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quarta-feira, 2 de julho de 2014

DIÁRIO VAGULINO - Desenhos das quebradas do mundaréu (8)

Por João Pinheiro.

Manhã poeirenta, sol clareando as brechas, muvuca nas ruas, quando os trabalhadores esfregam nervosamente os olhos e esperam o transporte público. Todas as manhãs o tumulto de cabeças vai agitado, seguindo pastosamente. O que podemos fazer? As baratas e ratos erram também pelas calçadas rumo às tocas, nos lixos encanteirados.

Meus olhos, passados de um século, salgados, vermelhos de fumaça, evitam que eu tropique e me estrumbique na calçada esburacada. Tanta vida, tanta coisa mudou e tudo continua igual, meu mundo que levo comigo nas calças chumbadas. Canetinha no bolso e caderno no sovaco, sigo.

Na travessa da Avenida Itaquera, Caronte tem olhos vidrados de crack e os heróis desfilam imundos, peles de bronze, carregando carroças cheias de coisas que ninguém mais quis. É possível ainda ver um leve sorriso nos lábios dessa gente. Carolinas, Solanos, Atlas subdesenvolvidos das quebradas, carregando o mundo que não os vê, mas ai dos que não os veem. Que força estranha e invisível nos move? Povo errando a vida no concreto. Desloco para o lado das casas sem reboco, lá estão os meus. Ideia de Mágico de Oz aqui não cola, mau exemplo, sim. No extremo o que predomina é o risco, o abismo a um passo de distância, mas que a maioria aprende a se safar na marra. Vira pro lado de lá, remenda aqui que dá, tá ruim, mas tá bom... Havia um erro nisso tudo, um buraco na prosa. Ia tentar resolver quando eu sentasse pra desenhar.

Caminhava conversando com minha mulher, víamos os mesmos rostos de todos os dias, eram 6h20. Sinto certo conforto em ver rostos conhecidos, postes repetidos... Íamos falando atropeladamente, entusiasmados por ideias que pulam pra fora e se perdem no ar, sem aquelas deixas de fala das peças ruins, tudo ao mesmo tempo. Em frente à escola onde ela trabalha, nos despedimos. Girei os calcanhares e recomecei a caminhada. E o erro mencionado, qual seria?

Tinha mirado uma esquina pra desenhar, na volta e fui direto pra lá. Sentado na calçada, armas em punho, a rabiscação ia começar, mas não antes de dar uma boa espiada ao redor. Descobri a resposta: quando você olha longamente as coisas, o que parece doente e apagado, à primeira vista, amadurece e nos faz conceber mais profundamente o encanto que liberta.

Depois lembrei deste trecho de Cartas a Théo, do Van Gogh (2002, p. 279):

“(...) Ao estudarmos a arte japonesa, veremos então um homem incontestavelmente sábio, filósofo e inteligente, que passa seu tempo como? Estudando a distância da Terra à Lua? Não. Estudando a política de Bismark? Não. Apenas estudando um talo de capim.
Mas este talo de capim leva-o a desenhar todas as plantas, a seguir as estações, os grandes aspectos das paisagens, enfim, os animais, e depois a figura humana. Assim ele passa a sua vida, e a vida é muito curta para fazer tudo isso (...)."


João Pinheiro é Ilustrador, artista plástico, autor de histórias em quadrinhos e infantis e professor, com livros publicados por várias editoras. É autor de Kerouac, (2011, editora Devir Livraria) e O espelho de Machado de Assis em HQ (2012, Mercuryo Jovem, em parceria com Jeosafá Fernandez Gonçalves).  Do Urban Sketchers, em parceria com Jeosafá tem vários livros infantis publicados, dois dos quais selecionados pela SEE-SPFaz de conta no jardim (2010, Mercuryo Jovem) e Um barco, um passarinho (2010, Plêiade). Publicou quadrinhos nas revistas: Front (Brasil), Graffiti (Brasil), Hipnorama (Argentina), Inkshot (EUA). Diário gráfico:  http://vagulino.tumblr.com/ - Site: http://jpinheiro.com.br/.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

DIÁRIO VAGULINO - Desenhos das quebradas do mundaréu (6)

Jardim Brasília, detalhe.

Por João Pinheiro.

Esta é uma visão parcial do Jardim Brasília, situado no distrito da Cidade Líder, zona leste de São Paulo. A Cidade Líder tem um perfil tipicamente residencial, a região é considerada "bairro dormitório". Na semana, as ruas ficam quase vazias, mas nos finais de semana o movimento pulsa, os carros passam zunindo, velhos camaradas jogam futebol nas muitas quadras espalhadas por aqui, os bares ficam abarrotados e você vê todo o tipo de coisa: risos exaltados, bêbados proletários, vagabundos, bichas suburbanas, garotos sentados na calçada, catadores de papel, pelada na ruas, meninas passeando e paquerando, grafiteiros, skatistas,  crianças correndo, mulheres indo às feiras livres e voltando delas, pessoas chegando com mudanças, famílias indo embora, alegria, desespero, jovens sentados nas calçadas fumando e arrumando confusão, familiares e amigos reunidos, churrasco, cerveja barata nos quintais, placas de vende-se geladinho, risos, olhos brilhantes... Enfim... a vida segue e todos decansam de mais uma semana cansativa de trabalho.

João Pinheiro é Ilustrador, artista plástico, autor de histórias em quadrinhos e infantis e professor, com livros publicados por várias editoras. É autor de Kerouac, (2011, editora Devir Livraria) e O espelho de Machado de Assis em HQ (2012, Mercuryo Jovem, em parceria com Jeosafá Fernandez Gonçalves).  Do Urban Sketchers, em parceria com Jeosafá tem vários livros infantis publicados, dois dos quais selecionados pela SEE-SPFaz de conta no jardim (2010, Mercuryo Jovem) e Um barco, um passarinho (2010, Plêiade). Publicou quadrinhos nas revistas: Front (Brasil), Graffiti (Brasil), Hipnorama (Argentina), Inkshot (EUA). Diário gráfico:  http://vagulino.tumblr.com/ - Site: http://jpinheiro.com.br/.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

DIÁRIO VAGULINO - Desenhos das quebradas do mundaréu: 5

Desenho feito no bairro do Belenzinho (SP).
Por João Pinheiro.

Fui lá com a intenção de desenhar, mas ao caminhar bastante pelas ruas, pensei que iria acabar não riscando nenhum traço no meu caderno. Porque eu sempre passo por lá e vejo coisas interessantes e penso: " Tenho que vir um dia aqui para registrar isso", mas aí, estando lá com meu caderno, canetas e banquinho de repente nada parecia me agradar.

Dia cinzento, estranho, chove ou não chove...

Pensei e pensei e já tinha desistido quando me deparei com essas casinhas que ficam em frente ao Sesc Belenzinho. Achei! Pronto! Procurei um ângulo, sentei e comecei a rabiscar freneticamente. Várias pessoas pararam pra conversar e eu gosto quando isso acontece. Acho que a interação com os passantes é uma das coisas mais legais que o desenho urbano proporciona.

Segundo um dos moradores, que veio ver o que eu estava fazendo e dividiu um amendoim de casca comigo, essas casas serviam de residência para alguns dos antigos trabalhadores da fábrica de tecidos Moinho Santista S.A onde hoje está instalado o Sesc.


João Pinheiro é Ilustrador, artista plástico, autor de histórias em quadrinhos e infantis e professor, com livros publicados por várias editoras. É autor de Kerouac, (2011, editora Devir Livraria) e O espelho de Machado de Assis em HQ (2012, Mercuryo Jovem, em parceria com Jeosafá Fernandez Gonçalves).  Do Urban Sketchers, em parceria com Jeosafá tem vários livros infantis publicados, dois dos quais selecionados pela SEE-SPFaz de conta no jardim (2010, Mercuryo Jovem) e Um barco, um passarinho (2010, Plêiade). Publicou quadrinhos nas revistas: Front (Brasil), Graffiti (Brasil), Hipnorama (Argentina), Inkshot (EUA). Diário gráfico:  http://vagulino.tumblr.com/ - Site: http://jpinheiro.com.br/.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

DIÁRIO VAGULINO - Desenhos das quebradas do mundaréu: 4

Por João Pinheiro.

No dia 14 de maio de 2013, saí para andar e desenhar no centro de São Paulo com um amigo. Sou apaixonado por essa região desde que trabalhei como office boy por lá nos anos 1990.

Lá estávamos, no meio do Pátio do Colégio, ao pé do monumento "Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo".

Esse prédio (no desenho) maior, do centro (que ficou meio confuso) é onde fica a "Comissão Municipal de Direitos Humanos".

Já estou acostumado a desenhar na rua, há muito tempo, e gosto da interação que sempre rola com quem passa e pára para olhar e conversar, mas esse foi um dia atípico e houve momentos em que se formaram verdadeiras multidões em volta da gente. Todo mundo querendo saber por que dois sujeitos se movem até um ponto da cidade, se sentam e começam a desenhar.

Aí surgem as questões: "Isso é trabalho?" "Vocês são estudantes?" "Por que estão fazendo isso?" "Fazem retratos também?" "Tem face?" "Vocês falam assim que nem a gente?" ha ha ha ha... essa foi demais. Fomos fotografados e concedemos entrevistas a estudantes de arquitetura e ainda fomos filmados por um cara que tem um blog e estava visitando o centro para escrever sobre o local. Muitas histórias.

Uma maravilha de dia!!!

João Pinheiro é Ilustrador, artista plástico, autor de histórias em quadrinhos e infantis e professor, com livros publicados por várias editoras. É autor de Kerouac, (2011, editora Devir Livraria) e O espelho de Machado de Assis em HQ (2012, Mercuryo Jovem, em parceria com Jeosafá Fernandez Gonçalves).  Do Urban Sketchers, em parceria com Jeosafá tem vários livros infantis publicados, dois dos quais selecionados pela SEE-SPFaz de conta no jardim (2010, Mercuryo Jovem) e Um barco, um passarinho (2010, Plêiade). Publicou quadrinhos nas revistas: Front (Brasil), Graffiti (Brasil), Hipnorama (Argentina), Inkshot (EUA). Diário gráfico:  http://vagulino.tumblr.com/ - Site: http://jpinheiro.com.br/.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

DIÁRIO VAGULINO - Desenhos das quebradas do mundaréu: 2

Por João Pinheiro.

“É melhor fazer a menor coisa do mundo do que dar pouco valor a meia hora do nosso tempo”.

J. W. Goethe

Todos os dias o metrô segue abarrotado. Quem utiliza o metrô todo santo dia aprende a ser contorcionista do corpo e da alma. Nas televisões espalhadas pelo vagão são exibidas propagandas e dicas variadas. Chega a ser irônico, explico: Outro dia assisti a um vídeo educativo onde um ortopedista dava dicas de como caminhar da maneira adequada. A legenda ia aparecendo enquanto a câmera focalizava as pernas de duas pessoas andando lentamente, o texto era algo como: "Deve-se evitar pisar com a ponta do pé ou ‘marretar’ o chão, dando pisadas muito fortes.

O correto é primeiro aterrissar o pé no solo com o calcanhar, rotar e aterrissar a planta do pé". O problema é que o metrô estava tão lotado, que minha coluna estava torta, forçada por uma bolsa que vinha de trás, meus pés estavam colados devido a falta de espaço, minha mochila pesava no meu pescoço, meu nariz quase grudava na tela, para vocês terem uma ideia. No final desci todo dolorido. Gostaria de saber o que a direção do Metrô e o ortopedista tem a me dizer sobre a maneira como as pessoas são transportadas dentro dos vagões. Tenho certeza que está longe de ser o
modo correto e saudável.

Talvez isso explique a expressão cansada das pessoas dos meus desenhos, dormindo ou de cabeça baixa.  Acho que elas não estão tristes,  elas estão exaustas.

Pela manhã, a multidão ainda está meio que dormindo em pé. Por conta disso, todos caminham como zumbis, automaticamente, seguindo em fila para o trabalho, como gado açoitado. Quem vive em São Paulo, acredito, vive uma eterna relação de amor e ódio com a cidade. Não tem como não notar o ar melancólico que predomina nos vagões. É como se estivéssemos todos esperando que alguma coisa bacana acontecesse, sei lá... sacar o sentido da vida, arrumar um emprego digno, uma garota pra dividir as coisas, o final do ano e toda uma sorte de sonhos que uma pessoa possa ter.

Nos desenhos feitos nos vagões tento focar mais nas pessoas. Praticamente elimino do meu campo de visão tudo que julgo desnecessário, excessivo... Não sei bem como essa escolha se dá, estou tentando prestar mais atenção no processo, mas confesso que tudo ocorre melhor quando não penso nisso; É mais fácil e agradável quando desenho automaticamente, sem planejar muito.



Pela janela, as casas vão correndo pra trás, o Sol mais forte agora, recortando a calçada, vamos observando a paisagem, mas não vemos nada, cada um está em seu próprio mundo, viajando, mergulhado em pensamentos, vagando, à espera de dias melhores.



João Pinheiro é Ilustrador, artista plástico, autor de histórias em quadrinhos e infantis e professor, com livros publicados por várias editoras. É autor de Kerouac, (2011, editora Devir Livraria) e O espelho de Machado de Assis em HQ (2012, Mercuryo Jovem, em parceria com Jeosafá Fernandez Gonçalves).  Do Urban Sketchers, em parceria com Jeosafá tem vários livros infantis publicados, dois dos quais selecionados pela SEE-SPFaz de conta no jardim (2010, Mercuryo Jovem) e Um barco, um passarinho (2010, Plêiade). Publicou quadrinhos nas revistas: Front (Brasil), Graffiti (Brasil), Hipnorama (Argentina), Inkshot (EUA). Diário gráfico:  http://vagulino.tumblr.com/ - Site: http://jpinheiro.com.br/.