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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A kantuta tricolor

Lançamento da Editora Volta e Meia aproxima cultura boliviana a partir de fábulas, lendas e contos populares.

A kantuta tricolor e outras histórias da Bolívia mescla fábulas, lendas e contos populares e ajuda a conhecer mais sobre o imaginário cultural da Bolívia.
  
Em doze histórias e muitas ilustrações, Susana Ventura e Bernardita Uhart mostram que, para os brasileiros, a Bolívia está agora bem mais próxima.

A constante imigração boliviana para o Brasil nas últimas décadas tornou muitas de nossas grandes cidades importantes polos de cultura influenciados pelos vizinhos sul-americanos.

Paisagens quase desconhecidas (mas adivinhadas), como a das cordilheiras; o simbolismo de seus protagonistas animais, como o condor, senhor dos Ares, o coelho, a raposa; as doçuras e asperezas da vida no campo, plenas de desafios; as camadas de tempo: do passado pré-colombiano aos tempos de dominação colonial, encerrados pela desejada e sofrida independência, estão presentes no livro.

Escrito pela reconhecida escritora de livros para crianças e finalista do Prêmio Jabuti 2016, Susana Ventura, o volume recebeu ilustrações da artista plástica chilena Bernardita Uhart, que foi chamada para o projeto tanto pela excelência de seu trabalho quanto pela sensibilidade de haver vivenciado a situação de criança imigrante no Brasil.
A kantuta tricolor e outras histórias da Bolívia é também um livro para todas as idades: suas narrativas informam, divertem e possibilitam conhecer a riqueza humana do país vizinho; suas ilustrações evocam paisagens, modos de viver e de pensar o mundo.

Faixa etária: a partir dos 5 anos para leitura acompanhada; a partir dos 9 anos para leitores autônomos.

Susana Ramos Ventura é mestre e doutora em Letras pela Universidade de São Paulo na área de Estudos Comparados de Literatura de Língua Portuguesa e Literatura para Crianças e Jovens. Ela faz parte do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da UFRJ e desenvolve um trabalho de pós-doutorado. Pesquisadora do CLEPUL (Centro de Estudos de Literaturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa) e do CRIMIC (Centro de Investigação sobre os Mundos Ibéricos Contemporâneos), de Sorbonne, Paris IV. Além de A Kantuta tricolor, é autora de O tambor africano e outros contos dos países africanos de língua portuguesa, O Príncipe das Palmas Verdes e outros contos portugueses, Convite à navegação – uma conversa sobre literatura portuguesa, entre outros. Desde 2007, trabalha em diversos projetos com o SESC como curadora, palestrante, professora e moderadora. Em 2010 foi contratada pelo Museu da Língua Portuguesa e Ministério das Relações Exteriores para seleção de textos de literaturas africanas de língua portuguesa e composição de material sobre escritores e países de Língua Portuguesa para a exposição Linguaviagem do Itamaraty.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

BRASIS, PORTUGAIS E ÁFRICAS - Depois deste estranho semestre...

Ilustração politicamente incorreta para um texto corretíssimo.
Por Susana Ventura.

Venho de terminar  o período de aulas que ministro numa pós-graduação em Alfabetização e Letramento. Minha ‘disciplina’ chama-se Literatura Infantil e Juvenil e sempre foi uma delícia trabalhar nela.

Desta vez fui pega de surpresa: pela primeira vez precisei lutar para dar aulas. Enfrentei um grupo de alunos cansados e agastados com a vida,  tão ásperos que nada parecia capaz de comovê-los.

No primeiro dia, ainda no início da aula, uma jovem levantou o braço: ‘A senhora irá manter o ‘pacto pedagógico?’ Por 30 segundos, senti um desconforto tomar conta de mim. Respondi, com cuidado, que não costumava romper pactos, mas que não estava informada daquele. De que se tratava?

Simples, o ‘pacto pedagógico’ era a proposta de dar  três horas e meia de aulas sem intervalo para que eles saíssem mais cedo nas noites do curso... E, claro, se possível, iniciar a aula meia hora mais tarde. Portanto, a cada quatro horas de aulas, eles teriam apenas três.

Não, aquele ‘pacto’ não era para mim e nem procurei saber quem o havia pactuado...segui a vida começando as aulas e tentando terminá-las no horário regulamentar.  Pela primeira vez desde 1992, ano em que comecei a dar aulas (para ensino fundamental), precisei interromper muitas e muitas vezes cada aula para pedir que me deixassem trabalhar. Para pedir o mínimo: silêncio e respeito.

Escutei reclamações múltiplas: era muita leitura e ‘como assim’ precisavam ler algo que não estava em pdf na internet? Muitas vezes fui interrompida de maneira brusca e áspera, assustadora mesmo, para colocações das mais variadas (nenhuma relacionada ao tema do curso, infelizmente).

Vá para o livro clicando aqui.
Agora, passados alguns meses, recebi ‘bilhetes’  nas margens da última avaliação. Alguns deles: ‘Obrigada por me fazer ler esse livro’, ‘Eu não pensava que houvesse livros assim’, ‘Foi um presente conhecer esses livros’, ‘Li aquele livro numa só noite’, ‘Eu nunca tinha me emocionado lendo um livro antes’, ‘O tempo é curto para tanta coisa boa’...

‘Reinações de Narizinho’, de Monteiro Lobato, ‘Tristão e Isolda’, de Helena Gomes e o livro teórico, pequeno e precioso, ‘Os contos de fadas: origens, história e permanência no mundo moderno’, de Ana Lúcia Merege, ajudaram na construção de um pensamento próprio, mas a um custo alto demais para mim.

Muita aspereza e, por fim, estou diante de um balanço em que a minha conta pessoal, humana e profissional, está negativa. Não há ganhadores após este semestre: perdemos todos, juntos, uma mesma batalha.

Penso, sinceramente, que se aproxima a hora de parar de dar aulas. É o que me indica o bom senso e o que parece me pedir também minha vida, em que há muito, ainda, a ser realizado. Falemos de boas coisas, só que não hoje.


 Susana Ventura é doutora em Letras pela Universidade de São Paulo, professora do Ensino Superior e autora de ficção, ensaios e obras para formação de professores. Todas as quinta-feiras escreve a coluna Brasis, Portugais e Áfricas para o blog da editora Nova Alexandria.