Mostrando postagens com marcador O jovem Mandela. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador O jovem Mandela. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de julho de 2014

ESPECIAL - 95 anos de Mandela

No dia de hoje, Nelson Mandela completaria 95 anos (Mvezo, 18 de julho de 1918 — Joanesburgo, 5 de dezembro de 2013). Neste dia, em homenagem ao herói da luta contra o apartheid, ofereço a o leitor um capítulo de meu romance-biografia O Jovem Mandela:

13º capítulo: Jardineiros e suas searas

DAQUI A CINCO MIL ANOS um pai contará para seu filho dormir a lenda de um herói. Essa lenda dirá de um menino do Transkei, que calçou o primeiro par de sapatos quando ingressou um tanto tardiamente na escola, que viu e viveu os piores tormentos da vida humana, mas que, a despeito de todas as previsões funestas, liderou seu povo em uma saga épica e o conduziu uma vitória gloriosa sobre as mais abomináveis formas de opressão e humilhação do homem sobre o próprio homem. Essa lenda que atravessará os milênios futuros terá um nome: NELSON ROLIHLAHLA MANDELA.


Comparações são sempre imprescindíveis na vida, caso contrário não saberíamos discernir entre o justo e o injusto, o correto e o incorreto, o bom e o ruim. Já analogias são perigosas, porém, guardando-se os devidos cuidados, podem ser úteis.

Quando entrei na universidade, em Fort Hare, parte de minhas atribuições era cuidar de jardim. Outros considerariam essa atividade um tanto sem graça, não eu, que vivi minha infância descalço, a observar a beleza de colinas, árvores, arbustos, gramíneas, e os insetos e animais que se beneficiavam da vegetação.

Naturalmente, quando menino, de pé no chão e pedra nas mãos para dar em passarinho, minha preocupação essencial era trepar nas árvores e sentir, lá do alto, a brisa fresca ou o mormaço quente a subir do chão empoeirado. E também observar o azulado das montanhas ou a linha perfeita do horizonte.

Na universidade, se tratava de aproveitar a quietude das plantas para pensar sobre o curso, sobre a vida e sobre o porquê de haver tantos pobres e tão poucos ricos sobre a face da terra. Uma ou outra vez levei uma ferroada de abelha enquanto pensava, mas, muitas vezes, meus pensamentos me ferroaram muito mais.

Era verdadeiramente interessante observar como algumas flores eram abundantes e exuberantes, mas de vida breve, enquanto outras eram modestas em número, tímidas na beleza, mas duradouras. No início tinha pena das duas: das primeiras, pela brevidade; e das segundas, pela falta de maiores atrativos.

Porém, observei que alguns passarinhos e insetos polinizadores frequentavam apenas um dos tipos de flores, enquanto outros, apenas o outro. Também observei que a simples mudança de lugar de um vaso pode injetar novas energias numa planta ou arruiná-la de uma vez.

E não apenas o grau de incidência de sol era determinante de sucessos ou insucessos, mas também a exposição ao vento. Algumas plantas suportavam excelentemente correntes contínuas de vento, outras, em pouco tempo murchavam e perdiam as folhas, se expostas a elas.
Confesso que estraguei algumas plantas ao realizar poda errada ou, simplesmente, por temor, não realizar poda nenhuma. Embora um jardim pareça uma realidade uniforme, não é. Cada planta tem sua própria forma de ser e de viver. Uma poda mais cuidadosa é exigida por uma, enquanto outra, de tempos em tempos, necessita de uma poda radical para que novos ramos verdes e sadios surjam.

As particularidades chegam mesmo a minúcias inimagináveis para um iniciante, como era o meu caso. Em algumas ocasiões, doido para terminar rápido o trabalho e ir me divertir com os amigos, me precipitava no trato de alguns exemplares. Uma vez me surpreendi com o desenvolvimento insatisfatório de um tipo de trepadeira, e passei a observá-la com maior atenção. Ela lançava ramos até vigorosos para todos os lados, mas estes não chegavam a lugar algum.


Intrigado, quando um desses ramos avançava sobre o caminho, procurei, com o máximo cuidado, enredá-lo em uma haste que fixei no chão. Tudo ia bem, até que toquei na ponta do ramo. Apesar de a parte de baixo ser flexível, mesmo elástica e firme, a ponta era extremamente frágil e quebradiça. Então, me dei conta de que, toda vez que procurava ajeitar aleatoriamente o emaranhado de ramos, eu mesmo partia suas pontas e condenava a planta ao nanismo. Depois disso, procurei orientar para a posição adequada cada ramo individualmente, tocando apenas em suas partes mais firmes, inferiores. Demorou um pouco, mas a planta vicejou. A verdade é que, até aquele momento, a praga daquela planta era o seu jardineiro afobado.

Tratar cada planta como um indivíduo do jardim foi uma descoberta muito significativa. Enquanto algumas exigem cuidados diários, para outras esses cuidados diários se tornam um estorvo. Algumas aceitam ser manipuladas, outras, principalmente nas regiões de brotos, o simples calor humano ou toque das pontas dos dedos as condena à morte. É mesmo curioso, mas essas mesmas plantas que rejeitam o contato humano, por mais afeto que se imprima nele, aceitam bem ser manipuladas com hastes de metal ou de bambu.

E há eventos com as quais temos simplesmente que nos conformar: algumas plantas crescem rapidamente, tornam-se altas e frondosas, enquanto outras crescem lentamente, nunca atingem grandes alturas e seus galhos são, embora elegantes, finos como taquaras.

Some-se a isso que é necessário sempre contar com as ervas daninhas, que devem ser eternamente removidas, pois sempre voltam, seja por um pedaço de raiz ter permanecido oculto na terra, seja pela ação do vento, que não cessa de semeá-las.

Porém, há ainda, é preciso reconhecer os limites de nossa condição, as perdas, algumas inevitáveis e extremamente dolorosas. 


Quando uma planta é acometida por uma doença de difícil detecção, e cujo tratamento é tardio ou ineficaz, ela fatalmente fenecerá. Se foi bonita e frondosa, se foi frágil e elegante, dela ficará apenas a lembrança e, eventualmente, as sementes ou mudas que gerou. Nesse caso, o carinho para com as sementes e as mudas deve ser redobrado, para que o patrimônio da espécie não sofra risco de extinção e, pelo contrário, resulte em novos frutos e sementes.

Nossa luta por um mundo mais justo se parece muito com um jardim, em que os jardineiros são aqueles que pugnam por transformações verdadeiras, aqueles que os republicanos espanhóis, em sua luta contra o fascismo, chamavam “juventude do mundo”.

Mas isso é uma analogia, uma licença poética, que requer o máximo de cuidado e atenção da parte de quem a recebe, pois o mundo dos dias atuais não é exatamente um jardim para todos e, embora revolucionários sejam uma espécie de jardineiros, sua seara é de esperanças e sonhos, que não são nada se não brotarem do povo, se não estiverem enraizados no povo, e se não florescerem e frutificarem para o povo.

NOTAS

1) Duas das atividades mais apreciadas por Nelson Mandela eram a jardinagem e a horticultura. Quando estudante cuidou do jardim de um dos professores de Fort Hare, como uma de suas atribuições extraclasse. Tão logo lhe foi permitido, cultivou na ilha de Robben hortaliças e tomates, que inclusive chegaram a abastecer modestamente a cozinha da penitenciária. Sem nunca perder oportunidade para extrair lições de tudo na vida, Mandela aproveitou essa sua inclinação para refletir sobre o movimento de luta contra o apartheid. Em sua autobiografia ele observou: “De certa forma, eu via a horta como uma metáfora para certos aspectos de minha vida. Um líder também deve cuidar de sua horta; ele também planta sementes, e então observa, cultiva e colhe o resultado. A exemplo do jardineiro, um líder deve se responsabilizar pelo que cultiva; ele deve ocupar-se com seu trabalho, tentar repelir os inimigos, preservar o que pode ser preservado e eliminar o que não pode prosperar” (Mandela, 2012, p. 597-598)

2) Em março 1980 o jornal Johannesburg Sunday Post estampa em primeira página o slogan da campanha internacional LIBERTEM MANDELA! Idealizada por Oliver Tambo e pelo CNA, agora uma força poderosa e irresistível, a campanha personaliza no prisioneiro 466 da ilha de Robben todo o esforço pela libertação dos presos políticos da África do Sul e pelo fim do apartheid. A partir desse momento, a história se acelera também dentro da penitenciária: a estratégia de aniquilação dos líderes da luta pela liberdade fracassou. A semente da liberdade, plantada com cuidado por todo o país, inclusive dentro das prisões, e regada amorosamente pelo sacrifício de milhões de africanos ao longo dos anos, tornou-se uma árvore frondosa, que começa a dar uma exuberante florada, cujos frutos eclodirão em abundância a partir do final dessa década.


segunda-feira, 14 de julho de 2014

ESPECIAL - Literatura

Nadine Gordimer com Nelson Mandela.
No dia de ontem calou-se definitivamente Nadine Gordimer, uma das o vozes mais contundentes na luta contra o apartheid no campo da literatura. Prêmio Nobel de 1991, a escritora publicou mais de 30 títulos, vários dos quais censurados e proibidos na África do Sul, quando da vigência do regime de segregação racial. Em 2007 esteve no Brasil para participar da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty).

Aos 90 anos, a escritora vinha lutando contra um câncer de pâncreas que foi paulatinamente dificultando suas atividades. Exigente com seu trabalho, Nadine afastou-se da produção literária, em razão de a doença debilitá-la demais para o exercício da profissão nos níveis que ela considerava adequados.

Quanto se tornou presidente da República da África do Sul em 1994, Nelson Mandela (que completaria 96 anos no próximo dia 18 de julho) fez questão de receber a escritora. Traduzida para diversos idiomas, sua obra espalhou-se pelo mundo, e seguirá repercutindo pelo tempo a fora seu profundo humanismo e amor pela dignidade humana.

terça-feira, 27 de maio de 2014

POR DENTRO DA ESCOLA - Jovens com opinião e atentos ao Brasil de hoje

Estudantes do Colégio Dominante discutem a Copa do Mundo.
Por Jeosafá.

Na semana passada e ontem estive com estudantes e professores do Colégio Dominante, na Zona Norte de São Paulo. A escola considerou que alguns de meus livros seriam úteis à formação de seu alunos, de maneira que os adotou e me convidou a falar sobre eles e sobre os temas que os motivaram.

No dia 22 de maio tive uma ótima manhã e tarde com os estudantes dos 8o. e  9o. anos, quando falamos d'O diário secreto das Copas. Entrevistei os alunos sobre suas expectativas em relação ao livro, sobre o pano de fundo do enredo,  a lenda medieval de Tristão e Isolda, e sobre o pano de fundo temático, a Copa.

Assim como em outras escolas em que estive para falar do mesmo livro, a questão da possibilidade de manifestações violentas durante o torneio veio a baila. Todos estão ansiosos pelo pontapé da partida inicial do dia 12, mas não escondem suas preocupações.

A Copa em debate.
Embora tenha havido consenso em relação à justeza das reivindicações que tem ocupado as ruas, todos concordaram que a violência prejudica a luta por mudanças do Brasil, entre as quais as mais apontadas foram relativas às saúde, à educação e à segurança.

África e Nelson Mandela.
Fui perguntado se acredito que haverá maior violência e menor segurança do que em junho de 2013. Respondi que a tendência é haver menor repercussão e que, em se tratando de Copa, os efetivos da polícia, das Forças Armadas e até de serviços de segurança de equipes estrangeiras seriam muitíssimo numerosos. Até em razão da presença de seleções estrangeiras potencialmente alvo de atentados, como  a dos EUA, a segurança tornou-se um assunto de Estado - não só aqui, mas também em outros torneios internacionais pelo mundo.

Porém, também afirmei que o fato de a imensa maioria dos brasileiros ser contra a violência já é uma força de inibição enorme em relação a quem deseja estragar a festa com vandalismo ou atos criminosos. Afinal, não é pondo fogo em ônibus que se melhora o transporte público, nem quebrando ponto de ônibus.

A conversa foi muito legal, mas senti que, na verdade, as apreensões só se dissiparão quando a bola rolar e a Copa transcorrer em normalidade.

A Zona Sul sob os olhos de  Borba Gato.
Após essa conversa, fui entrevistado por alunos do Colégio que avançara à 4a. etapa das Olimpíada de  História do Brasil. O assunto da entrevista fui o período de censura vivido durante a ditadura militar brasileira. Foi tão legal, que o tempo acabou e continuei a responder a entrevista pela internet.

Ontem, voltei ao Colégio para falar do livros Zona Norte e  Zona Sul, da série Era uma vez no meu bairro, e da África, a propósito do livro O jovem Mandela. Nos dois primeiros, a questão da imigração espanhola para o Brasil, do êxodo do Nordeste para o Sudeste, da violência contra crianças e jovens, do tráfico de drogas e da corrupção policial foram o foco principal. Basta dizer que o tempo reservado acabou sendo curto.

Com Murilo, Nathaly, Felipe e Bianca, da Olimpíada de Historia.
Quando a questão da África se apresentou, as grandes navegações, a patilhas arbitrária do continente entre as potências europeias ao longo e cinco séculos, o apartheid e Nelson Mandela ocuparam todo o tempo. Obviamente, muita coisa ficou por dizer e ouvir (pois os jovens participaram muito), o que é, sem dúvida, sinal de que precisamos voltar a esses assuntos.

Fica ao colégio e seus estudantes, então, o desafio.