Por Jeosafá.
Com frequência, a editora Nova Alexandria recebe carta de
leitores – e os leitores estão por toda parte.
Quando digo carta,
digo aquela que se escreve no papel e se posta no correio com a esperança de
que ela chegue mais do que no endereço, no coração do destinatário. E quando
digo por toda parte, digo inclusive
nas mais inusitadas.
Algumas dessas cartas vêm de presídios, em que o livro e a
leitura ganham dimensões mais significativas, pois, por meio de ambos, os
leitores em condição de encarceramento aspiram, mais do que diálogo com uma
empresa do ramo editorial, a uma porta pela qual sair com dignidade, cumpridas
suas penas.
Recentemente, um leitor de um dos presídios do país – tanto
seu nome quanto o do estabelecimento prisional são aqui omitidos por razões justas
– solicitou o envio de biografias que o
ajudassem a escrever a sua própria. Na carta, em que pesem as dificuldades de
linguagem, de resto, comum em muitos de nossos estudantes mesmo do Ensino
Médio, ele se comunica com objetividade, segurança e, se assim podemos dizer,
alma.
Enviamos para o remetente o romance O
Jovem Mandela, lançado em 2013 em comemoração aos 95 anos desse
grande guerreiro da liberdade. A rapidez com que o solicitante respondeu ao nosso
envio, em que se inclui o volume do romance-biografia, diz com que voracidade o
destinatário leu o livro.
Sua carta de agradecimento é comovente, mas também é um
compromisso que ele assume consigo mesmo e com as pessoas que confiam em sua
capacidade de dar a volta por cima – e sair pela porta da frente do sistema
prisional, de cabeça erguida.
Porém, lancei a ele um desafio, já que ele gosta de ler e
pediu auxílio para escrever a sua biografia. O desafio é que ele compartilhe com
os colegas a leitura dos livros que enviarmos, formando um clube de leitura.
Nosso amigo, o jornalista João
Marques, se dispôs a orientá-lo sobre como organizar reuniões em que
trechos são lidos, comentados, debatidos, estudados etc. Eu, que por tantos
anos fui professor de língua e literatura da Educação Básica e do Ensino
Superior, corrigirei seus textos, que me chegarão por carta, e o orientarei
sobre aspectos de correção linguística, técnicas de leitura em voz alta para
diversão, estudo e produção escrita.
Convido agora o leitor do blog comunitário da Nova
Alexandria a ler a carta enviada por ele. E me comprometo desde já a dar
notícias sobre essa iniciativa, que se iniciou pela vontade de um leitor em
condição muito específica, mas que encontrou eco na editora e neste autor que
se despede, por ora sem nenhum remorso de ter mandado Nelson Mandela novamente
para a prisão.
Resposta à carta acima:
Prezado amigo:
Recebi sua carta, vou
ajudá-lo a escrever sua biografia. Uma vez que você gosta de ler e
escrever, e outra vez que sou professor,
faço-lhe um desafio: compartilhar com seus colegas a leitura dos livros que lhe
enviar.
Se aceitar o desafio, meu amigo jornalista João Marques
passará a se corresponder com você para orientá-lo sobre como organizar um
clube de leitura aí onde você se encontra, tirando o maior e melhor proveito
dos livros enviados. Da minha parte,
corrigirei os erros de português dos textos que me enviar, providenciarei a
digitalização, darei dicas de como ler em voz alta, em voz baixa, para
diversão, para estudo etc.
Responda-me duas perguntas:
1. Você tem um dicionário
de língua portuguesa com você ou tem acesso a algum no presídio?
2. Você tem um livro de gramática com você ou tem acesso a algum no presídio?
Agradeço a leitura atenta que fez de meu romance-biografia O jovem Mandela. Penso que você
aprenderá muito compartilhando a leitura desse livro com os colegas. Há coisas
que, na conversa, na discussão sobre um livro, descobrimos – e que nos escaparam na leitura solitária.
Publiquei um texto sobre você e sua carta no blog da
editora, naturalmente omitindo seu nome e o local de onde escreve. Segue o
endereço na internet para que seus familiares tenham acesso. Futuramente, caso
deseje e a legislação permita, seu nome poderá ser divulgado.
Felicito-o pela escolha da porta pela qual escolheu para
sair da prisão: a da leitura e da literatura. Ou seja, a porta da frente.
Segue com esta O Jovem Martin Luther King, para que
você pense bem neste desafio.
Forte Abraço e, se leu atentamente O Jovem Mandela, sabe o
significado da saudação abaixo:
– Amandla!
– Ngawethu!
Jeosafá Fernandez
Gonçalves