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| Aí, Jisuis! O FADO! (Ilustração de José Malhoa). |
O Fado é
uma das minhas paixões e ‘piorei’ muito após a estada que tive em Lisboa para
estudar, entre novembro de 2014 e abril de 2015, com uma bolsa de doutorado.
Maria Manuel Marques Ferreira Amorim Rodrigues (e ainda teria direito a mais
alguns sobrenomes esta minha amiga, entre os quais Castelo Branco, como Camilo)
foi a responsável pela ‘fadite’ ter virado crônica, ensinando-me através de sua
discoteca fabulosa e de sua habilidade para montar uma agenda cultural incrível.
A agenda costurada habilmente pela conhecedora profunda do tema que ela é, me
levou a ouvir o que de melhor se fazia em Lisboa naquele inverno horrorosamente
chuvoso. Eu estudava com afinco, demais até para o gosto de todos os presentes,
preocupadíssima que estava em aprender o máximo. Mas, aos finais de semana e,
por vezes, ao final da tarde, íamos ‘a tudo e mais alguma coisa’: pocket-shows da FNAC, lançamentos de
livros em que havia fado, comícios do Bloco de Esquerda em que fadistas davam
canja, concertos na Faculdade, apresentações na Fonoteca de Lisboa.
Sensível à
‘debilidade’ de recursos no bolso da estudante – outra doença que me acometia e
de que não me recuperei até hoje, infelizmente – ela habilmente ‘cavava’
oportunidades de ouro naqueles meses em que fiz minha ‘formação’. Casa de Fado
e Grande Noite do Fado conheci anos mais tarde, já muito quilometrada em Fado
graças à minha amiga. Com ela escutei pela primeira vez Mísia a cantar
‘Lágrima’ num comício. Ela pontuando ao ouvir anunciado o título: ‘um fado
maravilhoso, que ela canta melhor que a Amália... a única, aliás’.
A ‘fadite’
adquirida então só tem me trazido boas coisas: emoções, trabalhos lindos, gente
amiga, conversas das mais deliciosas.
Dia 20 de
maio, entre uma viagem de trabalho e outra, fui ao SESC Vila Mariana escutar
Mísia cantar. Ao final do concerto ela cantou Lágrima. 10 anos depois da
primeira audição eis-me privilegiada novamente, ouvindo-a cantar seu ‘fado fetiche’.
Nesse concerto em São Paulo, Mísia nos falou
dos tempos de crise em Portugal e, entre as muitas tiradas bem humoradas que
são marca da artista, o ‘youtube’ foi mencionado como possibilidade de alimento
da alma em tempos difíceis. Nisso me inspirei para a coluna da semana passada,
mas me ficou a vontade de fazer ao menos mais uma incursão ‘iutubística’!
Assim
sendo, pensei em trazer hoje para nossa coluna um pequeno percurso pelos fados
que Mísia tem gravado, a partir de poemas de escritoras portuguesas bem
próximas de nós (tendência em que, aliás, atualiza Amália, aquela na parceria
com Alain Oulman).
Começo pela
amada Florbela Espanca (1894-1930), com Fado das Violetas:
Prossigo
com a libertária, fantástica Natália Correia(1923-1993), escritora a que
voltarei em nossas conversas. Mísia gravou, com letra de Natália, Que silêncio
é esta voz.
A doce e
maravilhosa Rosa Lobato de Faria (1932-2010) comparece ao percurso com Ulissipo:
Já bem
perto de nós, duas das maiores escritoras vivas da língua portuguesa: Agustina
Bessa Luís (1922) e Lídia Jorge (1946).
Ambos os
fados que se seguem têm para mim significados especialíssimos, a ponto de me
lembrar com clareza das circunstâncias que cercaram a primeira vez em que ouvi cada
um deles.
Aguenta,
coração, vamos a Garras dos sentidos, com letra de Agustina Bessa-Luís:
.
E, por fim,
ao maravilhoso ‘Tarde longa’, com letra
de Lídia Jorge, e que me deixou completamente sem ar ao ouvi-lo:
Bom,
queridos, vou desligar o ‘modo fado’, mas só na semana que vem, está bem?




