as mais diversas manifestações artísticas  com um vigor impressionante. São poetas, romancistas, contistas, músicos, cantores, artistas plásticos, gente fazendo teatro e até cinema, numa diversidade encantadora e até assustadora pela força viva que traz em si.

Sem querer ser profético, mas baseado na já não tão curta vida, creio que algo novo e duradouro há de resultar desse turbilhão que arrasta a gente.

Como nada surge do nada, esse renascimento cultural está diretamente ligado às mudanças que o Brasil viveu nos últimos anos, da conquista da liberdade e da busca de um rumo e na batalha pela reparação das injustiças sociais e da redução de nossas desigualdades.

Todas essas coisas fazem aflorar contradições, preconceitos e muitas vezes incompreensões. A arte e os artistas não ficam imunes, embarcam  nessa onda, discutem com entusiasmo, tomam posições ou até escondem suas posições, numa visão equivocada de arte acima das contingências cotidianas, como se o artista não fosse ele também um cidadão.

Há, no entanto, um clima de maior liberdade nos debates e confrontos de ideias, muito diferente dos tempos sombrios de meus anos verdes, quando fazíamos arte como instrumento de resistência contra a ditadura militar. Hoje, nos definimos e tomamos lado e defendemos nossas convicções às claras.

De minha parte, acredito que as mudanças sociais e econômicas na vida brasileira influenciaram diretamente o surgimento de tanta gente fazendo arte e cultura, até nos subúrbios mais pobres, onde as pessoas começaram a se descobrir como cidadãs, com deveres, mas também com direitos e querem e lutam por seu lugar ao sol e de virar este mundo, como diria a velha música, em festa, trabalho e pão.

Essa é uma conquista que não pode e não vai retroceder, assim como o Brasil irá prosseguir no seu  caminho rumo a uma sociedade mais justa, livre e democrática.  Meu sonho  de jovem e o sonho de tanta gente há de se tornar realidade.

É isso aí.


João Caetano do Nascimento é poeta, foi participante do Movimento Popular de Arte no final da década de 70 e começo dos anos 80 do século passado. Trabalha como jornalista.



quinta-feira, 25 de setembro de 2014

SP: ZONA LESTE - Noites Dionisíacas

Por Manoel Gonçalves (Manogon).

 

Era uma noite paulistana quase comum. Uma sexta qualquer, uma noite qualquer, depois de um expediente comum a todos os outros dias. Afinal, tudo seguia na mesma. A cidade virou um caos com o quase inerte trânsito costumeiro. Os ônibus circulando abarrotados, o que diminuía as chances de uma viagem tranquila, mesmo com a facilidade da faixa exclusiva. Metrô e trem lotados. Euforia para se preparar para as baladas. Sampa na correria de sempre. Mas, naquela sexta, 19 de setembro, porém, as coisas eram um pouco diferentes. No meio do caminho havia uma casa, uma Casa Amarela.


A ordem do dia era um compromisso com a arte, uma reverência a Dionísio e à magia do fazer teatral. Uma noite dedicada a mais uma vertente artística dentro da Casa Amarela. Vertente não inédita por lá, é bom que se diga, pois a Casa Amarela iniciou seus trabalhos por meio de intervenções cênicas, de pesquisa, oficina e encenação com o Grupo Teatral Alucinógeno Dramático, o qual segue outros promissores caminhos agora, mas é lembrado ainda como um dos expoentes culturais na seara artística da região e com prestígio pelos frequentadores da Casa Amarela.

O evento, batizado temporariamente (ou não, como diria Caetano) como “Sextas Cênicas”, vinha sendo costurado há algum tempo, em conversas de boteco entre Akira Yamasaki, Sueli Kimura, Escobar Franelas, Luka Magalhães e eu, Manogon. Entre bons goles de café (diria garrafas), biscoitos e viagens mil, decidimos colocar à prova a proposta. Como pontapé inicial, em busca de um formato adequado à Casa e viável aos visitantes/frequentadores, diretamente do baú literário de Luka Magalhães, foi marcada a leitura cênica do monólogo “Ascensão, Apogeu e Queda de um Homem Qualquer”.

Expectativa e ansiedade, comuns a toda estreia. O público compareceu, embora maior na qualidade que na quantidade, devido a uma série de outros eventos e as dificuldades rotineiras da cidade e adequação de agendas. Papo costumeiro entre os presentes, com direito a café feito pela Sueli, torta de Luka e biscoitos providenciados pelo Escobar. Tudo pronto! Mas antes da leitura da peça, que era o prato principal, um aperitivo: uma performance feita por mim para a canção de Antônio Marcos, Sonho de um Palhaço. A esquete montada foi uma mistura, com pitadas de musical, interpretação e pantomimas, explorando o drama relatado na música. Sete minutos que ajudaram a preparar o clima para a entrada marcante de convidado especial.

Luka Magalhães subiu ao tablado e com mestria começou a expor a beleza de seu texto. Nas palavras de Escobar, um “texto denso, irônico, de sublimação”. A interpretação empregada por Luka para a leitura do monólogo ajudou o público a entrar na história desse homem qualquer. Dividido em três tempos bem definidos, as agruras e satisfações da personagem em sua obsessão de Querer, Ter e Perder, uma busca constante de superação das angústias e sede por vingança por quem o fez sofrer. Mas seria isso mesmo? Seria essa a sua vontade? Um personagem completo e complexo, o que nos fez imaginar e desejar uma montagem digna e com tudo a que tem direito, para um tempo e espaço não distantes.



Após as apresentações aconteceu, com muita descontração, um bate-papo sobre o entendimento do público, as percepções sobre o evento, o desejo que essa iniciativa se repita, ao menos uma vez por mês, numa sexta pré-determinada e também sobre projetos que envolvam as artes cênicas.

O que se pode colher do público é que eventos como esse serão bem-vindos, que a Casa Amarela cumpre com seu papel de fomentar a efervescência artística, que outros textos podem ser lidos, outras cenas devem ser exploradas e outros artistas têm de ser convidados a mostrar sua arte no tablado ou cômodos da Casa Amarela.

Enfim, ficou (e oxalá sempre fique) um gostinho de quero mais...

Aguardem e acompanhem!

Enquanto isso, dia 27 de setembro, sábado, tem mais um BláBláBlá, com outras abordagens sobre o tema Literatura Marginal.

E dia 11 de outubro, domingo, mais uma edição do Sarau da Casa Amarela.

Compareçam para prestigiar e levem sua arte.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

SP: ZONA LESTE - Pequenas impressões sobre Mosaico de Rancores de Márcia Barbieri

Por Eder Lima.

Entrei em contato com a obra literária de Márcia Barbieri por ocasião do lançamento de seu mais recente trabalho, o inquietante "Mosaico de Rancores" no 21º Sarau da Casa Amarela.  Após passar o olhar pelas primeiras páginas percebi estar diante de um grande texto de arte. Não falo com a presunção de um crítico literário ou de arte, pois não tenho essa qualificação, mas como artista, e enquanto tal, pelo tanto que me foi acrescentado, ao me deparar  frente a um trabalho  que reafirmou em mim uma ideia, qual seja: a possibilidade  da obra de arte colocar-se como acontecimento da verdade. A obra enquanto uma experiência da verdade.

Mas que verdade seria esta?  Sem dúvida alguma, uma verdade jamais absoluta. Uma verdade não metafísica. Uma verdade que não pode se colocar além do nosso encontro ou desencontro com a vida, com o outro e com nós mesmos.

Dessa forma, uma verdade que se desvela nas relações entre obra, arte, artista e público. Portanto, a pequena resenha que faço trata desse encontro entre eu enquanto público, e obra enquanto objeto que se apresenta a mim enquanto algo que necessita ser desvendado. É disso que se trata essa pequena resenha em que teço algumas impressões acerca dessa maravilhosa e dolorida obra.

Poema. O livro de Mosaico de Rancores é um grande poema. Sua escrita conforma uma estética que foge do habitual compondo uma forma-conteúdo que a primeira vista nos parece uníssona em seu conjunto, mas aos poucos se declara polifônica. Um mosaico composto de muitas vozes, que nos faz trafegar por caminhos inusitados, adornados de pausas e silêncios cortantes habitados por uma miríade de personas e máscaras de nos mesmos. Máscaras estas que só podem ser vistas quando encaradas defronte a um espelho quebrado.

De maneira geral, a arte musiva tem como objetivo preencher algum tipo de plano bi-dimensional, tri-dimensional ou arquitetônico. É o que Márcia Barbieri cria milimetricamente ao resgatar os reais sentidos de algumas palavras banalizadas por relações rasteiras. E aos poucos um grande mosaico vai se edificando frente aos nossos olhos. Pedaços colados de sentimentos, ressentimentos, dores de amores, rancores, grafados na pele efêmera da vida.

A cada página, um compêndio de imagens nos arrebatam e nos conduzem à camadas mais profundas do pensamento. Tendo a vida como pano de fundo, atravessamos as areias da racionalidade ate mergulhamos nas profundezas do oceano do ser. Em alguns momentos nos vemos presos ao lodaçal do inconsciente, então percebemos o caldeirão original onde todas as palavras e ingredientes sensíveis, universais e cotidianos se misturaram na composição de um texto onde nem mesmo o silêncio fora desprezado.

Sim, parece haver mais mistérios entre o céu e a terra-mundo advindos do nada, esse lugar de experiências singulares onde o novo é trazido à existência. Deve ter doído muito na alma o trajeto empreendido por Márcia Barbieri nessa caminhada-mergulho para dentro e para fora de si. Defronte a esse mosaico de rancores, cuidadosamente construído nos apercebemos o quão cortantes podem ser as palavras quando carregadas de verdade existencial e poesia.

A nós, leitores, cabe nos lançarmos às veias abertas, às entranhas rubras de sangue e clareiras ressecadas da vida. Rumo aos lodaçais fecundos de onde brotam as sementes-palavras que trazem em si a cada som, ruído, cheiro, novas possibilidades de auto-enfrentamento que se desvelarão, se descortinarão e bucolicamente nos conduzirão em direção ao labirinto.

Eder Lima: Músico (compositor, violonista e saxofonista) e Artista Plástico. Arte educador formado em Arte pela Unimesp e Pós-graduado em Estética e filosofia da Arte pela UNESP. Atualmente colabora com A Casa Amarela Espaço Cultural de São Miguel Paulista.

terça-feira, 29 de julho de 2014

SP: ZONA LESTE - Literatura Marginal no Blá-blá-blá da Casa Amarela - Espaço Cultural

Por Luka Magalhães

Como em todo mês, a Casa Amarela promoveu mais um BLÁ-BLÁ-BLÁ, a roda de discussão sobre a arte realizada nas periferias e que tem gerado grandes debates artísticos e filosóficos sobre o que e como a arte periférica pode ser produzida fora dos grandes centros. No último sábado (26) tivemos um encontro histórico, com convidados muito emblemáticos para discutir sobre um tema controverso: a Literatura Marginal.

De um lado, Alessandro Buzo, defensor veemente da literatura marginal como toda a produção literária produzida nas periferias, que discutem a realidade social das classes baixas e que estão à margem dos caminhos das grandes editoras. Do outro lado, Ademiro Alves, ou simplesmente Sacolinha, acredita na literatura marginal como um movimento literário que existe e do qual já participou, mas que acabou por ser tornar um rótulo do qual alguns escritores se apropriaram, sem mesmo participar efetivamente de tal corrente literária. Por entender que essa rotulação se tornou maior do que o movimento, Sacolinha diz se excluir dessa vertente, principalmente por ver a população das periferias serem constantemente rotuladas.


Ao centro do debate, Érica Peçanha, estudiosa doutorada no tema, traçou a cronologia do que hoje conhecemos como Literatura Marginal, inicialmente conceituada nos anos 70 do século passado e que encontrou em Ferréz (nome artístico de Reginaldo Ferreira da Silva), o seu grande expoente e um dos maiores colaboradores da corrente, junto com Buzo e Sacolinha. Peçanha ainda citou um aumento das teses acadêmicas sobre o tema, o que a torna cada vez mais interessante aos olhos dos pesquisadores literários.


Debater se a Literatura Marginal é uma corrente literária, um movimento artístico das periferias ou apenas um rótulo, não é um tema para um único encontro, mas sim para várias rodas de conversas sobre o assunto. Nesse ponto o consenso geral é de que outros espaços de discussão deveriam existir para que temas como esse possam ser compreendidos cada vez mais.

“enquanto isso...”

Como sabemos, Alessandro Buzo tem uma coluna semanal no SPTV (jornal local da Grande São Paulo) e aproveitando o convite para participar do BLÁ-BLÁ-BLÁ, pôs em pauta a apresentação dos trabalhos realizados pela Casa Amarela, focando na importância da produção cultural nas periferias, que é realizada sem ou com pouquíssima verba pública. Enquanto o debate caminhava, as entrevistas rolavam com os convidados, organizadores e colaboradores da Casa Amarela, entre os entrevistados tivemos Escobar Franelas, idealizador do BLÁ-BLÁ-BLÁ; Sueli Kimura, representando os organizadores da Casa; Big Charlie, autor do livro “Cavalos no Peito”, primeira publicação do selo editorial da Casa; Euflávio (Madeirart) Góis, artista plástico que está exposição; Eder Lima e Lígia Regina, colaboradores costumeiros; Sacolinha e Érica Peçanha como convidados.

terça-feira, 22 de julho de 2014

SP: ZONA LESTE - A saga do dedo mole

Por Akira Yamasaki.












dedo mole 9

era a última cacheta da tarde da sexta-feira santa
no bar do osvaldinho e já que era a saidera mesmo
subiram a mão para cem reais por cabeça, que deu
mil e cem a casada.

era também a última chance para quem estava no
prejú virar a sorte e salvar algum para quem sabe
desatolar o dedo do cú.

era justamente quando o silencio era maior e mais
inquieto e os sapos pescoçavam nervosos pra lá e
pra cá que três pivetes armados chegaram do nada
da tarde triste da sexta-feira santa e promoveram
a maior limpa no buteco.

era então que levaram celulares e carteiras, a
grana da casada todinha e até a correntinha de
ouro com nossa senhora aparecida do osvaldinho.

era nem quinze minutos depois quando o cagaço
ainda nem tinha passado e o caixa d’água dizia
apavorado que não perdoaram nem mesmo a nossa
senhora do osvaldinho que agora ia virar pedra de
crack nas mãos dos nóia, que uma van escolar com
os vidros fumê fechados encostou na frente do
cachetão do osvaldinho e dedo mole desceu com os
moleques da indaga recente e com uma sacola do
tipo de feira nas mãos cujo conteúdo ele derramou
em cima da mesa de sinuca – todo o produto da
limpa feita.

era assim portanto que dedo mole falou assim: foi
mal rapaziada, tô devolvendo o que os aprendiz
aqui levaram de vocês, confiram ou confiem mas
não precisa passar recibo, minha palavra é uma
e é de responsa, já cansei de falar pra eles que
não é pra atrair atenção pra minha funilaria.

era por fim que dedo mole devolveu a santinha do
osvaldo, pediu uma maria mole que bebeu de um
gole só e ainda falou assim quando estava saindo:
japa, meu bom, já deixei sua carteira e seu celular
na sua casa com a sua senhora, se faltar alguma
coisa passa lá no martelinho de ouro.

era assim mesmo que então as minhas tripas se
contorceram de aflição na boca da noite muda e
sem salvação da sexta-feira santa: caráio, dedo
mole sabe onde moro.

18/04/2014.

dedo mole 12

oficina de funilaria
e pintura dedo mole
- martelinho de ouro
certificado iso 9000

o lema aqui é assim:
não vi nem ouvi
e em boca fechada
não entra mosquito

05/05/2014.

dedo mole 14

é sempre um vão
entre dois pontos
entre duas bordas
sempre uma ponte

é entre dois vales
sempre uma vala
sempre um corpo
entre duas velas

é entre duas cruzes
sempre uma bala
entre duas margens
sempre uma favela

é entre dois trechos
sempre um monte
e entre duas bocas
um negro horizonte

16/05/2014.

dedo mole 17

só soube no velório na segunda–feira à noite, dito à boca pequena
por amigos e parentes que caixa d’água morreu em circunstâncias
obscuras, tipo acidente de percurso numa treta mal explicada com
zoinho e queima rosca, que se entendi direito tem algo a ver com
os juros de um empréstimo para saldar dívida de jogo;

atravessei a noite inteira velando e bebendo o caixa em companhia
de osvaldinho, prezado, claudionor e advogado, de amaral, nininha,
bola sete e beto mensageiro, além de china e sonia quarenta e dois,
antigos e constantes parceiros de sete e meio, caxeta e mata-mata,
de vida, vinte e um e sinuca, de tranca e porrinha;

então lá pelas tantas quando as conversas tinham cessado e o povo
cochilava pelos cantos, encostou uma kombi com duas coroas de
flores, uma em nome do lava rápido lava a jato e outra assinada
assim: último adeus ao caixa d’água dos amigos da martelinho de
ouro – oficina de funilaria, pintura e polimento;

então quando o féretro saia no meio da manhã fria e cinzenta para
o cemitério da saudade, com três micro-ônibus da cooperativa dm
de transportes coletivos fechando o cortejo, eu soube pelo prezado
que também não quis assistir o enterro, que os bate-paus do dedo
mole já estavam com a faca nos dentes e sangue nos olhos na cola
de zoinho e queima-rosca, cujos dias estavam contados desde que
queimaram o seu filme, já que sua ordem tinha sido curta, clara e
grossa: somente dar um susto no caixa d’água.

29/05/2014.

dedo mole 18

prezado é o prezado
porque trata a todos
de forma indistinta
de querido prezado

não importa a raça
classe social ou sexo
religião ou ideologia
sempre se apresenta
elegante e educado:
prezado a seu dispor

chegou no oliveiras
há muitas décadas
num pau de arara
junto com o primeiro
loteamento ilegal

desde então ganha
seu sustento como
corretor de imóveis
sua pobreza é prova
da sua honestidade

presidente honorário
da sociedade amigos
do jardim antenado
prezado não fuma
não bebe nem cheira
não deve a ninguém
e sua única maldição
é a mesa de baralho

ontem no osvaldinho
prezado me contou
que disseram in off:
julgado e executado
sem recurso judicial

zoinho virou cozido
no tacho do inferno
e foi queima-rosca
inocentado e liberto
por três votos a zero
tudo limpo e rápido

30/05/2014.

dedo mole 22

bêbado até a tampa
de maria mole e cerveja,
só com prezado de olheiro
e queima rosca na cobertura
dedo mole ontem à tarde
tava dando a maior bandeira
no bar do osvaldinho

com a van escolar
estacionada na porta
jogava tampinha a dinheiro
com amaral, advogado e claudionor
pobres coitados
mijados de medo

até mesmo eu que sou
o pato mais triste da fita
percebi assustado a situação
indefensável e insegura

como manda o figurino
e aconselha o bom senso
saí que nem cachorro magro
rezando pra não ser convidado
pra mesa de jogo

lá fora o prezado
psicólogo popular
defendeu sua tese:
- hoje é dia do desfile anual
dos mortos do dedo mole
todos que foram zerados
por ele ou a mando seu
passam dando um rolezinho
por dentro da sua cabeça
e ninguém imagina
o que pode acontecer

o único jeito é esperar
que caia logo de bêbado
pra levar o cidadão
pro martelinho de ouro

18/06/2014. 

dedo mole 23

agora tudo é solidão
de tudo que dói
dentro de mim morto
há muito tempo

todos se foram agora
não sinto mais saudade
de quando tudo era vivo
e eu não tinha esquecido
meu nome e idade

restaram agora do jogo
o jugo das memórias dos rojões
cicatrizadas nas retinas dos olhos
e do fogo dos beijos ardentes
memórias geladas nos lábios

dos abraços da vitória
restaram ainda os gritos
dos ventos esquecidos
nas bandeirinhas verde-amarelas

e do mar de sangue e morte
de dor e sofrimento infinito
onde morei por eternidades
sem nenhum afeto ou amigo
acordei agora dono de mim

30/06/2014.

terça-feira, 15 de julho de 2014

SP: Zona Leste - Sarau, Maracanã e Gaza

Por Escobar Franelas.

Parece incrível que, retomando um clichê recente mas que também já parece um tanto envelhecido – talvez pelas exaustivas repetições, o “a periferia agora é o centro” – realmente o caminho do consumo artístico tenha se tornado uma via de mão dupla, e em várias faixas de sentido. Ulalá!

Imaginar que o Sarau da Casa Amarela, ululante, vivo e regular em São Miguel faz mais de três anos, hoje permite-se receber poetas como Carlos Moreira, que, vindo de Rondônia, ofertou-nos de graça a graça de sua poesia farta e robusta ao público de toda a zona leste (incluo aí também o bairro Jardim Revista, na periferia de do município de Suzano), quando esteve por essas bandas em 2013 lançando seu icônico livro de poemas, “Cardume”. Imaginar mais, que agora são Adriane Garcia (poeta de Beagá) e Bianca Velloso (poeta de Santa Catarina), dois luminares que chegam por esses dias em São Miguel para transformar o lugar no núcleo poético por onde gravitará a fina flor da poesia que de melhor produz o país hoje – nossa! – quem poderia prever isso anos atrás?

Por anos a fio – décadas, séculos até... – nos acostumamos a tomar sempre o rumo do “centro”, o rolê tinha que ser na São João, na Paulista, na Faria Lima, na Aspicuelta. Tudo bem tudo bem tudo bem... Mas a grande sacada é que hoje o caminho pode ser o contrário, sair do porto seguro da zona sul para a zona leste é muito significativo pra evocar essa nova condição da portabilidade humana. Ou nos relacionamos todos, ou vamos todos virar inumanos, animais escondidos atrás de grades, câmeras e fitas de acesso vip no pulso.

Fato mesmo é que Adriane e Bianca chegam à Sampalândia por esses dias e na próxima sexta, sábado e domingo (18, 19 e 20 de julho) chegam nesse ex-rincão de taipas e agora de tijolinhos às vistas, andarão de metrô e trem, verão o Itaquerão agora sem os holofotes fíficos e, assevero, viverão intensamente essa epopéia pela Paulicéia cada dia mais desvairada, mais extensa, mais cosmopolita.

Aliás, falando em cosmopolitismo, parece incrível que passados apenas sete décadas da barbárie germânica contra os judeus e outras minorias (ciganos, negros, homosssexuais), hoje esses mesmos judeus – agora recuperados moral, social e militarmente pela mão apostólica estadunidense – judiam sem dó de palestinos desabrigados, numa briga de Sansão e Golias contra um diminuto Davi. Enquanto isso, os agora simpáticos alemães distribuem sorrisos e boas ações, fazendo com que a Copa das Copas não seja um mero exercício retórico, mas um fato declarado. Deste lado do Atlântico, lucramos nós, brasileiros, com um evento que quase chega a rivalizar ao nosso próprio carnaval em organização; lucraram eles, alemães, que souberam sincronizar à cada vitória uma empatia cada vez mais midiática. Os prejuízos (semrpe há prejudicados), estão ali, agora, prostrados, na Faixa de Gaza, onde não há espetáculo, não há fruição, não há gozo...

De um lado, sarau; de outro, a vida animal! Entre os dois, a final. Eita mundo doido, cada vez mais paradoxal!

quinta-feira, 10 de julho de 2014

SP: ZONA LESTE - Olha o trem aí, gente! Está recheado de histórias

Por Manoel Gonçalves

Condução é sempre uma aventura. Quem utiliza dos meios de transporte, todos os dias ou de vez em quando, sabe do que digo. Mas independente da intenção, por necessidade ou por lazer, é inegável que na condução a gente ri, chora, agoniza e testa paciência, dentre outras coisas.

Mas quem circula pela cidade por esses meios também compartilha de inúmeras histórias. Às vezes sem querer, às vezes por imensa curiosidade, é possível saber de parte da vida dos passageiros, de alguma aventura, romance, espertezas e muitas situações engraçadas. A verdade é que é preciso levar sempre na esportiva. Afinal, dependendo do trajeto, passa-se até 3 ou 4 horas na condução. Por conta desse convívio diário, muitos grupos de amigos se formam e a viagem sempre fica mais leve.

Sei que esse espaço é para destacarmos feitos e fatos da imensa e movimentada zona leste. Mas aproveito hoje para escrever sobre o livro de uma autora de uma região próxima à zona leste. Ela é do Alto Tietê, de Suzano especificamente. Usuária diária e de longa data dos meios ferroviários (trem e metrô) e aproveitando-se dessa fonte inesgotável e inspiradora de histórias, Andreia Gonçalves Garcia, com boa dose de curiosidade e observação, captou essas sensações e ações e escreveu o livro A Viajante do Trem. São crônicas engraçadíssimas sobre situações corriqueiras e extremamente comuns ao universo dos usuários. Assim, com irreverência, ela explica os tipos de usuários de metrô e trem, os nomes dados às estações, as canções que surgem no dia-a-dia e, principalmente, os "causos" inusitados que passam frente aos seus olhos.

Andreia também escreve colunas para jornais locais e para o jornal Estação, distribuído gratuitamente nos arredores das estações de trem e metrô. Ela também mantém o blog homônimo, A Viajante do Trem. Quem quiser conhecer um pouco mais, entra lá e curta o face dela também.
Aproveitando o tema, coloco aqui um poema que fiz:

Condução
Estava no vagão
Vagando pela cidade
Por túneis e trilhos
Vendo o vagar do trânsito
E o nada devagar
Agito dos transeuntes
Perdido nos pensamentos
De bobeira a divagar
Vendo o povo apinhado
À espera do metrô lotado
Em plataformas sem forma
Falta espaço, sobre cansaço
O trem encosta já cheio
Antes de o apito soar
Pra entrar tem de suar
O povo fica e suplica
Em vão a vaga que não veio
No vagão quase sem ar
Não há conforto nem lugar
Apenas o aperto rotineiro
Rostos apreensivos, fatigados
Inexpressivos, enlatados
E a vaga noção de seguir nos trilhos
Ensardinhados, bem DE-VA-GAR

 "- Paramos para aguardar a movimentação do trem à frente."
Manogon
Mas para não dizer que não falei da zona leste, preparem-se, pois em julho tem dose dupla do Sarau da Casa Amarela, que contará com convidadas especiais: Adriane Garcia (MG) e Bianca Velloso (SC), duas brilhantes escritoras, além de outros autores que acompanham a comitiva. 

Dia 18-07, será na Casa de Farinha, com o lançamento do CD Sarau da Casa Amarela, vol. 1 - Mutirão Cultural, exposição de artes de Euflávio Madeirart (esculturas em madeira) e Ligia Regina (quadros), pocket show com artistas da Casa Amarela e microfone aberto.

Dia 20-07 acontece o tradicional Sarau da Casa Amarela, na sua sede mesmo, com os mesmos autores convidados e os artistas que frequentam o sarau.

Dia 25-07 tem o Sarau da Casa do Chefe (agora chamada de Casa da Memória deItaquera), no centro de Itaquera.

E dia 26-07 tem a realização do Blá-Blá-Blá, na Casa Amarela, um debate com o tema "Literatura Marginal, o que é?", com os convidados Alessandro Buzo (escritor, cineasta e apresentador de TV), Sacolinha (escritor e produtor cultural) e Érica Peçanha (pesquisadora).


Manoel Gonçalves é designer gráfico, ator e poeta. Escreveu por dois anos e meio para o blog e site Desabafo de Mãe, como pai convidado, para expor seu ponto de vista sobre a difícil e prazerosa arte de criar e educar as filhas. Participou também de outros blogs literários.

terça-feira, 1 de julho de 2014

SP: ZONA LESTE - Sarau da Casa Amarela Especial


Por João Caetano do Nascimento.

Um grupo de amigos reuniu-se na manhã de domingo, 29/06, para organizar o “Sarau da Casa Amarela Especial”. Trata-se de um grande evento, a ser realizado em duas etapas, nos dias 18 e 20 de julho, ocasião em que receberemos a visita das poetas Adriane Garcia, de Minas Gerais, e Bianca Velloso, de Santa Catarina, além de vários outros  artistas convidados.

O Sarau do dia 18, que terá início às 19 horas, ocorrerá na Casa de Farinha, ocasião em que se fará o lançamento do “1º CD do Sarau Casa Amarela”, com poemas e canções captadas ao vivo durante os saraus, com a participação de variados artistas de São Miguel Paulista e Região.  Nesse dia ocorrerá ainda a exposição dos trabalhos do artista plástico Euflávio Góes, com esculturas talhadas na madeira e também de quadros de Lígia Regina, artista plástica, poeta e cantora.

A abertura do Sarau Casa Amarela Especial na Casa de Farinha ficará a cargo do Grupo Musical “Kabras de Baquirivu”. Haverá ainda um recital poético e musical de um coletivo de poetas e músicos da Casa Amarela e um espaço aberto para os artistas presentes ao evento. No encerramento, haverá uma grande e certamente animada cantoria. As duas participantes terão um espaço reservado de cerca de trinta minutos para que apresentem seus poemas e falem um pouco da produção artística que realizam.  

Já no domingo, 20 de julho, será realizado o tradicional Sarau da Casa Amarela, com a presença das duas poetas, Adriane Garcia e Bianca Velloso.  Nesse sarau, cujo início é às 15 horas, elas também terão um tempo destinado para contarem um pouco de suas vidas, trabalho e atividades, além da leitura de poemas.  Em seguida, o sarau prosseguirá no seu esquema consagrado de espaço aberto para quem queira participar, cantando, declamando poemas, etc. Os trabalhos de Euflávio Gomes ficarão expostos na Casa Amarela, a partir do dia 20 de julho.


Adriane Garcia
Adriane Garcia nasceu em Belo Horizonte. Historiadora, funcionária pública, arte-educadora, atriz, mas principalmente poeta.  Tem publicado o livro “Fábulas para adulto perder o sono”, edição da Biblioteca Paraná, livro de poemas que foi o  vencedor do Prêmio Paraná Literatura 2013. Os trabalhos dela também podem ser vistos em seu blog. Para acessar clique aqui: Adriane Garcia Literatura   ou ainda em sua página no Facebook  Bianca Velloso nasceu na cidade de Porto Alegre, mas cresceu e mora em Florianópolis. Seus trabalhos podem ser vistos em seu blog. Para acessar clique aqui: Poesia Cotidiana Bia  ou na sua página no Facebook.


Serviço
A Casa de Farinha fica na Rua Santa Rosa de Lima nº 1341, em São Miguel Paulista (Esta rua é uma travessa da Avenida Marechal Tito, alt. do nº 1832, próximo à Vila Curuçá).

A Casa Amarela está localizada na Rua Julião Pereira Machado nº 7 -  São Miguel Paulista (atrás da Escola Carlos Gomes e próximo a agência da Sabesp  de São Miguel Paulista).


João Caetano do Nascimento é poeta, foi participante do Movimento Popular de Arte no final da década de 70 e começo dos anos 80 do século passado. Trabalha como jornalista.