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terça-feira, 20 de maio de 2014

O PENSAMENTO VOA - Rotina

Cachorro!
Por Rômulo Reis Cesco.

Um pouco cansado do mundo e da rotina do dia a dia, Joel entra no seu carro e pisa fundo no acelerador, querendo logo chegar em sua casa, para ouvir suas músicas, para fazer carinhos em seus cachorros, pra sentir aquela solidão deliciosa pela qual ele tanto lutou. Antes de chegar em casa, tem de passar na padaria pra comprar pão, queijo, salame e maionese - ele tem o hábito de conversar com os atendentes, saber como foi o dia deles, interagir, entendê-los, se fazer presente no dia deles, deixar um pedaço seu ali.

Compra também biscoitos crocantes para seus cachorros, gosta muito deles, são como se fossem seus filhos, seus únicos filhos, seus familiares, seus amigos. Joel vive na dualidade de estar sozinho e se sentir só. Joel trabalha numa daquelas empresas que te deixam extenuado fisicamente mas deixam o intelecto intacto - como que dizendo que o homem forte não tem nada mais à oferecer do que seus músculos, e que seu cérebro não faz nada de bom além de mandar os comandos que movem as pernas, braços e mãos.

Ele não tem muito estudo, nem tanta posse assim, tem um fusca meia sete e uma moto de duzentos e cinquenta cilindradas - que usa pra longas viagens. Sua casa é alugada. Seus cachorros são comprados. Sua vida é dada. Nada é dele. O carro vai enferrujar, com a moto ele vai cair e se ralar. Os cachorros morrerão.

E ele, o que deixou ? Deixou uma vida inteira de tevê ligada depois do trabalho, passando a roupa do dia seguinte, lavando a roupa suja do dia de hoje, ligando pra mãe e pro pai, querendo saber da irmã que está no centro de reabilitação. E o que sobra pra ele ? A raspa do pão, o bagaço da laranja, a seringueira sem seiva. E o amor Joel? Aonde está o teu amor ? - Pensa ele consigo. Não sabe se responde ou se cala aquela voz que lhe pergunta, sendo que a resposta pra essa pergunta ele não tem. Minto. Tem, ali dentro ele sabe que tem. O amor.

- Aquele sentimento que sempre vem acompanhado de dor ? - Não Joel, aquele que te ensina que pra ter felicidade, qualquer dor é insignificante.

"Mas esse não conheço, não sei de onde vem e nem sei se existe."

Joel olha pra seus cachorros e sente que a fidelidade deles é amor. Amor no seu mais puro exemplo. Amor na sua mais pura forma. E ele ri pensando em todas as mulheres que o chamaram de cachorro... "Ah, se elas entendessem"; afasta de si esse questionamento que só o faz perder tempo, tem que fazer comida e ver a novela das oito, depois vai dormir, pois amanhã a rotina chama e precisam de seus músculos, e não de seus questionamentos.

Rômulo Reis Cesco é granduando de Direito pela Universidade São Judas Tadeu. Seus textos de natureza crítica assumem, porém, aspecto poético, e posicionam a condição da humanidade em geral e do jovem em particular sob a luz da reflexão filosófica. Seus textos são um convite ao compartilhamento e à solidariedade.


segunda-feira, 12 de maio de 2014

O PENSAMENTO VOA - Fora do comum

Às vezes, surge um rosto no metrô superlotado.

Por Rômulo Reis Cesco.

Ela me conhecia, mas não sabia quem eu era. Nos falávamos por entre as trivialidades de um dia-a-dia em que nos cruzávamos, trocando palavras ralas de profundidade. Um pouco malcriado, carrancudo em razão do sol que queimou meu rosto aquele dia - naquela manhã ao acordar, vi que tinha um pouco de serração acima do lago, logo achei que iria ser um dia nublado. Errado.

Foi de sol, tanto que a encontrei -  percebi que só a encontrava em dias em que saia o sol, coincidência, ou era o sol que saía quando ela resolvia sair de sua toca. Entretanto, essa cara de desgosto que eu vesti escondia a admiração pelo sorriso que ela sempre levava, sempre, sem exceção - e me chamava de amor, talvez por não saber meu nome. Sei lá se isso é importante, nunca me importei como me chamam, gosto que apreciem além dos rótulos, o nome acaba sendo só mais isso - tanto que hoje tem gente que até interpreta o indivíduo pelo nome que tem. Patético.

O vestido curto e a  maquiagem pesada dela não escondiam os hematomas, porém o sorriso estava ali, no seu posto fiel, tenho até compaixão por essa princesa que nunca teve lua de mel, nem castelo, nem seguidor fiel. Talvez tenha seguidor, não fiel, mas ocasional e altruísta, que admira e percebe o quão egoísta o mundo foi, e é com ela. Mas está ali, com o sorriso no metrô, mesmo depois de uma noite arregaçando a todo vapor.

Chegou na sua parada, ela desceu, não antes de dizer "Tchau amor" - Despi minha carranca e fiquei pensando: "Não me importo com o nome, antes um amor da desconhecida do que um ódio de um chegado do lado. "

Segui meu dia depois da conversa breve, desci, entrei no escritório, montei planilhas, usual; mas algo mudou, o sol tinha saído pra vê-la, talvez eu também saísse todo dia na esperança de trocar algumas palavras no metrô com aquela linda e sombria mulher, e entre as cinco estações que me fazia companhia, (antes de descer), era apenas pra iluminar meu dia, consciente disso ou não - não é paixão, é elemento novo no dia, que destoa da rotina da metrópole fria. E não é?!



Rômulo Reis Cesco é granduando de Direito pela Universidade São Judas Tadeu. Seus textos de natureza crítica assumem, porém, aspecto poético, e posicionam a condição da humanidade em geral e do jovem em particular sob a luz da reflexão filosófica. Seus textos são um convite ao compartilhamento e à solidariedade.