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terça-feira, 29 de setembro de 2015

Beethoven.sp.br


Por Augusto Rodrigues.


Quando entrei na fila, estiquei o pescoço para o lado e contei as pessoas à minha frente: doze. Seis senhoras, dois senhores, um carequinha de meia idade, um gordinho de uns trinta anos, um adolescente sonolento e uma moça baixa. Todos muito bem vestidos.
As seis senhoras conversavam sobre a acústica de casas de concerto na França e na Itália. Os dois senhores não se falavam. O carequinha lia a Veja. O gordinho lia o Estadão. O adolescente sonolento ouvia música nos fones de ouvido. A moça baixa olhava em volta e para as pessoas na fila, batendo o bico do sapato no chão. 
Era um belo dia: o sol iluminava o céu claro e já começava a esquentar. Embora o movimento na praça fosse ainda baixo, passava um ou outro a pé por ali a todo o momento. Alguns até cruzavam pela fila, em vez de contorná-la. Um deles era um ceguinho negro, muito pobre, que apalpava o chão com uma vareta, talvez ainda neófito nessa prática, pois tinha muita dificuldade de andar pela rua. De repente, trombou com uma das senhoras na fila, que ficou horrorizada.
–– Desculpem. Onde é o metrô? — perguntou o ceguinho.
–– É mais para lá. Aqui é a Sala São Paulo –– respondeu o carequinha, com tom de piedade.
Como estávamos todos virados para o outro lado, não tínhamos visto o ceguinho se aproximar. Depois que passou por nós, ele ia ainda rente às paredes da Sala, às vezes esbarrando em suas quinas. Mais lá à frente, vi que um homem que passou por ele, também negro, ofereceu ajuda para conduzi-lo até aonde queria ir.
Dois minutos em seguida, um mendigo, ainda criança, pediu ao carequinha um real para comprar um café com leite. Este lhe deu o dinheiro, e voltou a ler sua Veja. Um minuto depois, mais dois mendigos infantis, sujismundos e esfarrapados, vieram pedir dinheiro às senhoras e ao carequinha. Também para um café com leite. As senhoras negaram e se afastaram, com uma expressão de repulsa e medo. Com o cenho franzido, elas olharam para a unidade comunitária móvel da Polícia Militar estacionada logo ali em frente. O carequinha deu um real para cada uma das crianças, que lhe agradeceram muito. Após mais alguns instantes, o primeiro menino voltou.
–– Muito obrigado, senhor. Deus te abençoe — disse ele ao carequinha, mostrando o copo de café com leite na mão.
O carequinha sorriu e não disse nada. O menino foi embora. As senhoras o acompanharam com os olhos.
“Sei que este é um concerto concorrido, por isso cheguei uma hora antes de a bilheteria abrir” –– pensei eu comigo. “Além do mais, tenho estado esperando para assistir à Nona Sinfonia há mais de vinte anos. Aliás, os músicos bem que poderiam ter alguma outra entrada, para não ter de ficar cruzando a fila da bilheteria para entrar e sair da Sala. A maioria deles parece ser loira de olhos claros. Algumas moças têm uma expressão bem eslava, talvez russa.”
Junto com o crescente movimento de músicos entrando, a fila aumentava atrás de mim: agora eram mais dez que também esperavam ansiosos pela abertura da bilheteria, dali a meia hora. Quando olhei para a rua Mauá para verificar se meu carro ainda estava ali, vi uma mulher de meia idade, bastante obesa, surgindo de repente com um sorriso efusivo entre os mendigos e os músicos, e olhando para a fila. Foi recebida logo depois pela moça baixa, bem à minha frente. As duas sorriam, parecendo felizes com o encontro. 
Um senhor com os seus setenta anos, que estava atrás de mim, saltou à frente e abordou a recém-chegada.
–– Se vai comprar ingresso, vá para o fim da fila — disse ele, com firmeza.
A mulher obesa ignorou o senhor, que tinha um forte sotaque alemão, olhos claros atentos por trás dos óculos, e um corpo esguio ligeiramente arqueado. O homem voltou ao seu lugar. Após cinco minutos, tornou a abordar a mulher:
–– A fila está aumentando lá atrás. Você está perdendo tempo.
–– Eu já tinha avisado a ela que chegaria mais tarde. Eu venho de muito longe –– retrucou a mulher. O senhor não se impressionou, e disparou:
–– Ah, sim, então eu tenho dez amigos que morão muito longe que entraram aqui no fila quando chegarem também, passando no frente de todos esses outras pessoas que chegão aqui primeira!
Indignado, embora ainda contido, ele entrou na bilheteria e foi falar com alguém. Voltou e retomou seu lugar atrás de mim. Logo depois, saiu da fila novamente e abordou o carequinha, logo à frente das duas mulheres, procurando ganhar um partidário.
–– Volta para o seu lugar, cara, e fica na boa. Olha esse sol, esse céu azul. Não vou deixar você estragar meu dia — retrucou o carequinha.
O alemão tentou ainda reclamar com alguns dos homens mais atrás, que, assim como a mulher obesa, o ignoraram. Percebeu então que ninguém ali parecia se importar com o fato de aquela mulher ter “furado” a fila, nem mesmo os seguranças ou o pessoal da bilheteria.
         Faltavam dez minutos para a abertura das portas. Uma mulher, sujismunda e esfarrapada, veio em direção à fila e abordou uma das senhoras, enquanto esta papeava com suas companheiras sobre os concertos que assistira em Viena, por tantos anos a capital mundial da música erudita.
–– Senhora, dá uma moeda pra mim tomar um café? –– disse a pedinte.
A senhora negou e, com uma expressão de repulsa e medo, se encolheu. As outras senhoras olharam para o segurança ali na porta, que, para o horror de todas elas, gargalhava e gesticulava com um dos homens da limpeza, de costas para a fila. A moradora de rua se afastou, com a raiva, a vergonha e a miséria estampadas nos olhos. O alemão atrás de mim, agitado e inconformado, discutia com todos os outros na fila, esperando que compreendessem o que acontecia ali. Alguns também acreditavam que aquilo não era certo, mas não faziam menção de querer intervir. O homem esguio de olhos claros parecia estar sozinho em sua causa.    
Dez horas. A bilheteria abriu, e as pessoas começaram a entrar. Inquieto, o alemão tirou o celular do bolso e discou o número do Ingresso Rápido, que tinha pedido a alguém atrás dele.
–– Sim, estou aqui no fila do Sala São Paulo para comprar passagens para o Nona de Beethoven. Quero saber se pôde comprar lá com vocês. Sim, sim, pode ser. Plateia central é bom. Duas ingressos, por favor. Eu tenho Visa. Obrigado.
Desligou e foi embora. Quando ele saiu da fila, todo o pessoal mais à frente, que não tinha ouvido sua conversa como eu ouvi, estava curioso para saber o que havia acontecido com o “gringo encrenqueiro”. “Ele foi embora? Ele desistiu? Tem gente que gosta de criar problema mesmo, não é? Deve ter levantado com o pé esquerdo. Que sujeito mais desagradável. Ele queria era estragar o nosso dia. Sujeito infeliz” –– eram os comentários que se ouviam.
A fila andava depressa, já que havia três caixas atendendo lá dentro (segundo especulavam à minha frente). Atrás de mim, já haviam se juntado dezenas de outras pessoas. A fila era grande. O gringo tinha mesmo sumido, mas os olhares de muitos ainda o procuravam, nervosos.  
“No dia de sua première, sete de maio de 1824” — pensava eu comigo, enquanto olhava as pessoas entrando ––, “o Kärntnertortheater em Viena estava tão lotado quanto a Sala São Paulo estará daqui a dois meses, quase duzentos anos depois. Quase que posso ver o mestre envelhecido no palco, de costas para o público, sendo chamado pela jovem contralto Caroline Unger para que se virasse, pois a plateia aplaudia com ardor. Como ele não podia ouvir, tinha de ver todas aquelas palmas absolutamente jubilosas. As cinco ovações que o público lhe dera naquela noite era algo nunca antes visto para alguém que não pertencia à família real e nem mesmo era funcionário do Estado. Mas aquela noite não terminara ali. Depois da apresentação, o velho mestre, muito comovido com tamanha acolhida, foi acompanhado de volta à sua casa na Schwarzspanierstrasse por alguns amigos, que lhe mostraram, então, com mais do que um certo receio, os números da conta do concerto. Quando o mestre leu o que restara para ele após o pagamento do teatro, dos músicos e de todos os copistas, caiu duro, desmaiado. Os amigos ergueram-no e o deitaram no sofá, onde ele foi encontrado na manhã seguinte pelos criados, ainda nas roupas do concerto”...
Passei a porta de entrada, e agora me via muito próximo dos caixas, atrás somente da moça baixa e da mulher obesa, que conversavam sobre uma nova loja de sapatos que havia aberto no bairro onde moravam. Eu já ouvia no fundo da minha mente os primeiros compassos do Allegro Assai da grande sinfonia e pensava nos meus mais de vinte anos de espera por aquele momento. As duas mulheres, enquanto discutiam sobre os modelos dos sapatos da loja, ainda olhavam para trás em busca do gringo. De súbito, a mulher obesa voltou-se para mim e perguntou:
–– Você viu para onde ele foi? Será que ele foi embora?
Eu respondi que achava que ele de fato tinha ido embora. Não o vira mais.
         O carequinha passou diante de nós com seus ingressos e foi embora assobiando uma melodia popular. Neste momento, o caixa do lado direito se levantou e veio em nossa direção com uma expressão consternada.
–– Gente: sinto muito, mas os ingressos estão esgotados — disse ele olhando para mim e para os outros na fila.
Silêncio geral.
–– Como?! Não pode ser! São dez e quinze! –– berrou então a moça
baixa, indignada.
Eu mesmo senti um frio me atravessando a espinha dorsal. Como podiam os ingressos esgotar-se em apenas quinze minutos?
         O homem do caixa agora caminhava ao longo da fila, conversando com as pessoas.
–– A maior parte dos ingressos está sempre reservada aos assinantes, por isso restam muito poucos assentos livres, que logo são preenchidos — explicava ele. — As vendas por telefone e pela internet começaram também às dez horas, e o número de ligações foi muito grande. Há também outros pontos de venda de ingressos além deste aqui, que também receberam muita gente nestes quinze minutos. Sinto muito.
O homem era amável e percebia a frustração e a indignação no rosto de todos nós.
A frustração e a indignação da moça baixa e da mulher obesa pareciam as mais intensas de todas –– afinal de contas, foi na vez delas que os ingressos se acabaram. Se tivessem chegado à fila meia hora antes... Ainda não podiam crer no que acontecia ali, e vociferavam e bradavam de maneira quase bestial com os caixas da bilheteria.
–– Eu vim de muito longe para isso aqui! –– vociferava uma.
–– Você imagina o tempo que eu perdi e o custo que eu tive para chegar aqui a esta hora, num dia de semana? –– bradava a outra.
Não havia o que fazer. Ponto final.
Enquanto me encaminhava em direção ao carro, de cabeça baixa, pensei no sujeito alemão. Ele, diferentemente de mim, estaria lá dois meses depois para ouvir a grande música de Beethoven.


Goethe e o Werther

Por Augusto Rodrigues

Johann Wolfgang von Goethe, o mais festejado representante das letras germânicas, nasceu em 1749, em Frankfurt, na Alemanha, e teve uma educação clássica. Desde cedo se interessou por línguas e literatura. Estudou Direito em Leipzig e Estrasburgo, por vontade do pai. Também obedecendo à decisão do pai, chegou em Wetzlar em maio de 1772, para praticar a advocacia no tribunal superior local.
 

Logo começou a distanciar-se das obrigações jurídicas e procurar diversão em bailes e passeios. Num desses bailes, em 9 de junho de 1772, conheceu Charlotte Buff (a Lotte, de Werther), já noiva de Johann Kestner (o Albert, de Werther). Apaixonou-se por ela e, ao ver que se tratava de um amor impossível, fugiu da cidade, sem se despedir de ninguém. Carlota, muito tempo depois, já viúva, fez uma visita a Weimar (cidade onde Goethe vivia na época), e encontrou o mestre já consagrado, que a recebeu de maneira cordial, porém distante. Depois disso, não mais voltaram a ver-se. 
Goethe escreveu o Werther, romance epistolar, em quatro semanas. Napoleão o leu sete vezes e o carregava sempre consigo. O livro é uma balanceada mistura de autobiografia e ficção. A primeira parte é autobiográfica; a segunda parte e o desenlace, por sua vez, baseiam-se na história do infeliz Karl Wilhelm Jerusalem (1747-1772). Outros autores dialogaram com o livro, como Friedrich Nicolai (1733-1811), em As alegrias do jovem Werther, e Thomas Mann (1875-1955), em Carlota em Weimar
Goethe foi jurista, poeta, romancista, filósofo, dramaturgo, ator, diretor de teatro, desenhista, político e estudante de ciências naturais — o último gênio universal. Morreu em 1832, sentado à poltrona ao lado de sua cama, um ano depois de concluir o Fausto, a “obra de sua vida”. Escreveu, entre outros: As afinidades eletivas, Doutrina das cores (ambos também editados pela Nova Alexandria), Poesia e verdade, Viagem à Itália, assim como poemas épicos e líricos. 

Augusto Rodrigues é mestre em Literatura Alemã pela USP. Atua como editor no Grupo Editorial Nova Alexandria e como tradutor autônomo. Já traduziu Orhan Pamuk, Jean Paul, Peter Handke, entre outros. 

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OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHERR$32,00
Coleção: Grandes Clássicos
Autor: J. W. Goethe
Apresentação: Willi Bolle
Tradução: Leonardo César Lack
Idioma: Português
Editora: Nova Alexandria
Edição: 2
Ano: 2011

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A fuga das prisões de Veneza

Por Augusto Rodrigues.

Veneza sempre foi um palco essencial. Não há um escritor dos graúdos (e mesmo dos menos graúdos) que não tenha ambientado alguma de suas obras, fictícias ou não, na cidade das lagunas. Shakespeare, Marcel Proust, Henry James, Thomas Mann, Italo Calvino, Orhan Pamuk, e por aí vai.
         No caso de Giacomo Casanova, o famoso galanteador já retratado na telona por diretores como Ettore Scola e Federico Fellini, ele não precisou aliar sua imaginação a um demorado trabalho de pesquisa para erguer o cenário desta sua história. Ela se passou lá mesmo. Lá, nos Chumbos, a prisão “de segurança máxima” anexa ao Palácio dos Doges, onde o veneziano foi encarcerado em 1755, acusado de blasfêmias, “seduções”, brigas e controvérsias públicas. Por tudo isso, devia cumprir cinco anos de reclusão. Pois é. Não cumpriu.
Redigido em língua francesa em 1787 e publicado em Leipzig, na Alemanha, em 1788, este relato de uma fuga espetacular, cheio de humor, acaba sendo um memorável romance de aventura, sobretudo por sua riqueza de peripécias e reviravoltas, narradas de maneira bastante acessível.
         Uma boa fuga, também, do nosso cotidiano.


Conheça mais sobre o livro HISTÓRIAS DA MINHA FUGA DAS PRISÕES DE VENEZA, na loja virtual da Nova Alexandria:

HISTÓRIAS DA MINHA FUGA DAS PRISÕES DE VENEZA

Coleção: GRANDES CLÁSSICOS
Autor: Giacomo Casanova.
Tradutor: José Miranda Justo
Idioma: PORTUGUÊS
Edição: 1
Ano: 2012

terça-feira, 8 de setembro de 2015

O homem do cemitério


Por Augusto Rodrigues.

Caminhando pelos corredores da mal iluminada estação de metrô, o botânico paulistano Adalberto olhava com uma mistura de asco e curiosidade para as paredes descascadas cobertas de pichações coloridas, dos dois lados do caminho que levava à luz do dia lá fora.
A estação no bairro de Kreuzberg da capital germânica era uma das várias pelas quais ele passava durante suas andanças pela cidade naquele dia de abril ensolarado, mas bastante fresco, em que o vento que soprava aqui e ali lhe enregelava a ponta do nariz e as orelhas descobertas. Em meio às caminhadas, de vez em quando ele tomava o metrô para evitar o cansaço ou o enregelamento excessivo do nariz e das orelhas descobertas.
Quando subiu os degraus em direção à rua e sentiu o calor do sol no rosto, algo peculiar lhe chamou a atenção: à sua frente ia um homem muito velho e esguio, vestido estranhamente numa kurtka[1] negra bastante desgastada, andando de maneira humilde e carregando no ombro uma pequena trouxa. Nos pés tinha longas botas como Adalberto nunca havia visto em toda a sua vida.
Perplexo com aquela visão, e como não tinha nada específico a fazer naquela tarde, Adalberto decidiu seguir o homem esquisito e descobrir aonde ia. Este saiu da estação e foi caminhando pela Avenida Mehringdamm, e de súbito virou à direita na Blücherstrasse. Olhava para um lado e para o outro com certa insegurança, como se estivesse perdido. Para onde estaria indo? De súbito, e de um salto, virou para trás e começou a voltar. Adalberto deixou que passasse por si, depois virou e continuou a segui-lo. Quando o viu de frente, com o canto dos olhos, observou que trazia uma longa barba grisalha e, sobre a kurtka, tinha amarrado um estojo de botânico de séculos atrás. O homem voltou à Mehringdamm e, quase trombando, por descuido, com um ciclista que vinha pela ciclovia, tomou a calçada que corre ao longo dos velhos cemitérios, atirando olhares curiosos para o comprido muro que os cerca.
O sol brilhava e projetava a sombra de Adalberto na calçada, mas, quando observou o homem à frente com mais cuidado, de repente se deu conta de que ele não projetava sombra alguma. Como isso é possível? Um homem sem sombra?! Os outros poucos transeuntes dali não pareciam surpreender-se com aquela figura anacronicamente trajada e que não projetava sombra alguma, uma vez que nem sequer olhavam para ele quando passavam. Quando o muro foi interrompido por um alto portão de ferro preto, o velho virou à esquerda e entrou. Adalberto o seguiu. Como podia um homem sem sombra ainda ser visto? Sem sombra ele seria transparente, desprovido de substância –– seria algo abstrato!
         Aquele era um complexo de cemitérios que Adalberto não conhecia. Por que diabos o sujeito entrou ali? Para fazer o quê? Para visitar alguma sepultura, é claro. Algum antepassado? Mas como um homem sem sombra poderia ter antepassados? Antepassados também desprovidos de sombra? Ou teria ele perdido a sombra em alguma altura da vida? Mas como alguém poderia perder sua sombra?! E por que uma figura despojada de sombra apareceria para um botânico brasileiro de viagem no velho continente?
Após entrar, o homem encaminhou-se em direção à alameda número cinco, próxima ao muro, para onde Adalberto o seguiu um pouco mais de longe. O silêncio reinava em torno dos caminhos arborizados, onde todos aqueles anônimos descansavam em sua última morada, como pensava Adalberto consigo, cada vez mais intrigado com aquela figura como que saída de um conto de fadas remoto. Mas o homem sem sombra era real, estava ali, diante dos seus olhos a certa distância, e não dava a impressão de se dar conta ou de se incomodar com o fato de estar sendo seguido. 
          Ele andava, andava, e não encontrava o que procurava. Adalberto seguia, seguia, e não entendia o que ele procurava, ou o que fazia. O ancião perambulava aleatoriamente entre as sepulturas, examinando agitado cada uma das lápides, que variavam de tamanho e imponência de acordo com a estatura social ou a importância histórica do morto. Adalberto não se cansava de segui-lo, e sua curiosidade aumentava a cada instante. O homem estranho parou diante de uma lápide, não muito alta e relativamente distante das outras no entorno. Fez uma ligeira reverência com a cabeça e continuou. Adalberto o seguiu, estacando diante da mesma lápide e lendo o que ela dizia: “E.T.W. Hoffmann”, datas de nascimento e morte, além de mais alguns escritos indecifráveis.
         Quando ele levantou a cabeça, viu que o homem ia em direção à alameda de número quatro, pegada ao muro, mas a insegurança do seu passo e seu comportamento ainda denunciavam não saber precisamente onde estava. Mais um pouco adiante, quando parecia dominado pela ansiedade, ele parou mais uma vez, com uma expressão da mais profunda alegria e da mais autêntica comoção, e se ajoelhou diante de uma sepultura. Ela não trazia uma lápide alta, mas certamente apenas uma baixa, de granito ou de mármore, como julgava Adalberto do ponto de onde observava a cena. O homem dava a impressão de estar em lágrimas, mas em lágrimas de comoção alegre e não propriamente de tristeza ou luto.
         Além do botânico Adalberto e do senhor humilde sem sombra, não havia mais ninguém em toda a área tranquila do cemitério naquele instante e, além do zunido do vento da primavera que já soprava ao longo de todo o dia, não se ouvia nenhum ruído sequer proveniente de parte alguma das redondezas. Nem mesmo o cantarolar dos passarinhos que geralmente sobrevoavam a região podia-se ouvir naquela tarde insólita. O homem ergueu-se lentamente e, andando para trás sem se virar, afastou-se da sepultura, olhando para os dizeres com uma profunda reverência. Ali permaneceu por mais alguns instantes, enquanto secava as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto. Adalberto era quem era agora dominado pela ansiedade para descobrir quem de fato atraíra a visita de tal figura.
Quando saiu aquela tarde para caminhar por uma de suas capitais europeias favoritas não suspeitava deparar-se com tal coisa! Mas isso era bastante comum, pensava; durante viagens ao exterior, era frequente nos depararmos com situações inesperadas e até mesmo inusitadas em qualquer esquina. “Inusitado” era um bom adjetivo com que qualificar aquela eventualidade, que ainda não estava esclarecida.
         Adalberto não podia mais conter-se. Como o velho permanecia imóvel diante da sepultura misteriosa e não fazia menção de ir embora, foi indo em frente, pela alameda vizinha, com o intuito de agora observá-lo por trás, pois assim talvez pudesse ver de quem era o túmulo e talvez ainda ouvir algo que ele talvez pudesse estar falando consigo mesmo ou com seu eternizado misterioso (embora, de longe, não tivesse notado nenhum movimento de seus lábios). Quando tomou a alameda quatro e, fingindo olhar outras lápides, se aproximou do homem pelas suas costas, notou que ele agora projetava uma sombra! Impossível! Como poderia ele, somente agora, deixar que o sol lhe projetasse uma sombra? Adalberto assistia atônito àquilo que se dispunha diante dos seus olhos de turista brasileiro. Deus do céu! O que era aquilo?
O homem, depois de se abaixar e se curvar mais uma vez diante da sepultura, tocando com carinho uma plaquinha preta cravada próxima ao chão de terra, começou a afastar-se, dirigindo-se ao portão por onde havia entrado. Adalberto sentiu o sangue inflamar-se em suas veias, alterando sua disposição geral. De um salto, e ainda assim com discrição, foi direto à sepultura e descobriu do que se tratava: era uma lápide de granito marrom levemente inclinada, fronteada por um alegrete de folhas, hortênsias e narcisos amarelos. Em torno do alegrete e da lápide, formando um retângulo, erguiam-se quatro pequenos postes de mais ou menos um metro de altura, ligados entre si por correntes verdes em forma de “x”, que isolavam toda a sepultura. Com dificuldade, Adalberto leu o que dizia a lápide: “ADELBERT von CHAMISSO, GEB. D. 30 JANUAR 1781 GEST. D. 21 AUGUST 1838”. Também: “ANTONIE von CHAMISSO, GEB. PIASTE GEB. D. 30 OCTOBER 1800 GEST. D. 21 MAI 1837”. Adelbert von Chamisso?! Não é o autor daquela história maluca de um sujeito que vende sua sombra por alguma razão? Como é mesmo o nome dele?... Peter Schlehmil! Peter Schlehmil?! Meu Deus! “Ei! Espere aí!”, exclamou ele para a alameda deserta.
Adalberto saiu atrás do ancião e o alcançou na rua, pouco além da entrada do cemitério, onde não mais projetava sua sombra na calçada. Ele caminhava cabisbaixo, a passos lentos, como que se arrastando pelo chão, enquanto segurava a trouxa sobre o ombro.
Adalberto engoliu em seco, e olhou no relógio. Quando ergueu a cabeça, o homem sem sombra havia desaparecido.





[1] Espécie de casaco militar, de origem polonesa. (N.A.)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A casa dos mortos

Por Augusto Rodrigues.


Para alguns dos encarcerados naquele presídio da Sibéria, os outros detentos eram as melhores pessoas que eles já haviam conhecido. Melhores que os membros de sua própria família, seus antigos colegas de trabalho ou seus chefes. Um mosaico humano em circunstâncias extraordinárias é o que Dostoiévski nos revela aqui — com conhecimento de causa —, neste livro agradável e divertido.
Agradável e divertido? Sim. Embora a história se passe no funesto ambiente de um xadrez, apinhado de assassinos dos mais variados níveis de crueldade, a investigação serena de sua psicologia e a narração um tanto anedótica de episódios da cadeia tornam a obra agradável e divertida.
Enquanto seguimos o escrutínio que o autor realiza da filosofia prisional, nós, leitores, entre outras coisas, vemos passar diante de nós um ou outro filme de prisão já visto anteriormente, que, agora, compreendemos com muito mais clareza e profundidade. Chegamos mesmo a pensar até que ponto algumas dessas películas não foram diretamente influenciadas por este relato de Dostoiévski.
Uma vez que a alma humana, criminosa ou não, sempre foi e continua sendo a mesma até hoje, em qualquer lugar do globo, com ou sem tecnologia, temos aqui uma obra universal e atemporal.
Ambos adjetivos das criações geniais.

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